Reportagem: Diáspora iraniana em Los Angeles mantém esperança de ver a equipa no Mundial-2026

Presidente dos EUA, Donald Trump
Presidente dos EUA, Donald TrumpANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Num campo de futebol em Los Angeles, Shawn Rezaei grita até ficar rouco em persa, incentivando os seus colegas de equipa a pressionarem ainda mais os adversários.

Este iraniano-americano quer estar a apoiar a seleção nacional daqui a três meses, quando o Mundial-2026 chegar à América do Norte.

Mas, enquanto o Irão responde do outro lado do Golfo após os ataques de Israel e dos Estados Unidos, Rezaei está consciente de que o destino da "Team Melli" é incerto.

"Há muita agitação a acontecer no Irão... por isso, tudo está em aberto", afirmou o homem de 58 anos à AFP.

Tal como a maioria dos outros imigrantes do Arya FC, o seu clube persa local, Rezaei tem estado ansioso pelos dois jogos que o Irão tem agendados em Los Angeles durante o torneio, que decorre de 11 de junho a 19 de julho.

E os jogadores da liga de domingo não estão sozinhos: Los Angeles, por vezes apelidada de "Tehrangeles", acolhe cerca de 200.000 iraniano-americanos, a maior concentração de iranianos fora da República Islâmica.

"Houve uma grande euforia entre a comunidade persa quando foi realizado o sorteio", disse Rezaei, que trabalha num restaurante e afirma querer levar a família a assistir aos jogos.

No entanto, após vários dias de ataques em todo o Irão, e com as forças militares de Teerão a atacar alvos dos EUA e aliados no Golfo, a participação do Irão no maior torneio de futebol do mundo está seriamente em risco.

Poucas horas depois dos primeiros ataques, o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, sugeriu que a situação poderia mudar.

"O que é certo neste momento é que, com este ataque e esta crueldade, não podemos olhar para o Mundial com esperança", declarou à televisão iraniana.

"Nova equipa"

Rezaei, que fugiu do Irão em 1984, desvaloriza a ameaça, convencido de que os dias da república islâmica estão contados.

A morte do Líder Supremo Ali Khamenei "é o acontecimento mais grave dos últimos 47 anos, e muitos danos foram causados a este regime. Não terá hipótese de sobreviver."

Se o regime cair, espera ver surgir "uma nova equipa... que represente verdadeiramente o povo iraniano."

O último Mundial, disputado no Catar, em 2022, revelou uma divisão entre a seleção nacional e os seus adeptos.

Na altura, o Irão estava a ser abalado por protestos populares desencadeados pela morte sob custódia de Mahsa Amini, uma jovem detida por não usar o véu corretamente.

Os jogadores recusaram-se inicialmente a cantar o hino nacional iraniano, num gesto interpretado como apoio aos manifestantes.

Mas nos jogos seguintes, vários deles cantaram, aparentemente de forma hesitante — uma atitude que alguns adeptos viram como cedência aos mulás no poder.

"Irão libertado"

O colega do Arya FC, Mehran Janani, reconhece que os adeptos têm sentimentos mistos em relação aos jogadores que deveriam ser os seus heróis.

"Não existe um apoio total à equipa e, psicologicamente, penso que isso afeta os jogadores", afirmou.

O engenheiro de 58 anos considera que isso pode traduzir-se em tensões nas bancadas durante o Mundial.

A recente repressão do regime contra os manifestantes, que resultou em milhares de mortos, também terá impacto caso jogadores vistos como ideologicamente suspeitos integrem a convocatória.

"Mesmo que o regime caia, não tenho a certeza de que haja tempo suficiente para preparar uma nova equipa capaz de mostrar bom futebol", disse.

"Este Mundial pode acabar por ser desperdiçado para o Irão", acrescentou.

Os seus colegas esperam que a "Team Melli" jogue sob a bandeira de um "Irão libertado", mas estão prontos para apoiar a equipa aconteça o que acontecer.

"É a equipa do povo do Irão, percebe? Não é do regime, são as pessoas que realmente apoiam esta equipa", afirmou Sasha Khoshabeh.

O fisioterapeuta de 44 anos espera ver o Irão passar a fase de grupos — algo com que habitualmente se debate.

No entanto, Khoshabeh considera que o sorteio deste ano foi favorável, com o Irão integrado num grupo em que vai defrontar o Egito em Seattle, além da Nova Zelândia e da Bélgica, em Los Angeles.

Após 34 anos de exílio, Khoshabeh planeia dar à sua equipa querida uma receção calorosa, fazendo-os sentir que estão a jogar em casa quando entrarem no relvado do SoFi Stadium, em Los Angeles.

"É um sonho tornado realidade", afirmou.

"O SoFi Stadium, posso garantir-lhe já, vai estar 80 por cento iraniano, por isso mal posso esperar por esse dia", assumiu.