NBA: A ressurreição dos San Antonio Spurs

San Antonio volta a ser um verdadeiro candidato ao título da NBA
San Antonio volta a ser um verdadeiro candidato ao título da NBAČTK / AP / Duane Burleson

Quando os segundos finais esgotaram no relógio, os jogadores dos Spurs invadiram o campo para celebrar. O hino We Are the Champions ecoou pelas colunas da arena. Do outro lado, LeBron James cumprimentou adversários antes de sair derrotado. San Antonio acabava de arrasar os Miami Heat em cinco jogos para conquistar o título da NBA em 2014.

Foi o quinto título em três décadas — prova de que a cultura dos Spurs não era apenas sustentável, era geracional. Mas esse campeonato marcou o fim de uma era.

Nessa altura, os San Antonio Spurs eram uma referência. O padrão dourado que parecia impossível de desmoronar. No entanto, Tony Parker e Kawhi Leonard seguiram outros caminhos. Tim Duncan e Manu Ginobili retiraram-se. Os pilares que definiam o basquetebol dos Spurs desapareceram. E, de repente, após anos a competir ao mais alto nível, os Spurs tornaram-se irrelevantes. Perderam a sua identidade e falharam o acesso aos play-offs durante seis épocas consecutivas.

Há apenas um ano, os Spurs estavam presos no fundo da Conferência Oeste. Com mais de um mês ainda por disputar na fase regular, as esperanças de play-off já tinham desaparecido. Sem rumo e em reconstrução, procuravam uma base sólida.

Quando parecia que a situação no Texas não podia piorar, a equipa sofreu um duro golpe ao receber uma notícia devastadora – a maior estrela, Victor Wembanyama, foi diagnosticado com trombose venosa profunda e falhou o resto da época.

San Antonio venceu apenas 34 jogos. Só os Pelicans e os Jazz tiveram pior registo no Oeste. Mas, avançando para o final de fevereiro de 2026, os Spurs já somam 43 vitórias e apenas 16 derrotas. Ocupam o segundo lugar da conferência e perseguem com ambição os Oklahoma City Thunder para tentar roubar o topo da tabela.

A equipa está atualmente numa sequência de 11 vitórias consecutivas – a primeira em dez anos – e está a praticar o seu melhor basquetebol. Que diferença faz um ano.

Após o diagnóstico de Wembanyama, pairava muita incerteza. Será que vai recuperar totalmente? Também conhecidos como coágulos sanguíneos, estes problemas acabaram praticamente com a carreira de Chris Bosh. A estrela francesa dedicou os meses seguintes à recuperação. Manteve-se paciente e envolvido, realizando exercícios leves de força e preparação física. Participou em treinos sem contacto.

Em meados de julho, anunciou que recebeu luz verde para voltar a jogar basquetebol sem restrições. Dizer que regressou ao seu nível anterior seria quase um insulto. O prodígio voltou ainda melhor, mais forte e preparado para competir numa Conferência Oeste repleta de talento. O primeiro pilar do ressurgimento dos Spurs foi restaurado — e com juros.

Mas a lesão de Wembanyama foi apenas uma parte das adversidades que a cidade do Alamo enfrentou no último ano. Dez dias após o início da época anterior, o lendário treinador principal Gregg Popovich sofreu um AVC. Para uma equipa que esteve quase três décadas sob a liderança de uma das maiores mentes do basquetebol, o choque foi imenso. De repente, o adjunto Mitch Johnson, de 38 anos, foi lançado para o centro das atenções.

Johnson lidou com a reviravolta inesperada com elegância. Rapidamente conquistou a confiança dos jogadores através da honestidade, transparência e uma ética de trabalho exemplar.

O Mitch era sempre direto comigo, nunca dourava a pílula, dizia-me quando estava errado, mas também sabia elogiar. Acho que isso constrói confiança. Ele ganhou esse respeito para nos treinar, puxar por nós e obter a resposta certa, motivando-nos”, afirmou Keldon Johnson, veterano dos Spurs na sua sétima época em San Antonio.

Apesar de uma época turbulenta, Johnson conquistou a confiança da organização. Após a primeira campanha, a Direção retirou-lhe o estatuto de treinador interino em maio e nomeou-o como o 19.º treinador principal da história do clube. Com uma pré-época completa para preparar a equipa, começou a moldá-la à sua imagem. O desenvolvimento tornou-se a prioridade.

Stephon Castle, o atual Rookie do Ano, aprimorou a sua eficácia - subiu de 42,8 % de lançamentos convertidos como rookie para 46,4 % esta época - e foi selecionado para o Rising Stars All-Star. A direção reforçou o plantel com mais talento jovem, escolhendo Dylan Harper na 2.ª posição e o extremo Carter Bryant na 14.ª.

Harper rapidamente conquistou o seu espaço, com uma média de 11 pontos em 22 minutos por jogo. Os rookies exibiram as características típicas dos Spurs: altruísmo, compromisso defensivo e inteligência. O ecossistema voltou a funcionar.

A base estava lançada e todas as peças começaram a encaixar. Já não estavam presos na lama.

No ano passado foi tudo tão novo para mim, não planeado nem preparado por mim, que não sabia fazer mais do que tentar ultrapassar o dia ou o que estávamos a viver”, disse Johnson.

Ao entrar nesta época, Johnson estava preparado. Mas está convencido de que todas as dificuldades tiveram um propósito e ajudaram a mudar o rumo da histórica franquia.

Acredito que agora, e provavelmente cada vez mais com o passar do tempo, a época passada serviu de veículo para esta equipa estar tão unida como está”, afirmou Johnson: "Vivemos muitas experiências únicas e raras. Passámos por situações que nos obrigaram a passar muito tempo juntos, e isso gerou eventos que normalmente promovem conversas, talvez até mais profundas; coisas que nos fazem refletir sobre a vida ou sobre o que já passámos.” 

A adversidade forjou a coesão.

San Antonio já venceu mais jogos do que na época passada, e ainda faltam disputar 23 jogos da fase regular. Segundo a famosa regra dos 40-20 de Phil Jackson, verdadeiros candidatos ao título chegam às 40 vitórias antes de somarem 20 derrotas.

Atualmente, só há três equipas a cumprir esta marca: Oklahoma City, Detroit e San Antonio. Os Spurs não estão apenas a fazer uma boa época. Têm uma hipótese real de conquistar o título da NBA.

Depois de atravessar um dos períodos mais negros da sua história, os Spurs voltaram a ser relevantes. Eis o ponto – verdadeiras franquias, construídas sobre cultura e padrões, nunca ficam em baixo para sempre. Com uma construção inteligente do plantel, escolhas certeiras no draft e desenvolvimento rigoroso dos jogadores, os Spurs reacenderam o modelo de dinastia.

San Antonio reencontrou a sua identidade. Com jovens a assumir papéis de destaque, o futuro é promissor; chega a assustar. Depois de uma das recuperações mais rápidas e impressionantes, os Spurs já não procuram relevância. Procuram o Troféu Larry O’Brien — e toda a liga sente isso.