Análise: Atlanta Hawks obrigados a tomar uma decisão crucial

Para onde vão os Atlanta Hawks?
Para onde vão os Atlanta Hawks?Photo par HARRY HOW / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

A época dos Atlanta Hawks começou bem, mas está a tomar um rumo preocupante. Ao ponto de a franquia da Geórgia ponderar separar-se de Trae Young e/ou Zaccharie Risacher, numa altura em que os resultados têm faltado há vários anos.

O ponto de partida da atual equipa dos Atlanta Hawks remonta, naturalmente, a 2018, com a escolha de Trae Young no draft, que foi trocado com os Mavericks por Luka Dončić (mas isso já é outra conversa). O base rapidamente afirmou-se como um dos jogadores mais talentosos da sua geração e era suposto transformar a sua equipa numa candidata ao título.

Três anos depois, os Hawks chegaram às finais de conferência, eliminando os 76ers de Joel Embiid antes de caírem com honra frente aos Bucks de um Giannis Antetokounmpo absolutamente imparável. Ainda assim, tudo indicava o regresso dos dias felizes à franquia da Geórgia. Só que...

... só que, quatro anos depois, Atlanta não voltou a vencer uma série de play-offs, soma duas eliminações consecutivas no play-in e, apesar de um plantel recheado de qualidade, permanece sem apelo nem agravo no meio da tabela da sua conferência. E, ao que tudo indica, a paciência da franquia esgotou-se, estando agora disposta a fazer mudanças de fundo.

Trae Young, o culpado perfeito

Assim, segundo o conceituado Marc Stein, a franquia está, pela primeira vez, aberta à possibilidade de transferir Trae Young. A verdade é que a relação entre o base e a direção tem sido descrita como tensa nos últimos meses. No final da época, "Ice Trae" poderá escolher entre acionar uma player option de 49 milhões de dólares ou recusá-la e tornar-se agente livre. Com o aumento do teto salarial, não restam dúvidas de que poderá assinar um contrato milionário.

O problema está nas razões para esta possível troca. Primeiro, os números: desde que regressou de lesão, Trae Young disputou cinco jogos e os Hawks perderam todos. Pior ainda, em todas essas derrotas a equipa sofreu pelo menos 125 pontos, com um máximo de 152 frente aos Bulls.

Assim, o culpado está encontrado, já que esta série de resultados fez com que o registo dos Hawks passasse de positivo a negativo, estando Atlanta agora na 10.ª posição do Este. Mais grave ainda, o defensive rating fala por si: 115,9 sem Trae Young, 122,1 com ele em campo. Isto apesar de ter ao seu lado Dyson Daniels, finalista do Defensive Player Of the Year na época passada e, de longe, o melhor recuperador de bolas da NBA (mais de 3 steals por jogo na última temporada).

No entanto, as limitações defensivas (para não dizer pior) do base all-star são conhecidas há muito. Já eram tema de discussão na altura do draft, com a possibilidade real de nunca vir a evoluir nesse aspeto. E foi exatamente isso que aconteceu. Talvez seja um pouco tarde para lamentar agora. Ainda assim, só disputou dez jogos esta época e apresenta as piores estatísticas desde a sua época de rookie. Ou seja, é o pior momento para o deixar sair…

O caso Risacher

Mas "Ice Trae" não é o único sob pressão. No defeso de 2024, os Hawks receberam, graças a uma sorte incrível, a 1.ª escolha do draft, ainda que este tenha sido considerado o mais fraco dos últimos tempos. Muitos nomes foram falados, mas acabou por ser Zaccharie Risacher o escolhido. Um extremo alto, bom lançador de três pontos, defesa competente, que deveria crescer com calma numa equipa de meio da tabela.

Pelos vistos, os Hawks tinham ambições mais elevadas para ele: ainda segundo Marc Stein, Atlanta pondera já abdicar do seu n.º 1 do draft, usando-o como moeda de troca numa eventual transferência. É preciso não ter receio do ridículo para querer dispensar a sua própria escolha de draft ao fim de apenas 18 meses, sobretudo quando se sabe que muitos jogadores só dão o salto a partir do terceiro ano na NBA.

Ainda por cima, é bastante comum que a segunda época seja de estagnação. E é o que está a acontecer, já que Risacher viu a sua média de pontos baixar de 12,6 para 10,7. O verdadeiro problema estará, provavelmente, noutro lado. Como já foi referido, o draft de 2024 é, sem dúvida, o mais fraco dos últimos cinco anos, o que se nota pelo calibre da primeira escolha: Cade Cunningham (2021), Paolo Banchero (2022), Victor Wembanyama (2023) e Cooper Flagg (2025). Inevitavelmente, Risacher é o jogador menos forte deste grupo.

Mas também era aquele sobre quem recaíam menos expectativas. Além disso, não caiu numa equipa do fundo da tabela, mas sim num suposto candidato aos play-offs, que pretendia um contributo imediato. Para complicar, foi precisamente nesta altura que Jalen Johnson, concorrente direto nas alas, explodiu, reduzindo inevitavelmente o seu espaço.

Fica a dúvida sobre quais eram, afinal, as expectativas dos Hawks para Risacher. Ainda por cima, é frequentemente comparado a Wembanyama, também francês e n.º 1 do draft, quando os dois nada têm em comum, nem em termos de jogo, nem de expectativas. A comparação só o prejudica, e vê-lo limitado a um papel de "catch'n'shooter" não ajuda em nada. E, mais uma vez, será sensato tentar trocá-lo precisamente quando as suas estatísticas estão em queda?

O que se segue?

Compreende-se, ainda assim, a vontade de virar a página Trae Young. Até porque Nickeil Alexander-Walker está a realizar uma boa época. As primeiras notícias, no entanto, deixam qualquer um perplexo: Atlanta estará a tentar… Anthony Davis para reforçar o plantel. Vítima colateral da famosa troca de Luka Dončić (o círculo fecha-se), o poste continua a ser uma máquina de pontos, ressaltos… e lesões, já que só participou em 16 jogos esta época e está novamente de fora após se lesionar no Christmas Game.

Mas, desilusão: os Mavericks não têm qualquer interesse em receber Trae Young em troca de AD. Por um lado, aguardam com expectativa o regresso de Kyrie Irving após lesão e, por outro, as limitações defensivas do base não despertam grande interesse, pelo menos entre os candidatos ao título.

Algumas equipas foram referidas, como os Kings, por exemplo, mas percebe-se que os Hawks procuram um poste 4 para colocar entre Johnson e Onyeka Okongwu. Com um backcourt Alexander-Walker - Daniels, o cinco teria bom aspeto, mas claramente insuficiente para lutar pelo título. E, provavelmente, nem sequer para passar uma ronda dos playoffs.

Assim, começa-se a questionar se Atlanta não quer simplesmente livrar-se de Trae Young para evitar ter de lhe renovar o contrato a peso de ouro. No verão passado, o base era elegível para uma extensão de 222 milhões de dólares por quatro anos (54,5 milhões por época)… mas a franquia nunca lhe apresentou essa proposta. Olhando para trás, parece um sinal claro de que não pretendem continuar a história com o seu base.

No caso de Risacher, resta saber se a franquia quer realmente usá-lo para tentar garantir um grande nome, ou se é apenas um aviso para lhe mostrar que o estatuto de n.º 1 do draft não o torna intocável. O francês está ainda longe de alguns dos maiores busts da história do draft da NBA e, claramente, trocá-lo a meio da segunda época criaria um precedente perigoso.

Os Hawks ocupam a 10.ª posição do Este, mas estão apenas a três vitórias de um lugar direto nos play-offs. Nada está perdido e o plantel continua a ter qualidade, mas despedir-se da pedra basilar do projeto e/ou daquele que deveria ser o novo motor parece uma manobra desesperada para provocar um choque numa franquia que tinha grandes esperanças em 2021, mas que parece ter deixado escapar a sua oportunidade. Será que este risco vai compensar?