Em entrevista exclusiva ao Flashscore, o técnico Ney Franco detalhou a experiência de estar no "olho do furacão". O que deveria ser um momento de foco absoluto no planeamento tático para um dos grandes desafios da temporada, transformou-se em apreensão na madrugada do último sábado.
"Como nós não estamos habituados com esta questão da guerra, vemos sempre isso de muito longe. De repente, estamos no olho do furacão", contou Ney Franco, experiente treinador brasileiro, com passagens por gigantes do país como Flamengo, Botafogo, São Paulo e Cruzeiro.
No comando do Al-Hussein, da Jordânia — o seu primeiro clube fora do Brasil —, Ney Franco nutria o desejo de voltar do Catar com um importante resultado sobre o Al-Ahli Doha, no jogo da 1.ª mão dos quartos de final da Liga dos Campeões asiáticos 2. A partida estava marcada para esta terça-feira.

Porém, com a escalada do conflito, o confronto foi adiado, e Ney Franco, assim como toda a delegação do Al-Hussein, não tem previsão de deixar o Catar, já que tanto o aeroporto de Doha como o espaço aéreo do país encontram-se fechados.
"O Catar abriga o maior posto dos Estados Unidos no Médio Oriente, com a maior concentração de uma base americana. Essa base começou a ser contra-atacada pelo Irão. Então, hoje estamos num país que também está totalmente envolvido na guerra por causa dessa base. Criou-se uma instabilidade, e nós estamos aqui no hotel. Com o conflito, o espaço aéreo foi fechado e encontramo-nos numa situação em que não conseguimos voltar para a Jordânia", explicou Ney Franco.
Embora o hotel da equipa esteja numa zona teoricamente mais segura, a distância não foi suficiente para abafar os ecos do conflito. O brasileiro relatou que o silêncio da madrugada foi rompido por estrondos das explosões.
"Existem situações neste momento: a primeira é a nossa preservação física e a dos atletas, por isso permanecemos no hotel. Estamos distantes de onde tudo está a acontecer, pois estamos longe da base. Mas, em alguns momentos, principalmente de sábado para domingo, ouvimos algumas explosões de longe", revelou.
"Agora, estamos à espera. Primeiro, para que essa guerra finalize, que tudo volte à normalidade e consigamos regressar à Jordânia. Desportivamente, temos um compromisso com o campeonato jordaniano. Estávamos na liderança da competição; está a começar a terceira volta e faltam 12 jogos para o fim", prosseguiu o treinador.

O adiamento interrompeu o ritmo de uma equipa que sonha alto. No horizonte, o Al-Hussein vislumbra um confronto épico que pode colocar a equipa frente a frente com estrelas mundiais.
"Ficamos na expectativa de regressar a casa, recomeçar o campeonato e esperar uma nova data para o confronto dos quartos de final da Liga dos Campeões asiáticos. Existe uma possibilidade real de chegarmos a uma meia-final, que inclusive se desenha contra a equipa do Al-Nassr, que é a equipa do Cristiano Ronaldo e do Jorge Jesus. Estávamos muito envolvidos nesse jogo. Foi um banho de água fria, mas o mais importante agora é sairmos daqui e voltarmos para a Jordânia", ressaltou Ney Franco.

Treinos improvisados
A equipa técnica do Al-Hussein está a fazer o que pode para evitar que a equipa perca a condição física enquanto o período de retenção persistir no Catar. Mas Ney Franco é direto sobre a situação, que já começa a interferir no planeamento.
"Não existe previsão concreta (de regresso à Jordânia). Isso afeta diretamente a preparação. Estamos há três dias a treinar no hotel. Temos a sorte de estar num local excelente, com um bom ginásio, onde fazemos trabalhos físicos, mas não é a mesma coisa que o campo", contou.
"Hoje (segunda-feira) teríamos um treino em campo aberto, mas pouco antes de sairmos, o treino foi cancelado por orientação de segurança. Isso prejudica o trabalho técnico e tático", lamentou o treinador.

A iminência do conflito armado já era uma preocupação das federações locais. Na fase anterior da Liga dos Campeões asiáticos 2, o Al-Hussein eliminou o Esteghlal, do Irão, numa eliminatória cujas condições já refletiam a tensão: a primeira partida, em casa da equipa iraniana, foi realizada no Dubai, nos Emirados Árabes, e não na sua sede original, Teerão.
"Há duas semanas eu estive no Dubai porque os oitavos de final foram contra uma equipa do Irão, o Esteghlal. Na altura, já existia essa tensão, tanto que a confederação marcou o jogo da 1.ª mão no Dubai. Ganhámos por 0-1 lá e depois vencemos por 3-2 na Jordânia", disse Ney Franco.
"Ali já se desenhava essa possibilidade (de guerra), que se confirmou agora. Entendemos que a região é vulnerável por esse histórico, mas percebemos que o país (Catar) é protegido por um "domo" tecnológico que interceta os mísseis. Ficamos frustrados por não jogar, mas a prioridade agora é a nossa saída do país assim que o aeroporto reabrir", reforçou o técnico brasileiro.
Jogos paralisados na Jordânia ao soar das sirenes
Na Jordânia, país onde está sediado o Al-Hussein, o campeonato local não foi adiado pelas autoridades. Ney Franco explicou que o país não está a sofrer ataques diretos, mas a grande preocupação é o facto de o território ser rota dos mísseis disparados pelas nações em conflito.
O maior risco é a queda de destroços desses projéteis que, inclusive, já atingiram a cidade onde o treinador mora. A rotina do futebol local foi adaptada a protocolos de guerra: os jogos são interrompidos ao som de sirenes antiaéreas e os atletas precisam de procurar refúgio nos balneários até que o espaço aéreo seja considerado seguro.
"O que acontece é que o Irão está a lançar mísseis contra Israel e esses projéteis, para chegarem ao destino, passam pelo espaço aéreo da Jordânia. Passam mesmo em cima da cidade onde eu moro, Irbid, que fica no norte e faz fronteira com Israel", relatou o treinador.

"Quando esses mísseis são lançados, existe a contraofensiva para abatê-los. O que acontece muito na Jordânia é que, quando são intercetados, os destroços caem dentro do país, principalmente na cidade do Al-Hussein", continuou.
"O campeonato lá não parou, mas a primeira jornada após o início desse agravamento da guerra ocorre esta semana. Os jogos, por medida de segurança, são realizados sem adeptos e, quando necessário, a sirene toca. Se o radar capta algum míssil, a sirene toca, o jogo é paralisado, os atletas vão para os balneários e aguardam. No domingo, no jogo do Al-Faisaly, aconteceu isso: aos 30 minutos do segundo tempo a sirene tocou, o jogo parou e depois continuou. A precaução é necessária porque os destroços acabam por cair dentro das cidades", explicou.
Conflito não impede desejo de Ney Franco
Apesar da tensão na região, Ney Franco não tem em mente um regresso ao Brasil. A família do treinador encontra-se em segurança, em Ipatinga, Minas Gerais, recebendo todas as informações necessárias e tranquilizada pela situação, ao menos momentânea, de segurança na Jordânia.

Com o Al-Hussein a viver uma temporada extremamente positiva, o técnico brasileiro deseja cumprir o seu contrato até ao fim e sonha com a possibilidade de títulos.
"Estamos muito bem em três competições: lideramos o campeonato nacional, estamos nos quartos da Liga dos Campeões e nos quartos da Taça da Jordânia. Desportivamente, quero muito finalizar o trabalho e lutar por títulos", projetou.
"Mas, logicamente, a prioridade é a preservação física. Sinto-me protegido e em momento nenhum pensei em regressar ao Brasil por causa da guerra. A minha esperança é que a paz seja encontrada o mais rápido possível, o que será bom para o mundo inteiro, tanto pelas questões humanitárias quanto pela economia mundial", finalizou o treinador.
