Após uma lesão grave que afastou o quarterback titular Daniel Jones em dezembro, os Indianapolis Colts contrataram-no para a equipa de treino poucos dias depois do seu aniversário. Três noites depois, a equipa técnica decidiu lançá-lo como titular frente aos Seattle Seahawks, numa altura em que Indianápolis continuava na luta por um lugar nos play-offs. Para a maioria dos quarterbacks que ainda procuram a sua oportunidade na NFL, jogar uma partida decisiva nesta fase da época seria o melhor presente de aniversário possível.
Não para Philip Rivers.
Rivers tinha acabado de completar 44 anos e já se tinha retirado oficialmente do futebol americano há quatro anos. Nessa altura, era treinador principal da St. Michael Catholic High School, no Alabama, aparentemente a iniciar um novo capítulo da sua vida. No entanto, apesar de um currículo recheado, a história de Rivers parecia ainda não estar terminada.
Rivers jogou a nível universitário na NC State, onde bateu praticamente todos os recordes de passe da escola e da ACC. Sob a sua liderança, os Wolfpack marcaram presença em quatro bowl games consecutivos, vencendo três deles. Destacou-se desde o primeiro momento em Raleigh, deixando uma marca indelével no programa, ao ponto de a NC State retirar a camisola número 17 em sua homenagem. Não haverá outro igual.
Rivers foi escolhido como a quarta escolha geral no draft da NFL. Inicialmente selecionado pelos New York Giants, foi imediatamente trocado para os San Diego Chargers. Precisou de algum tempo para evoluir o seu jogo e passou as primeiras épocas como suplente. Eventualmente, o antigo Wolfpack conquistou o lugar de titular. Em 2007, liderou os Chargers nas primeiras vitórias nos play-offs desde 1994, dando início a uma caminhada notável.
Rivers passou 16 temporadas com a camisola dos Chargers, tornando-se uma das figuras mais importantes da história da franquia. Ficou conhecido pela sua liderança feroz, consistência, personalidade contagiante e precisão nos passes. Contudo, a sua carreira ficou sem um grande destaque – apesar de ter sido chamado ao Pro Bowl por oito vezes, nunca levou os Chargers ao Super Bowl. Não conquistou o Heisman, nem prémios de MVP. Foi sempre ofuscado por nomes como Tom Brady, Eli e Payton Manning, ou Drew Brees. Ao longo da sua longa passagem pela NFL, nunca conseguiu sair totalmente da sombra destes grandes jogadores.
Em fevereiro de 2020, Rivers e os Chargers chegaram a acordo para não renovar contrato, tornando-se livre. Um mês depois, assinou um contrato de um ano com os Colts. Nessa época, ultrapassou Dan Marino e subiu ao quinto lugar da lista de passes de sempre. Poucos jogos depois, também o ultrapassou em passes para touchdown, ficando igualmente em quinto lugar na história. Rivers levou os Colts aos play-offs, mas Indianápolis foi eliminado pelos Buffalo Bills na ronda Wild Card.
Após 17 temporadas, o quarterback percebeu que o seu tempo tinha chegado ao fim. “É simplesmente a altura certa”, afirmou Rivers em janeiro de 2021. Despediu-se do futebol profissional, pendurou as chuteiras e seguiu em frente. Tornou-se treinador de liceu, começou a orientar jovens jogadores e aproveitou ao máximo o tempo com os seus dez filhos. Tudo indicava que Rivers estava satisfeito.
Pensava que tinha terminado com a NFL. Mas a NFL não tinha terminado com ele.
Quatro anos depois de anunciar a reforma, o telefone voltou a tocar. Mais uma vez, eram os Colts. A equipa estava na luta pelos play-offs, mas tinha perdido o seu quarterback titular. Precisavam de alguém experiente, confiante e capaz de lidar com momentos de grande pressão. Rivers preenchia todos os requisitos — e aceitou regressar.
No entanto, apesar dos seus esforços, os Colts acabaram por falhar o objetivo de chegar à fase final. Com Rivers, a equipa somou três derrotas em três jogos, embora ele tenha registado uma taxa de passes completos de 63% e um rating de 80.2. Após a eliminação dos play-offs, anunciou que iria regressar ao seu cargo de treinador de liceu. Ou assim pensava.
Mais uma vez, o apelo da NFL revelou-se mais forte do que o esperado. Rivers despertou o interesse de várias franquias à procura de liderança para as suas equipas técnicas. Apesar de não ter experiência como treinador universitário ou profissional, os Buffalo Bills entrevistaram-no para o cargo de treinador principal.
“Disseram-me que, mesmo que não seja contratado como treinador principal, os Bills gostariam de o ter na equipa técnica de alguma forma, por exemplo como treinador de QBs. Ele e o Josh Allen têm uma relação excelente e, no que toca a ler o jogo, poucos são melhores do que Rivers,” relatou Jarrett Bailey na X.
Allen, o atual MVP da Liga, elogiou Rivers quando este voltou a vestir a camisola dos Colts. “O regresso do Rivers é mesmo espetacular,” disse Allen em dezembro. “Não sabia o que esperar, sinceramente, quando ele voltou, mas é incrível. A forma como voltou ao relvado, a ler aquela defesa de forma brilhante e a criar jogadas para a sua equipa, foi inspirador de ver.”
Parecia que as duas lendas do jogo se iriam entender na perfeição. Os Bills procuram desesperadamente novas ideias, energia e liderança, com Allen ainda à espera de chegar ao Super Bowl. Desde que chegou à equipa em 2018, Allen levou os Bills aos play-offs por seis vezes; infelizmente, Buffalo ainda não conseguiu conquistar o título da AFC. Para a direção dos Bills, Rivers poderia ser a peça que falta para mudar esse cenário.
“Acredito, com toda a humildade, que poderia treinar a este nível," afirmou Rivers. "Sei o suficiente sobre o jogo e sobre os jogadores, e do ponto de vista da liderança, camaradagem, tudo o que isso implica. Mas, mais uma vez, não é algo que esteja aqui a tentar ativamente.”
No entanto, dias após a entrevista, Rivers decidiu retirar-se da corrida ao cargo de treinador principal. Contudo, não esclareceu se estaria interessado em integrar a equipa técnica noutra função.
Não há dúvida de que Rivers conhece a fama como poucos e tem capacidade para liderar uma equipa. É um candidato interessante para treinador e já provou, repetidamente, que pertence à Liga. Por mais vezes que se afaste, a Liga parece sempre puxá-lo de volta. Talvez nunca tenha sido suposto sair.
