Com mais este triunfo, a treinadora já soma três títulos em três finais disputadas: Taça do Brasil e Paulistão de 2025, e Supercopa de 2026. Depois de acumular muitas taças como jogadora e ser considerada uma das lendas da FIFA no futebol feminino, Rosana Augusto escreve uma história também vitoriosa na área técnica.
Em entrevista exclusiva ao Flashscore, a treinadora destaca as suas conquistas e trabalho no Alviverde, a chegada de novas peças para compor um plantel de estrelas, a ligação da equipa feminina com a presidente Leila Pereira e detalhes da sua negociação com o Palmeiras e a saída do Flamengo.
- Assumiu o Palmeiras já disputando título e começou o ano a vencer a primeira taça da temporada. Como foi este início?
- A minha chegada ao Palmeiras realmente foi algo que eu sonhava, mas não esperava que fosse acontecer tão rápido. Foram três títulos em três meses ativos de trabalho — não conto o tempo de férias. Três títulos totalmente diferentes. Um da Taça do Brasil, em que fizemos um ótimo jogo contra a Ferroviária na casa delas. Ali as pessoas começam a identificar o meu estilo no Palmeiras. É uma equipa que tem que jogar com a bola, porque tem muito recursos técnicos. Na primeira semana contra o Red Bull, em quatro dias de treino já dava para ver como eu ia jogar: mais agressiva, tentando ficar mais com a bola. No jogo da Taça do Brasil isso aparece muito.
- É essa a sua identidade, o seu selo na equipa?
- Sim. E conseguimos colocar muito rápido porque as meninas são muito talentosas. Mas acima disso, são inteligentes e muito abertas ao novo. Muito recetivas. Foi um jogo que já tinha muito da minha identidade: ficar mais com a bola, sair bem nas transições. Foquei muito na parte defensiva, porque quando eu cheguei a ideia era que o Palmeiras fazia muitos golos, mas também sofrida demasiados. Passamos seis jogos sem sofrer golos nos primeiros seis jogos. Na final do Paulista, contra o Corinthians, foram dois jogos muito fortes. Entendemos que precisávamos de ser agressivas, mas também marcar por dentro, porque o Corinthians joga muito por dentro. Foi um jogo muito equilibrado, poderia ter ido para qualquer lado. Mas a mentalidade de já ter vencido deu-nos esse espírito batalhador. Brinquei com elas: “Da próxima vez vamos tentar resolver nos 90 minutos, não quero ter um enfarte.”

- Queria voltar um pouco atrás. Tudo aconteceu muito rápido. Sai da seleção brasileira sub-20 de forma inesperada, depois vem o Flamengo. São plantéis diferentes, momentos diferentes. Como foi essa adaptação?
- Da seleção eu não entendi até hoje, para ser muito sincera. Lamentei uma semana. Depois fui estudar e preparar-me para o mercado. Não fico muito tempo a lamentar-me. Acredito que fizemos um bom trabalho. A FIFA publicou algo como “Você quer aprender sobre futebol? Assista à Seleção Brasileira Sub-20”. Perdemos apenas para a campeã Coreia do Norte, que era uma seleção permanente. Cheguei ao Mundial com 14 jogadoras. Mas sigo em frente. Fui procurar estudar, capacitar-me, mostrar ao mercado que poderia ajudar um clube. Quando pego no Flamengo, não era obrigação elevar o nível rapidamente. Sou treinadora, não sou mágica. Mas a Seleção Sub-20 deu-me repertório para fazer muito em pouco tempo. Na Seleção tens poucos dias, atletas de vários clubes, metodologias diferentes. No Flamengo adaptei-me às peças que tinha dentro do meu modelo de jogo. Isso é fundamental. Às vezes o treinador chega e fala que não tem peças. Eu não dou desculpas. As pessoas estavam habituadas comigo jogando a jogar com três centrais, mas no Flamengo eu não tinha tantas. Então, entendi que não era momento de mudar tanto. A plataforma para mim é a última coisa. Eu penso em conceitos. A bola rodou, já mudou a plataforma. Ela é flexível. Elas já jogavam no 4-4-2 defensivo, no 4-3-3. Fiz ajustes dentro da minha identidade, de agressividade e intensidade, mas sem mudar tanto. Lembro que o meu primeiro treino foi praticamente um “X-tudo”, ajustando ofensivo e defensivo. E no fim do treino uma atleta falou: “Que bom que você veio e já ajustou muita coisa.” Isso mostra clareza. Sou muito didática no que quero. Uma vitória respalda o trabalho. Quando a gente ganha, fica mais fácil inserir ideias novas. As mulheres são muito recetivas, mas precisam entender o custo-benefício. Se entendem o benefício, fazem.

- E no Palmeiras? Já conhecia o plantal.
- Sim. Joguei contra o Palmeiras pelo Flamengo. Já sabia vulnerabilidades, pontos fortes. Quando recebo o convite, já estava com a estratégia pronta para as primeiras semanas. Já era o segundo trabalho que eu pegava após a Camila, então sabia o que fazia sentido manter e o que ajustar. Todas as mudanças geram uma competição maior no grupo. Reacende aquela chama em quem talvez estivesse a jogar menos. Quando chega uma treinadora nova, todo mundo quer mostrar serviço. Isso mexe com o plantel. Sou uma treinadora muito positiva. Vocês vão ver nos bastidores: eu falo sobre nós, não sobre a outra equipa.
- Sobre contratações e gestão de plantel: participou nas escolhas? E como consegue gerir tantas jogadoras de alto nível?
- Não participei nas contratações, porque já estavam fechadas antes da minha chegada. Quando cheguei, estava tudo estruturado. Disseram-me basicamente: “Está aqui.” E foi ótimo. Sobre gestão, em qualquer cenário, quando você é honesta e transparente, fica mais fácil. A primeira coisa que falo é: “Os treinadores mentiram para vocês a vida toda quando disseram que é só o treino. Não é”. O treino é parte. Tem estratégia, conexões, momento. Mas você não pode treinar para mim. Tem que treinar para você. Porque a oportunidade vai surgir. Posso sair de qualquer clube com críticas ao trabalho, mas nunca ao meu caráter. Já estive no lugar delas. Sei como é mau não jogar. Então sou muito honesta nas decisões.
- Fala muito sobre liderança e processo humano.
- Porque o futebol é feito por pessoas. Eu leio mais sobre liderança e comportamento humano do que sobre futebol. Nunca vou colocar o futebol acima do processo humano. Talvez eu esteja a colher frutos hoje porque vivi situações difíceis na minha vida e decidi que não precisava de repetir aquilo com outras pessoas. Gente feliz produz mais. Um ambiente saudável faz as coisas fluírem naturalmente.
- Falou do Flamengo. Em que momento deixou de fazer sentido continuar?
- Eu sou muito movida por propósito. Quando as coisas deixam de fazer sentido para mim, entendo que talvez seja o momento de seguir. Não fico a insistir em algo que já não está alinhado com aquilo que acredito. Quando surgiu o convite do Palmeiras, entendi que fazia sentido naquele momento da minha carreira. Existia uma cláusula de rescisão com o Flamengo. Foi uma negociação entre os clubes.
- Acha que ter sido atleta é o que marca a diferença?
- Ajuda muito, porque sei das dores. Mas só isso não faria diferença. Eu estudei muito. Estudei liderança, relações interpessoais, como lidar com o outro e comigo mesma. Leio mais livros sobre liderança e cérebro humano do que sobre futebol. O ponto mais forte está aqui. Treinar a gente treina todo dia, mas é a cabeça que decide.
- Sobre mulheres na área técnica, como vê essa evolução?
- Vejo com muito bons olhos. É um lugar que é nosso por direito. Não é só sobre curso caro. Eu fiz curso da UEFA porque pedi. Fui atrás. Não tinha dinheiro, pedi ajuda. O meu primeiro salário no Athletico-PR foi de R$ 4.500. Eu pagava moradia. Todo mundo vê a Rosana no Palmeiras, mas não comecei aqui. Eu mandei e-mail para todas as marcas desportivas a pedir patrocínio. A Puma respondeu-me. O “não” a gente já tem. Eu fui atrás.
- A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, demonstra a cada dia uma aproximação maior com a equipa feminina. Como é essa relação?
- Ela tem-se aproximado cada vez mais. Na primeira reunião do ano ela estava presente, agradeceu pelas conquistas e colocou o clube à disposição. Quando você tem conquistas, aproxima a presidente. Ela entende de gestão, entende de negócio. O Alberto (Simão, diretor de futebol feminino) leva os pedidos para ela e há uma conexão muito boa. Quando eu saio do Flamengo, há uma cláusula. Foi um acordo entre os clubes. O Palmeiras viabilizou isso porque entendeu que fazia sentido. Houve alinhamento interno para que isso acontecesse.
