Análise: Álvaro Arbeloa, um perfil divisivo que não gera consenso no Real Madrid

Álvaro Arbeloa na sua primeira conferência de imprensa esta terça-feira
Álvaro Arbeloa na sua primeira conferência de imprensa esta terça-feiraDENIS DOYLE / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Álvaro Arbeloa sucede a Xabi Alonso no comando do Real Madrid. Desde 2020, o antifo defesa aprendeu o ofício e deixa o Castilla numa muito honrosa 4.ª posição na terceira divisão. Contudo, apesar de ser um madridista convicto, o estreante não reúne consenso dentro do próprio clube, sobretudo devido ao seu comportamento, dentro e fora do relvado.

De forma premonitória, Xabi Alonso afirmou um dia que Álvaro Arbeloa tinha perfil para ser treinador dos merengues. E não podia estar mais certo. O antigo colega de equipa em Liverpool, no Real Madrid e na seleção espanhola sucede-lhe, poucos meses após a promoção ao comando do Castilla.

Esta mudança, após apenas 24 jogos e, ironicamente, com as mesmas estatísticas que Hansi Flick no Barcelona na época passada, surpreendeu pelo seu timing, logo após a derrota na final da Supertaça de Espanha, que poderia ter terminado nos penáltis com um pouco mais de sorte.

Para perceber a situação de Arbeloa de forma global, vale a pena acompanhar as ondas espanholas. A situação tornou-se insustentável para Xabi Alonso, que nunca teve a confiança de Florentino Pérez desde o início, já que o presidente sonha com Jürgen Klopp há muitos anos.

Uma desistência de Xabi Alonso?

Nas várias intervenções da noite de segunda-feira, dos influentes comentadores madrilenos, misturavam-se a surpresa pelo despedimento de Xabi Alonso naquele momento, quando tinha sido poupado após a derrota na final da Supertaça de Espanha no dia anterior, a necessidade imperiosa de evitar uma segunda época consecutiva sem títulos, e também o desejo de não ver o agora ex-treinador merengue a ser responsabilizado por tudo.

No microfone da SER, Manu Carreño expressou uma opinião partilhada por grande parte da imprensa e dos adeptos madridistas: "Se me perguntarem se esperava isto esta tarde, não. Se me perguntarem se estou surpreendido, não, nem por isso. Porque é que Xabi Alonso foi despedido? Porque o clube entende que é preciso mudar a dinâmica. É uma dinâmica negativa, seja ao nível do moral, dos resultados e, sobretudo, do futebol da equipa."

Outra voz de peso, desta vez da COPE, Manolo Lama apontou para Florentino Pérez: "Ancelotti e Alonso estavam conscientes do problema, porque é impensável separar-se destes treinadores, um que teve sucesso na Alemanha e outro que sempre foi bem-sucedido. Parecem incompetentes. O problema vem do dirigente, aquele que deixa os seus subordinados fazerem o que querem. Digo-vos, o Real Madrid vai vencer facilmente o Levante, mas penso que os adeptos vão assobiar os jogadores antes de assobiarem o presidente."

A Onda Cero contrariou a ideia de que Xabi Alonso foi afastado unilateralmente. Pelo contrário, foi o basco que terá sugerido a saída no avião de regresso após a derrota frente ao Barça.

"A equipa chegou cedo esta manhã e, durante o voo de regresso de Jidá, o diretor-geral do Real Madrid, José Ángel Sánchez, e Xabi Alonso tiveram uma conversa decisiva, revelou Edu Pidal.

"Xabi manifestou o seu desagrado com o jogo, com o desempenho da equipa e dos jogadores. Parecia triste e abatido, e a sua saída foi apresentada como a melhor solução para inverter a situação", acrescentou.

Uma identidade a recuperar

Arbeloa sabe-o e Pidal explicou-o na segunda-feira à noite: "No Real Madrid não há derrotas honrosas, nem derrotas que reforcem a equipa."

O descontentamento é geral e foi agravado pelo facto de Xabi Alonso ser muito esperado para recuperar o futebol merengue, claramente em queda há várias épocas. Embora seja difícil conseguir isso em poucas semanas, é preciso restaurar a mentalidade da equipa, esse espírito que tantas vezes fez a diferença na Liga dos Campeões, mesmo quando a proposta coletiva não era brilhante.

Nesse sentido, Arbeloa preenche todos os requisitos.

"¿Os habéis divertido?"; "Não se divertiram o suficiente?", como é traduzido em português, é uma pergunta retórica de Maximus no Gladiador. Arbeloa gritou-a após a reviravolta do Real Madrid frente ao Wolfsburgo (3-0, depois de uma derrota por 0-2 na primeira mão) nos quartos de final da Liga dos Campeões em 2016. Mas o seu apelido deve-o a 300, outro épico marcial. Disciplina, dedicação e educação: eis a definição de um Spartano.

No que diz respeito às duas primeiras qualidades, Arbeloa já provou o seu valor. Desde 2020, subiu degraus nas equipas jovens: Infantil A, Cadete A, Juvenil A e, por fim, o Castilla, sucedendo a Raúl González Blanco. Ao comando do Juvenil A, Arbeloa mudou a mentalidade e acumulou troféus com a geração Nico Paz-Gonzalo García: campeonato, Taça do Rei Juvenil e, sobretudo, a Taça dos Campeões Juvenil, considerada a competição doméstica mais exigente de Espanha nesta faixa etária. Apenas o AZ Alkmaar, futuro vencedor, conseguiu derrotar a sua equipa nos quartos de final da Youth League (0-4).

Ao assumir o comando do Castilla, Arbeloa resumiu o futebol que pretendia ver: "Corajoso, audaz, dominador, que inspire entusiasmo e paixão. Queremos que os adeptos desfrutem, que passem um bom momento e sintam uma ligação com a equipa; para que, ao verem o Castilla, digam: 'É assim que quero que a minha equipa jogue'. Um dos nossos objetivos é desenvolver o nosso próprio estilo e identidade. Vamos consegui-lo em casa e fora, contra qualquer adversário". Ao ser promovido para o banco mais mediático do mundo, deixa a filial merengue na 4.ª posição do grupo 1 da Primera RFEF (3.ª divisão espanhola), na zona dos play-offs de subida. Um verdadeiro feito.

Sempre muito exigente consigo próprio, Arbeloa está consciente de que a sua responsabilidade aumenta a cada promoção. O seu conhecimento dos meandros do clube é uma vantagem num momento crítico.

 "Conheço perfeitamente a filosofia do clube", explicou este verão. "Passei cinco anos no centro de formação e sei qual deve ser a relação entre o Castilla, a equipa principal e os Juvenil A, porque muitos jogadores do nosso sistema podem também jogar na Youth League ou pelo Real Madrid C. É muito importante ter todo este conhecimento, que será muito útil nesta nova etapa", acrescentou.

Demasiado impulsivo?

Esta é a face positiva. Mas o reverso da medalha está longe de ser tão brilhante. Logo na segunda-feira à noite, as tertúlias, os programas de debate tardios tão apreciados pelos espanhóis, começaram a lançar críticas ao Spartano. No estúdio do El Larguero da Cadena SER, Antón Meana levantou dúvidas sobre a aceitação de Arbeloa dentro do próprio Real Madrid. E, portanto, sobre o lado educado que deve definir um Spartano.

"Teve desentendimentos com jovens jogadores, altercações com funcionários do clube, rivalidades, e critica diariamente os árbitros das equipas jovens. Mas porque é que Arbeloa teve estas altercações? Considera-se um durão?", questionou o jornalista que, apesar de reconhecer o apoio incondicional dos dirigentes, sublinhou que o antigo lateral direito "nunca foi um treinador adorado por todos e nunca manteve uma relação de pai e filho com os seus jogadores. Foi exigente com os jovens, teve divergências com alguns membros do clube, e há quem, tendo passado anos no centro de formação, duvide que Arbeloa corresponda ao perfil de treinador do Real Madrid. Por isso, estou curioso para o ver em ação, pois o momento é complicado."

Treinador de sangue quente, esteve perto de se envolver fisicamente com Fernando Torres num dérbi. O episódio foi, naturalmente, filmado e Arbeloa não era estreante nestas situações: "Fazia comentários despropositados junto à linha lateral aos rivais, ao árbitro assistente, ao quarto árbitro, até a um suplente adversário que por ali passava – o que é invulgar para um treinador das camadas jovens do Real Madrid."

Ao longo da sua carreira como jogador, Arbeloa nunca se preocupou com o que a imprensa pensava dele, mas agora tudo vai mudar radicalmente. O Real Madrid tem apenas algumas semanas para evitar uma segunda época sem troféus e, por mais fervoroso madridista que seja, Arbeloa não será mais defendido do que Xabi Alonso se os resultados não aparecerem. Mas, se isso acontecer, não é certo que seja o principal alvo. Talvez seja preciso olhar mais acima, para a tribuna presidencial.