Domingos Duarte e o triunfo do Getafe no Bernabéu: "Feito histórico, mas sabemos como é o Bordalás"

Domingos Duarte foi totalista no triunfo
Domingos Duarte foi totalista no triunfoANGEL MARTINEZ / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Poucas horas depois de celebrar apenas a segunda vitória da história do Getafe no terreno do Real Madrid, Domingos Duarte falou com Pedro Castelo, do Flashscore. O defesa de 30 anos, em final de contrato, revelou as intenções para o futuro, as sensações de triunfar em pleno Bernabéu, o sempre polémico estilo de jogo do treinador José Bordalás e ainda o adversário mais temível que enfrentou. A conversa passou ainda pelo desejo de voltar à seleção e a Portugal, onde um antigo colega de equipa está a impressionar no campeonato.

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- Ora, estamos no Coliseu, em Getafe, com Domingos Duarte, menos de 24 horas depois da vitória em pleno Santiago Bernabéu. Domingos, antes de mais, muitos parabéns por esta vitória. Como é que é, ao dia a seguir, a ganhar ao Real Madrid no Bernabéu?

Não posso dizer muito mais, é um dia muito alegre para todos nós. É um feito histórico. É só a segunda vez que o Getafe ganha no Bernabéu e é um dia para estarmos todos muito contentes, mas já sabemos como é que é o Bordalás (risos). No dia a seguir, já está a pensar no próximo jogo. Podemos desfrutar umas horinhas, mas mais que isso não dá.

- O que é que foi mais difícil ontem?

Aguentar o jogo todo sem sofrer golos contra uma equipa que tem o poderio ofensivo que tem o Real Madrid.

Paulo Sérgio, Domingos Duarte e Pedro Castelo no Coliseu do Getafe
Paulo Sérgio, Domingos Duarte e Pedro Castelo no Coliseu do GetafeFlashscore

- Esta é mais uma época em que conseguem estar minimamente tranquilos, que é esse o objetivo. Qual é o segredo desta estabilidade na LaLiga do Getafe?

É tentar competir todos os jogos. Sabemos que temos as nossas limitações e as nossas vantagens, digamos assim, perante outras equipas, mas sabemos que temos de ir para todos os jogos para ganhar, ter essa tranquilidade e saber que podemos competir contra qualquer adversário.

- Sempre com a manutenção como principal objetivo. Mas tu há pouco falavas em off, mas acho que posso partilhar, que com o Bordalás há que olhar sempre um pouco mais arriba (para cima), não é?

Sim, há sempre essa ambição de querer mais. Não pomos nenhum tipo de objetivo. É como estavas a dizer antes, a manutenção é o mais importante e, a partir do momento em que consigas os pontos para ter essa manutenção matematicamente garantida, podes olhar um bocadinho mais para cima. Mas o Bordalás está sempre a apertar para conseguirmos estar o mais lá para cima possível.

Domingos Duarte aborda o futebol de Bordalás
Flashscore

- Já agora, para finalizar aqui o tema desta época com Bordalás e Getafe, muitas vezes fala-se do futebol do Getafe do Bordalás. Quem vive isto por dentro, como é que vocês olham para essa realidade?

Acaba por ser mais desculpas do que outra coisa de equipas que não podem ganhar. Cada vez que ganhamos algum jogo, há sempre algum romântico, digamos assim, do futebol que diz que é porque paramos muito o jogo, porque há muitas interrupções, porque há muitas faltas, não sei o quê. Eu acho que cada equipa compete com as armas que tem e tudo o que fazemos é dentro do regulamento, por isso acho que não há grande discussão.

- A nível pessoal, quarta época aqui no Getafe. Que balanço fazes?

Estou bem aqui, estou a jogar, que é o mais importante, numa liga importante como é a Liga espanhola. É verdade que acabo contrato, não sei o que vai acontecer, e o mais importante agora é conseguirmos a manutenção e a partir daí, começo a pensar mais no meu futuro.

- Tu já és meio espanhol, não é? Já são oito épocas aqui. Deportivo da Corunha, Granada e Getafe...

Um ano na segunda divisão e sete anos na primeira divisão. Já é mais fácil fazer entrevistas em espanhol do que em português (risos).

As últimas época de Domingos Duarte no Getafe
As últimas época de Domingos Duarte no GetafeFlashscore

- No início da tua carreira como profissional, pensavas em ter uma estabilidade destas num outro país que não Portugal?

Claro que sempre pensas que tens valor para estar ao mais alto nível. Mas, olhando para trás, se calhar não pensava ter tantos anos a jogar numa liga tão importante, mas estou contente com isso, orgulhoso de mim mesmo e queremos mais.

- Costuma dizer-se também que esta liga é muito forte a nível técnico, os jogadores são muito bons tecnicamente. Para um central, como é que é viver isso todas as semanas?

Pois, é mesmo o que estás a dizer. São jogos quase todos os fins de semana contra equipas que têm avançados da elite do futebol mundial. Tens de estar os 90 minutos ou 95 minutos concentrado ao máximo, porque senão, em qualquer mínimo detalhe ou mínimo erro que tenhas, acabas por ser penalizado.

- Dos que já enfrentaste, há algum que consigas dizer, "este foi mesmo o mais difícil"?

Em todas as entrevistas que me fizeram, disse sempre o mesmo: Benzema. Porque era um avançado bastante técnico e que aparecia muito na segunda linha, não como referência, acaba por baixar muito a sua posição para jogar como se fosse um pivô de futsal, digamos assim. Para mim foi o adversário mais complicado, porque é difícil ter referências.

Domingos Duarte num frente a frente com Karim Benzema em 2020
Domingos Duarte num frente a frente com Karim Benzema em 2020OSCAR DEL POZO / AFP

- E dos teus colegas, houve alguém que te surpreendesse muito?

Mason Greenwood, o ano passado que esteve aqui connosco e era fora de série. Agora está no Marselha.

- A tua família também é espanhola. Estás aqui com eles, mas a tua mãe também está cá contigo. Como é que vais vivendo tudo isso?

Vivo bem, estamos a uma hora de Madrid. A sorte que tenho é que estou numa cidade em que tem voos diretos para Lisboa, de onde sou. No meu caso, é tranquilo. Já estou habituado a viver fora. Não é o que mais gostamos, viver longe da nossa família, da nossa zona de conforto, mas, por trabalho e por paixão ao futebol, tem de ser e faz parte.

- E vais acompanhando o futebol português?

Sempre. Sempre que posso.

- Como para esta corrida pelo título? Há FC Porto, há Sporting e o Benfica ligeiramente atrás. Como é que vês isto?

É um ano em que o FC Porto tem muito poucos deslizes, e quando uma equipa está tão lá em cima com poucos erros e muitas vitórias com a estrelinha é complicado que não sejam campeões. Mas até à última jornada, nunca se sabe. Por isso, as outras equipas na corrida também estão a jogar muito bem. Sporting e Benfica estão a jogar bem, são candidatos ao título, como é óbvio, porque tanto estás numa boa fase - como está o FC Porto -, mas de um momento para o outro podes ter uma ou duas derrotas seguidas, acabas por abanar e as equipas que estão atrás começam a morder o calcanhar

No Sporting, há um jogador a destacar-se que veio precisamente de Espanha, o Luis Suárez. Esperavas este tipo de impacto em Portugal?

- Eu sabia que era um avançado com uma capacidade física muito grande e isso, na liga portuguesa, acaba por se destacar muitas vezes. Eu joguei com ele no Granada também.

- Ele já era este jogador?

Não era este jogador, mas estava-se a tornar num jogador com muito potencial. No Granada, jogava a extremo, porque tínhamos dois avançados que eram o Molina e o Roberto Soldado. Ele jogava muitas vezes a extremo-esquerdo e não lhe dava tanto para atacar a profundidade como ele faz tão bem este ano. Também está com muita capacidade de finalização e fico contente por ele, porque é um bom rapaz e espero que lhe continue a correr tudo da melhor maneira.

- Ainda sobre o futebol português, tu és internacional pela seleção. Como é que foi poder jogar com a camisola do teu país e como é que olhas para essa possibilidade no futuro. Acreditas poder voltar?

É indescritível o momento em que fazes a estreia pela seleção e jogar com jogadores como Cristiano Ronaldo, o Bruno Fernandes, que ainda jogam hoje em dia. Eram referências quando eras miúdo e jogavas na cantera (formação), como se diz aqui em Espanha. Foi um grande momento e fiquei muito contente por isso. Em relação a poder voltar, temos sempre essa pequena esperança e ambição. Trabalhamos todos os dias para que as coisas corram bem no clube e, a partir daí, acaba por ser uma decisão também do treinador. O que podemos controlar é estar bem no clube. A partir daí, se vamos ou não à seleção, a escolha é do selecionador e há que respeitá-la em todo o momento.

Domingos Duarte representou a seleção portuguesa na qualificação para o Mundial-2022
Domingos Duarte representou a seleção portuguesa na qualificação para o Mundial-2022JONATHAN MOSCROP / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

- Para terminar, teremos Domingos Duarte na liga portuguesa?

Se Deus quiser, sim, tenho esse objetivo de voltar a Portugal e de jogar no meu país, perto da minha família. Como tínhamos falado há pouco tempo, porque já estou há oito anos fora. Tê-los perto de mim e continuar a jogar será ótimo. 

- Para já, no final de contrato, ou daqui a mais uns aninhos?

Não sei, depende do que aparecer agora. Temos de esperar para ver o que acontece no mercado de verão.

- Muito obrigado.

Obrigado eu.