Emirados Árabes Unidos com João Mota: "Há treinadores que sobem de elevador, eu tenho subido o Everest"

João Mota está de regresso aos Emirados Árabes Unidos
João Mota está de regresso aos Emirados Árabes UnidosArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash pelo Mundo está de regresso ao Flashscore. Neste espaço, traremos entrevistas exclusivas com portugueses que elevam bem alto a bandeira nacional além-fronteiras. O nosso 14.º convidado é João Mota, treinador do Al Ittihad Sports Club, dos Emirados Árabes Unidos.

No futebol e na vida, somos o conjunto daquilo que ouvimos, vimos e sentimos. Aos 59 anos, João Mota apresenta um percurso marcado pela resiliência.

Há treinadores que fazem carreira dentro de portas, outros constroem-na a atravessar continentes e o técnico português pertence claramente ao segundo grupo. Dos relvados do Médio Oriente às realidades mais duras de África, passando pela América do Sul, soma experiências improváveis, títulos fora do radar mediático e histórias que dificilmente caberiam apenas num currículo.

De regresso aos Emirados Árabes Unidos, onde voltou a aceitar um projeto ainda em construção, o treinador explica por que razão prefere o risco ao conforto. Entre diferenças culturais, dirigentes impacientes e balneários com múltiplas nacionalidades, fala de um futebol onde, muitas vezes, é preciso ensinar o próprio jogo antes de o poder competir. E garante: continua a acreditar que pode regressar ao nível onde sente que pertence.

Nesta entrevista ao Flashscore, João Mota recua ainda à Jordânia que “ficará sempre no coração”, recorda episódios marcantes no Sudão e no Congo, descreve a fome que viu (e a que sentiu na infância) e reflete sobre o paradoxo de ser valorizado lá fora, mas nunca ter tido uma verdadeira oportunidade em Portugal. Uma viagem de vida.

João Mota acredita muito nas suas capacidades
João Mota acredita muito nas suas capacidadesArquivo Pessoal

"Acredito que posso voltar ao nível onde acho que devo estar"

- O que o levou a aceitar este regresso aos Emirados Árabes Unidos?

Sou uma pessoa que não consegue estar parada. Gosto de estar em casa, claro, mas não consigo ficar sem trabalhar. Sinto falta do relvado, do contacto com os jogadores e do dia-a-dia do treino. Além disso, no futebol quem não é visto não é lembrado.

Pode não ter sido a decisão perfeita, até porque vinha de um patamar mais alto, mas foi aquilo que senti no meu coração. Estou satisfeito. Já tinha trabalhado aqui, gostei muito do país e acredito que posso voltar ao nível onde acho que devo estar.

- Encontrou um clube muito recente. Que realidade apanhou em termos de estrutura, mentalidade e ambição?

É um clube criado em 2024. Subiu logo no primeiro ano e o objetivo da direção é chegar rapidamente à UAE League. O CEO tem mais de 20 empresas e está na lista dos 20 homens mais ricos do mundo. Há boas condições de trabalho - estádio próprio, algo que nem clubes da primeira liga têm, relvados de qualidade e organização -, mas o problema é a mentalidade. Existe uma grande impaciência.

No futebol nem sempre se ganha e isso ainda não é totalmente compreendido. Por exemplo, estivemos perto de eliminar um adversário de divisão superior, fizemos um grande jogo, recebi elogios de pessoas de vários países… mas internamente houve críticas e até decisões precipitadas. Aqui, muitas vezes, temos de “educar futebol” a quem dirige. Há ambição, mas falta perceber que isto não é PlayStation.

João Mota lamenta falta de oportunidades em Portugal
João Mota lamenta falta de oportunidades em PortugalOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- Como evoluiu o futebol nos Emirados nos últimos anos?

Os melhores jogadores locais estão nas divisões superiores. Nesta divisão há muitos estrangeiros - cheguei a ter onze nacionalidades diferentes no plantel - e isso obriga a gerir línguas e culturas. Trouxe alguns jogadores 'meus', sobretudo africanos e brasileiros, com o objetivo de valorizarem a carreira e depois darem o salto dentro do próprio país. (...) A equipa melhorou bastante e neste momento praticamos um futebol intenso e organizado.

- A principal dificuldade é então a mentalidade resultadista?

Sem dúvida. No mundo árabe há pouca tolerância ao processo. Na Arábia o presidente entrava em campo e perguntava quem ia jogar. Comigo isso não funciona e estive lá um mês e meio. Na Jordânia, por exemplo, estive duas épocas sem perder no campeonato. Perdi um jogo, ainda em primeiro lugar, e fui despedido. Foi para lá outro treinador ganhar a medalha. Em que mundo é que eu estou? (risos).

Eu não sou mágico. Nós acreditamos que jogar bem aproxima do resultado, mas quando se está a construir uma equipa isso leva tempo e muitas vezes não há essa paciência.

João Mota fez história no Al Hussein, da Jordânia
João Mota fez história no Al Hussein, da JordâniaArquivo Pessoal

"Jordânia ficará sempre no meu coração"

- Falemos da Jordânia. Que futebol encontrou e como conseguiu esse registo tão impressionante?

Tinha bons jogadores e deixaram-me trabalhar. Fui para um clube que nunca tinha sido campeão, que era a terceira força do país, e construímos uma equipa com posse, organização e critérios claros: quando pressionar, quando esperar, quando acelerar. Os jogadores compreenderam a ideia. Fizemos história: oitavos de final da competição continental, vitórias fora frente a equipas muito fortes e o clube tornou-se a principal força do país. A equipa ainda joga hoje com alguns padrões que eu deixei. (...) Sobre o jogador jordaniano: é muito competitivo, tecnicamente interessante e com grande entrega. 

- E viver na Jordânia, fora do futebol?

Não sou a pessoa certa para falar da Jordânia. Fui extremamente bem tratado. As pessoas gostavam muito de mim. A cultura, a comida e até a dimensão religiosa foram especiais para mim. É um país que ficará sempre no meu coração.

- Ao longo destes anos, tem sentido que ser português continua a ser valorizado no estrangeiro?

Mourinho abriu portas e o Cristiano Ronaldo também ajuda muito: quando digo que sou português, a reação é imediata. Quem percebe de futebol respeita o treinador português. Temos profissionais de grande qualidade espalhados pelo mundo. Curiosamente, tive mais reconhecimento fora do que dentro do país. Cheguei a não conseguir tirar o curso UEFA Pro de treinador em Portugal apesar de já ter sido campeão no estrangeiro, e tive de o fazer fora. E sabia de colegas que nunca tinham estado à frente de uma equipa profissional e tiravam o Pro. Ainda hoje acontece com muitos colegas, é triste.

- Quando o abordam nesses mercados, o que procuram em si?

Vitórias. Depois a forma como trabalho, eu fico muito ligado às pessoas. Eu visto mesmo a camisola e sou conhecido por fazer evoluir o jogador. Graças a Deus tenho feito bons trabalhos por onde tenho passado. No fim é sempre isso. Podemos falar de projetos e ideias, mas sem resultados tudo acaba rapidamente.

João Mota conta com muitas histórias
João Mota conta com muitas históriasArquivo Pessoal

Do Sudão ao Congo: "Apanhei uma realidade muito dura, de pobreza extrema"

- Passou também pelo Sudão. Como foi essa experiência?

Muito marcante. Primeiro fui como adjunto do Ricardo Formosinho. Rescindimos todos o contrato no final do primeiro ano e, quando estava em casa, recebi um convite do vice-presidente para assumir como treinador principal. Falei com o Ricardo Formosinho e ele chegou a deixar de falar comigo. Mas é uma pessoa de quem gosto muito, um excelente homem, sempre foi impecável comigo. 

Voltando à questão... O país era pobre e havia instabilidade... Às vezes não treinávamos porque as estradas estavam bloqueadas, mas fizemos uma excelente campanha internacional. (...) O mais curioso foi o impacto do futebol que praticávamos. Estavam habituados a um jogo físico e direto; nós introduzimos mais posse e organização e as pessoas identificaram-se muito. Ainda hoje sou reconhecido por adeptos sudaneses e quando o clube perde recebo muitas mensagens. Fiquei muito ligado ao povo.

- E viver lá?

No primeiro ano estávamos num hotel de cinco estrelas e tínhamos tudo. Mas no segundo ano, foi diferente. Era uma realidade muito dura: pobreza extrema, fome, crianças a pedir comida, animais mortos à beira da estrada... Isso muda a pessoa. Ao mesmo tempo encontrei gente extraordinária. Foi um choque, mas abriu-me os olhos para valorizar aquilo que tenho.

- Qual foi o maior choque cultural da carreira?

O Congo. Estive lá muito pouco tempo, quase que fugi do país… Situações de segurança complicadas, ruas praticamente intransitáveis, presença constante de militares armados. Foi a experiência mais dura.

Uma vez o presidente convidou-me para jantar e mandou um carro blindado buscar-me ao hotel. Apareceu um homem com uma G3, quase nem falava… Apanhámos trânsito, o motorista saiu do carro e começou a dar pontapés nos outros carros. Uma guerra! Cheguei a casa do presidente, contei-lhe e ele disse: “Isto é normal” (risos)…

- O povo africano também é conhecido por questões ligadas ao oculto, feitiçaria…

Muito, muito. No Sudão, um dia antes de um jogo, fomos treinar ao nosso campo e estavam a matar uma vaca. “Coach, não se meta, não se meta.” No Congo, fomos jogar à Nigéria e os meus jogadores diziam: “Problema, problema”… Estavam a meter sal na relva.

João Mota encontrou realidade dura no Brasil
João Mota encontrou realidade dura no BrasilArquivo Pessoal

"No Brasil tive jovens que treinavam em jejum"

- Também viveu no Brasil. Que tal essa experiência?

O Brasil respira futebol. Em divisões inferiores os estádios enchem. O jogador brasileiro, para mim, é o melhor produto do mundo: talento natural e enorme vontade de melhorar a vida da família. Também vi realidades muito difíceis. Tive jovens, que viviam em favelas, e treinavam em jejum porque não tinham pequeno-almoço em casa. A partir daí organizámos ajuda para que pelo menos chegassem alimentados ao treino e conseguimos mudar um pouco a história. São histórias que ficam para sempre.

Infelizmente, apesar de ter residência no Brasil e de ter feito bons trabalhos por onde passei, tenho muitas dificuldades em entrar no mercado brasileiro e não percebo o motivo.

- Como se define hoje enquanto treinador? Quem é o João Mota?

Somos hoje um pouco daquilo por que passámos. Tive uma infância muito difícil, muitos irmãos, pai e mãe pobres. Passei fome… não passei necessidades, passei fome mesmo. Saí de casa muito cedo. Fui para o Sporting e até tenho uma história muito engraçada sobre isso.

Eu estava no Barreirense quando o Sporting foi lá a casa. Conheci o Marinho e o Sr. Ferrão. Perguntaram-me se queria ir para o Sporting e eu: “Lógico, sou do Sporting desde bebé.” Esperámos pelo meu pai, disse-lhe que era o pessoal do Sporting e ele respondeu: “Sporting? Aviso já que ele é do Benfica desde que nasceu” (risos).

Lá falaram com ele, sabiam das dificuldades que eu tinha e fui viver para o Estádio José de Alvalade. Lutei pela vida, passei muito sacrifício e isso faz de mim hoje um treinador exigente, lutador e emocionalmente muito ligado às equipas. A minha infância foi mesmo muito difícil e isso marcou-me: não gosto de perder nem a brincar.

Acredito muito no trabalho, na honestidade e em deixar portas abertas. Sou uma pessoa feliz e estou em paz. Posso falhar, mas nunca enganar ninguém.

- É um treinador que se adapta aos jogadores ou impõe sempre a mesma ideia?

Procuro equilíbrio. Tenho princípios, mas respeito as características do plantel. Se tenho um ponta-de-lança forte na área, jogo mais para cruzamento; se é móvel, procuro combinações interiores. O modelo depende do contexto. Depois também olho para a forma como o adversário me defende e me ataca.

- Que princípios nunca abdica?

Equipa pressionante e próxima da bola. Não gosto que o adversário receba, pense e jogue confortável. Prefiro defender longe da minha baliza e ter bola sempre que possível.

- O que aprendeu sobre liderança em trabalhar em culturas tão diferentes?

Que lidamos com seres humanos que têm sentimentos. Cada jogador reage de forma diferente: uns precisam de diálogo, outros de firmeza. Quanto melhor conhecermos a pessoa, melhor lideramos o jogador.

João Mota pensa num regresso a Portugal
João Mota pensa num regresso a PortugalArquivo Pessoal

"Gostava muito de trabalhar em Portugal"

- Nunca teve oportunidade em Portugal. Como explica isso?

Eu amo o meu país, onde vivi toda a vida... Mas não sei explicar. Gostava muito de trabalhar no meu país, mas nunca surgiu convite, nem de divisões inferiores. Talvez por estar fora há muito tempo ou por não ter ligação com empresários. É como no Brasil. É estranho, mas continuo a fazer o meu caminho por aqui.

- Como vê o futuro?

Penso jogo a jogo. Gostaria de trabalhar numa liga competitiva e disputar grandes competições, é onde me sinto mais vivo. Já joguei a Champions de África, a Champions da Ásia... É onde me sinto bem. Se surgir uma oportunidade melhor, claro que analisarei, mas vivo muito o presente.

- Se o futebol fosse uma pessoa, o que lhe diria?

Perguntava se vai continuar a pôr-me obstáculos ou se finalmente me dá um presente (risos). Há treinadores que sobem de elevador; eu tenho subido o Everest.

- Por fim: que legado gostaria de deixar?

Mais do que títulos, quero que digam que fui uma pessoa honesta, correta e amiga. A fama passa. O importante é os meus filhos e netos sentirem orgulho no homem que fui.

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