De acordo com um requerimento enviado na terça-feira por Maria Clarisse Barros ao Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia, ao qual a agência Lusa teve hoje acesso, o Boavista deveria ter cumprido a tranche até 10 de fevereiro, mas falhou o pagamento, que só foi garantido com intervenção do acionista maioritário da SAD das panteras, o hispano-luxemburguês Gérard Lopez.
Com o objetivo de não agravar os prejuízos da massa insolvente, essa regularização permitiu ao Boavista manter o seu estabelecimento e preservar as modalidades amadoras, impedindo que a administradora de insolvência reiniciasse de imediato as diligências para encerrar a atividade do clube, sem necessidade de convocação da assembleia de credores.
“A suspensão temporária das diligências não acarreta qualquer prejuízo para a massa insolvente, além de permitir evitar constrangimentos associados ao encerramento das modalidades, assim como maior visibilidade ou segurança sobre o complexo desportivo do clube, numa altura em que estão em vias de ser iniciadas as diligências de venda dos imóveis apreendidos”, explicou Maria Clarisse Barros.
Os axadrezados já tinham depositado 55.000 euros em dezembro de 2025 e 53.371,64 em janeiro, sendo que têm de pagar nos primeiros três meses de 2026, sempre até ao dia 10, mais 96.000 euros, acrescidos da quantia indicada pela administradora de insolvência para suportar os gastos mensais.
Em 18 de fevereiro, já depois dos “donativos com caráter liberatório” de Gérard Lopez, Maria Clarisse Barros comunicou à direção de Rui Garrido Pereira, eleita em janeiro do ano passado, ter prescindido da sua “coadjuvação na gestão” da atividade do clube.
“Desde aquela data, a gestão do estabelecimento do Boavista passa a ser assegurada pela administradora de insolvência e por pessoa a indicar para o efeito, com o acordo da comissão de credores”, anunciou.
Em 26 de janeiro, um credor pediu a Maria Clarisse Barros que afastasse a direção do Boavista e ficasse responsável pela gestão do clube, que deixou de ter equipa de futebol sénior há quatro meses e tinha chegado em dezembro a acordo com os credores para manter a atividade, sob o compromisso de cobrir o défice corrente da sua exploração.
A liquidação do Boavista foi aprovada em setembro, por estar a gerar prejuízos na massa insolvente, acumulando dívidas superiores a 150 milhões de euros (ME).
O clube detém 10% do capital social da SAD, que deveria disputar a Liga 2 em 2025/26, mas deixou de ter equipa profissional no verão e foi relegada por via administrativa para o escalão principal da Associação de Futebol do Porto, no qual é 18.ª e última classificada e joga como anfitriã no Parque Desportivo de Ramalde, a 2,5 quilómetros do Estádio do Bessa, inutilizado desde maio.
O Boavista inscreveu-se na quarta e última divisão distrital, mas, por estar solidário com as dívidas da SAD, que soma sete impedimentos de inscrição de novos futebolistas junto da FIFA, abdicou de competir em outubro, sem ter disputado qualquer partida esta época, tendo acusado a sociedade axadrezada de falhar o cumprimento integral do protocolo com o clube.
A SAD, liderada pelo senegalês Fary Faye, tem alinhado com antigos e atuais jogadores da respetiva equipa de sub-19, integrada na 2.ª Divisão nacional desse escalão, e ainda não desbloqueou as restrições da FIFA, que vigoraram em anos anteriores e reapareceram em março de 2025, impossibilitando, para já, a utilização dos reforços oficializados no verão.
O clube tinha lançado no verão uma equipa sénior independente da SAD, afetada pela ausência de pressupostos financeiros aquando do licenciamento para as competições nacionais e cujo direito de apresentar um plano de recuperação foi aprovado por maioria pelos credores, que votaram por unanimidade a continuidade da atividade daquela sociedade.
Despromovido à Liga 2 em maio, após ter fechado a edição 2024/25 da Liga no 18.º e último lugar, o Boavista concluiu um trajeto de 11 épocas seguidas no escalão principal, sendo um dos cinco campeões nacionais da história, face ao título conquistado em 2000/01.
