O 01 de fevereiro de 2026 ficará marcado na memória de Miguel Salgueiro como o dia em que se estreou pela seleção em Campeonatos da Europa de pista, “um objetivo pelo qual trabalhava há muito tempo”, mas também em que uma queda violenta o atirou para os cuidados intensivos num hospital de Konya, na Turquia.
“Tinha acabado de vir do Campeonato Nacional, onde conquistei duas camisolas (de campeão). Estava em grande forma, estava com excelentes sensações e, embora fosse o meu primeiro Campeonato da Europa de pista, tinha objetivos um bocado ambiciosos. Claro que estava ansioso, era a minha primeira vez, e tive o azar de, na primeira corrida que fiz, que era a eliminação, ter aquela queda”, recorda, em entrevista à agência Lusa.
O lisboeta de 26 anos confessa que entrou “um pouco a medo na corrida”, mas que estava com boas sensações.
“Estava a forçar o ciclista turco (Ramazan Yilmaz) a abrir espaço para cima, mas ele não estava a deixar. Houve um momento em que me desequilibrei, no meio da curva. Consegui agarrar a bicicleta novamente. O ciclista neerlandês (Yanne Dorenbos) veio ao meu encontro, fiz carga do ombro e ele vai para baixo, toca com a roda no ciclista da frente, acaba por cair, e a bicicleta dele limpa a minha completamente”, detalha.
Quem seguia a prova de eliminação rapidamente percebeu que a aparatosa queda tinha sido grave, mas o ciclista que na estrada representa o Tavira-Crédito Agrícola não se apercebeu de imediato das consequências.
“Tive uma sensação de que não estava a conseguir respirar e, passados uns minutos, comecei a acalmar-me, deitaram-me no chão e, quando comecei a conseguir respirar, aquele instinto de levantar para ir pegar a bicicleta e ir continuar a prova… começo a querer levantar-me e não conseguia mexer-me”, conta.
Salgueiro saiu de maca do velódromo de Konya, imobilizado com um colar cervical, sendo transportado para o hospital.
“Estava com muitas, muitas dores, e sabia que estava ainda a quente, ou seja, ia ficar pior. Mas, claro, na minha cabeça pensei logo ‘bem, depois de amanhã tenho a perseguição, se calhar não vou conseguir alinhar, mas talvez recupere a tempo de correr o madison com o Iúri (Leitão) no último dia’, que era também um dos meus principais objetivos e um sonho que eu e ele temos há muito tempo”, revela.
No entanto, “na primeira hora no hospital”, o pistard percebeu que “estaria fora de competição uns tempos”.
“Nos primeiros exames que fiz no hospital, falaram que tinha uma fratura numa costela e duas fraturas nas vértebras e que teria um pneumotórax, que a costela teria perfurado o pulmão. Passado umas horas, minutos - na verdade não tenho bem noção do tempo -, veio-se a perceber que afinal não tinha pneumotórax”, esclarece.
No dia seguinte, após uma série de exames, descobriram-se “mais três fraturas de costelas e passaram a ser quatro, não apenas uma”. “Foram quatro costelas, duas fraturas e uma contusão no pulmão direito”, enumera.
Salgueiro esteve dois dias internado nos cuidados intensivos, nos quais não o deixaram ter o telemóvel.
“Só ao fim do segundo dia à noite, em que eu continuava nos cuidados intensivos, mas me transferiram de um quarto partilhado para um quarto privativo, é que, um bocado contra as regras, lá me deixaram ter o telemóvel. Só me deixavam fazer chamadas, e não podia fazer videochamadas, nem nada disso, mas podia falar com a minha família”, diz.
O pistard, que não poupa elogios ao hospital e à federação turca, que alocou uma pessoa para estar sempre ao seu lado, teve alta em 04 de fevereiro, pedindo para ir imediatamente para o velódromo.
Após uma nega inicial, o ciclista luso recebeu autorização dos médicos, com a federação turca a tratar “de tudo" para o acolher na zona VIP, onde ficou “sentado num sofá, confortável, sem grande esforço”.
“Saí do hospital, a senhora que estava comigo levou-me ao hotel, para eu tomar banho, trocar de roupa, e, depois, fui diretamente para o velódromo, e ainda fui a tempo de ver a corrida por pontos do Iúri, onde ele deu a volta e conseguiu ser campeão da Europa. Foi muito bom”, assume.
O corredor de 26 anos espera agora começar a treinar na rua para regressar à competição na Volta ao Alentejo, agendada entre 25 e 29 de março, uma vez que a recuperação está “a evoluir mais rápido ainda do que se esperava”.
“Inicialmente, falava-se que ia ter de estar quatro a seis semanas parado, mesmo sem bicicleta, mas a verdade é que estive oito dias sem treinar. Ao nono dia, comecei a rodar as pernas nos rolos. Tinha um colete com ferros nas costas, para manter as vértebras direitas, e só conseguia estar no selim sem mãos, com as costas direitinhas, a rodar as pernas. Fui evoluindo e, na sexta-feira, já fiz um treino dos rolos mais a sério, já me sinto bem, já consigo usar o guiador, colocar-me em pé sem grande dor”, descreve.
