Arbitrar o Super Bowl e voltar ao escritório: a vida atípica dos árbitros da NFL

Shawn Smith vai arbitrar o Super Bowl LX
Shawn Smith vai arbitrar o Super Bowl LXAMY LEMUS / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

O que têm em comum um investigador de fraude fiscal, um fisioterapeuta e um vendedor de seguros de saúde? Todos vão ser árbitros no Super Bowl que, este domingo, opõe os New England Patriots aos Seattle Seahawks.

Poucos sabem que a NFL, uma organização multimilionária do desporto, tem a particularidade de empregar a tempo parcial os árbitros que aplicam a justiça até nos jogos mais importantes.

Este domingo (madrugada de segunda-feira em Espanha), o principal espectáculo do futebol americano será dirigido por juízes como Shawn Smith, que de segunda a sexta-feira trabalha como gerente da sucursal de Detroit de uma companhia de seguros de saúde.

"Sempre foram contratados a tempo parcial", explica Ben Austro, fundador do Football Zebras, um site que acompanha os árbitros da NFL e as suas decisões.

"Encontras advogados, professores (…) ou empresários que têm a possibilidade de tirar algum tempo do trabalho".

A poderosa liga chegou mesmo a empregar pilotos, controladores de tráfego aéreo e até um cientista aeroespacial.

Ainda assim, explica Austro, os árbitros da NFL são a crème de la crème. A liga selecciona-os de forma meticulosa no futebol universitário, através de uma vasta rede de observadores. São treinados e avaliados, e dedicam entre 40 e 50 horas por semana à preparação como árbitros durante a temporada.

"Não é do género ‘chegamos à cidade na noite anterior, jantamos um bom bife e depois saltamos simplesmente para o campo durante três horas’", disse Austro.

"Um trabalho exigente"

O lado menos simpático é que, como qualquer árbitro desportivo, os juízes da NFL recebem críticas e, por vezes, o tipo de contrato torna-os um alvo fácil.

"Os árbitros são o pior (…) Estes tipos são advogados. Também querem aparecer na televisão", disse em Dezembro Puka Nacua, receiver estrela dos Los Angeles Rams. "Não achas que eles estão a escrever aos amigos num grupo de chat a dizer: ‘Virão que apareci no Sunday Night Football?’".

Essas declarações de Nacua, feitas em plena transmissão em directo, valeram-lhe uma multa de 25 mil dólares. Outros jogadores, num tom mais positivo, já defenderam a melhoria dos contratos dos árbitros.

"Acho que provavelmente seria útil que todos trabalhassem a tempo inteiro", disse o quarterback Aaron Rodgers, em 2023. "Têm um trabalho duro, tomam decisões em tempo real e estão sob tanto escrutínio como os quarterbacks e os kickers", afirmou no programa Pat McAfee Show.

No entanto, nem todos consideram essa mudança necessária. O sindicato dos árbitros não divulga os termos financeiros das negociações contratuais, mas acredita-se que os árbitros mais bem pagos da NFL ganhem mais de 200 mil dólares por ano.

Austro considera que exigir que os árbitros trabalhem a tempo inteiro poderia reduzir o número de juízes de elite. Sabendo que a carreira na arbitragem pode terminar subitamente devido a uma lesão ou a uma descida de categoria, muitos não estariam dispostos a abdicar dos seus empregos habituais, mais estáveis, explica.

Como a época baixa da NFL é muito mais longa do que a temporada regular de 18 semanas, os árbitros beneficiam de um "período de descanso" para recuperar entre Janeiro e Maio, altura em que a liga não os pode contactar.

"Inspira confiança"

Terminada a fase regular, os árbitros mais destacados são recompensados com jogos importantes nos play-offs.

O processo baseia-se no mérito, mas é confidencial, e acredita-se que o responsável máximo pela arbitragem da NFL, Ramon George, tenha a palavra final sobre quem dirige o Super Bowl.

Smith, o escolhido para esta edição, é há oito anos árbitro principal, o cargo de maior hierarquia entre os juízes em campo. "Tem um bom controlo do jogo. Inspira confiança", afirma Austro.

O próprio Smith recusou um pedido de entrevista e disse à AFP que os árbitros da NFL "não estão autorizados a conceder entrevistas durante a temporada". Espera dar continuidade a uma pós-temporada em que as decisões arbitrais têm sido, quase sempre, indiscutíveis, com uma excepção de relevo.

Os Buffalo Bills continuam a queixar-se de que o passe de Josh Allen, no prolongamento frente aos Denver Broncos, não deveria ter sido considerado uma intercepção, decisão que ditou a sua eliminação dos play-offs. “Foi claramente uma intercepção (…) pareceu-nos bastante óbvio”, diz Austro. “A quantidade de vezes que acertam neste tipo de decisões é simplesmente impressionante".