Ciclismo: Juan Ayuso fez da sua ambição o segredo para ganhar a Volta ao Algarve

Juan Ayuso venceu a Volta ao Algarve
Juan Ayuso venceu a Volta ao AlgarveJOAO MATOS / AFP

Juan Ayuso demonstrou este domingo que querer é poder, ao conquistar a sua primeira prova pela Lidl-Trek, com o ambicioso ciclista espanhol a confirmar na Volta ao Algarve que deixar a UAE Emirates foi a melhor opção.

Talvez o ciclista mais odiado pelos fervorosos fãs de João Almeida, o catalão de 23 anos não é um tipo afável. Profissional com a imprensa, raramente sorri – fá-lo apenas quando vislumbra entre o público os pais, que o acompanharam todos os dias nos bastidores da 52.ª Volta ao Algarve – e não esconde a impaciência quando tem de esperar ou lhe fazem demasiadas perguntas.

O semblante fechado combina com a sua postura ambiciosa na estrada, onde o espírito ganhador o torna verdadeiramente ávido de triunfos.

Ayuso leva-se tão a sério e ao seu trabalho que todos os pormenores contam, ao ponto de ter pedido para não vestir a camisola amarela no contrarrelógio da Algarvia, apostado que estava em testar em competição o fato que vestirá na Volta a França, a prova que sonha vencer.

Desde o primeiro momento em que aterrou na Volta ao Algarve, foi evidente que era fundamental para o agora campeão da 52.ª edição sair vencedor da sua corrida de estreia com as cores da Lidl-Trek, até porque os seus grandes adversários à partida eram Almeida e, sobretudo, a UAE Emirates.

Embora nesta prova tenha recusado estabelecer comparações entre o seu passado e a sua atual equipa, não é segredo para ninguém o ressentimento que o corredor espanhol sente em relação à formação que representou durante cinco temporadas e que acusou de querer denegrir a sua imagem.

Se há qualidade que Ayuso tem é a sua sinceridade, na estrada e fora dela.

Foram demasiadas as vezes em que desobedeceu a ordens da equipa, não quis trabalhar para colegas – o incidente com Almeida no Tour 2024 foi o exemplo mais gritante -, com o divórcio com a UAE a tornar-se inevitável durante uma Vuelta em que também pensou apenas nos seus interesses, preferindo vencer duas etapas do que ajudar o português a conquistar a geral.

Antes de se tornar na vedeta que é hoje, Ayuso teve um profícuo percurso pessoal e profissional: nascido em 16 de setembro de 2002, em Barcelona, emigrou com apenas dois anos para Atlanta (Estados Unidos).

O sonho americano dos Ayuso durou cinco anos, tempo suficiente para aprender inglês e ter “uma boa pronúncia”, como o próprio admite no seu site. Foi já em Espanha, mais concretamente quando a família se mudou para Jávea, que descobriu o ciclismo.

Apaixonado pelo futebol até então – chegou a treinar no centro desportivo do Real Madrid, apesar de ser ferrenho adepto do FC Barcelona -, o pequeno ainda conciliou as duas modalidades, até optar definitivamente pela bicicleta aos 11 anos, uma decisão que se revelou mais do que acertada já que os resultados não tardaram a aparecer.

No seu primeiro ano como cadete, em 2017, sagrou-se campeão espanhol de fundo e de contrarrelógio, com esses dois triunfos a fazerem-no acreditar que poderia ser profissional, uma miragem que concretizou quatro anos depois, quando a UAE Emirates o contratou.

Nos primeiros meses ainda rodou na Colpack Ballan, mas a vitória no Baby Giro abriu-lhe definitivamente as portas do plantel principal da formação dos Emirados, que no ano seguinte lhe deu a oportunidade de estrear-se numa grande Volta.

Ao desafio, Ayuso respondeu com o terceiro lugar na Vuelta 2022, tornando-se, aos 19 anos, o mais jovem da história a subir ao pódio da prova espanhola e o segundo mais novo numa grande Volta.

A grande expectativa criada em torno do ciclista espanhol acabou por não se confirmar nas temporadas seguintes, com o catalão a evocar problemas físicos e psicológicos nunca completamente esclarecidos para entrar tardiamente na época de 2023, na qual foi quarto na Vuelta.

Talvez excessivamente autoconfiante, o egocêntrico corredor mostrou lidar mal com lideranças partilhadas, nomeadamente escusando-se a trabalhar até para o ‘intocável’ Pogacar no Tour 2024, que abandonou alegando “falta de força” após ter contraído covid-19.

Também a estreia no Giro 2025 foi um fracasso, com o agora líder da Lidl-Trek a vencer a sétima etapa, mas a desistir depois de ter sido picado por uma abelha, numa altura em que o líder da geral era o seu jovem companheiro Isaac del Toro.

Vencedor do Tirreno-Adriático em 2025 e agora da Volta ao Algarve, Ayuso tem este ano para demonstrar se é efetivamente um campeão de grandes Voltas numa equipa em que é o incontestável líder ou se é apenas mais um excelente corredor, mas num patamar abaixo dos ‘extraterrestres’ Pogacar ou Jonas Vingegaard, o homem que sucedeu no palmarés da Algarvia.