Diogo Leitão: "Estamos todos focados em subir de divisão com o Belenenses"

Diogo Leitão em destaque no Belenenses
Diogo Leitão em destaque no BelenensesOs Belenenses

Depois de cumprir o primeiro objetivo e garantir a presença no play-off de subida, o Belenenses entra na fase mais importante da época. O rumo está traçado e o médio Diogo Leitão não deixa margem para dúvidas: o objetivo dos azuis do Restelo é regressar à Liga 2.

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"Ser Belenenses. Hoje como antigamente

Nada temos que temer

Belenenses para a frente

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O Belenenses deu um passo em frente rumo ao grande objetivo da época. No Restelo, a história impõe uma mentalidade sem margem para dúvidas: subir, subir e subir. Não há outra forma de pensar.

Imbuído desse espírito de conquista e a viver “a melhor fase da carreira”, o médio Diogo Leitão é visto como uma espécie de talismã: vai disputar a sexta fase de subida consecutiva. Um registo notável, embora um pouco redutor para a dimensão do seu talento.

O médio sente que merece um palco maior do que aquele que a Liga 3 oferece. Há qualidade para (muito) mais. Mas o presente é este e se puder dar esse passo rumo aos campeonatos profissionais com os azuis do Restelo, tanto melhor. Até porque não esquece quem apostou em si.

Diogo Leitão aponta à subida de divisão
Diogo Leitão aponta à subida de divisãoOpta by Stats Perform, Os Belenenses

"Não podemos desperdiçar uma nova oportunidade de subir de divisão"

- O Belenenses foi a primeira equipa a confirmar a vaga para o play-off de subida à Liga 2, numa altura em que faltam três jornadas para o fim da primeira fase. Sendo este um objetivo assumido, esperavam consegui-lo mais cedo ou aconteceu no momento certo?

Acho que foi no momento certo. Conseguimos várias vitórias nas últimas jornadas e essa sequência ajudou-nos a alcançar este apuramento um pouco mais cedo. Isso é importante porque nos permite começar já a preparar a próxima fase, com mais tranquilidade, sem a pressão de ainda estarmos a lutar pela qualificação, e com mais tempo para nos organizarmos para o que aí vem.

- Sente que esta qualificação a três jornadas do fim valoriza ainda mais o vosso trabalho, sobretudo tendo em conta a competitividade da Liga 3 e da vossa série?

Sim, parece que foi fácil quando olhamos para a classificação, porque temos 32 pontos e a equipa que está em quinto lugar tem 20, ou seja, uma diferença de 12 pontos. Mas a verdade é que houve muitos jogos ganhos pela margem mínima e foi muito difícil construir essa vantagem. Muitas vezes foi no detalhe, porque mesmo nesta fase, que ainda não é a fase final, as equipas que não estão a lutar pelos quatro primeiros criam muitas dificuldades. São jogos tão exigentes como os da segunda fase.

Os números de Diogo Leitão
Os números de Diogo LeitãoFlashscore

- O que explica este sucesso?

Sinto que evoluímos sobretudo na forma como lidamos com as adversidades. No início da época, apesar de termos uma equipa com muita qualidade, não reagíamos bem quando sofríamos um golo. Tínhamos dificuldade em ir atrás do resultado. Mas a partir do jogo fora com o Atlético, em que estivemos a perder e conseguimos virar, mostrámos que éramos capazes de enfrentar qualquer adversidade.

Tivemos muitas entradas e saídas no plantel, o que é normal, e ao longo das jornadas fomos criando laços, conhecendo-nos melhor. Hoje estamos mais preparados para responder às dificuldades que surgem nos jogos.

- Também houve uma mudança técnica, com a saída do mister João Nuno para o Estrela. A equipa não acusou essa alteração?

Normalmente as mudanças de treinador acontecem por más razões, mas neste caso foi por uma boa razão. O mister João Nuno teve uma oportunidade única num clube da Liga e tem feito um excelente trabalho. Ele deixou uma base muito sólida e um grupo já bem construído. E o mister Tiago Zorro pegou numa equipa que já estava a funcionar e conseguiu manter - ou até melhorar - esse funcionamento. O motor não encravou, continua bem oleado (risos).

- Há um dado curioso neste Belenenses: em 18 jogos, 15 jogadores marcaram golos. O que lhe diz esta estatística?

É verdade. O nosso melhor marcador é o Wilson (Eduardo), com quatro golos, depois há vários com três, dois e um. Isso mostra que conseguimos criar perigo em vários momentos do jogo.

Há equipas que dependem muito de dois ou três jogadores, muitas vezes porque jogam mais em contra-ataque. Nós conseguimos marcar em transição, em organização ofensiva, com médios e laterais a aparecerem, e também temos sido fortes na bola parada, algo que melhorámos bastante. Ter muitos marcadores mostra que somos fortes em vários momentos do jogo.

- Esta é a sua segunda época no Belenenses. No ano passado falharam a subida no play-off com o Paços de Ferreira. Acredita que este ano pode ser diferente?

Quem ficou do ano passado tem esse sentimento de querer vingar o que aconteceu. Depois de onze meses de trabalho, morrer na praia é muito frustrante. Tivemos um mês para recuperar mentalmente e este ano voltámos com ainda mais vontade. Sentimos que, se tivermos outra oportunidade, não a podemos desperdiçar.

Diogo Leitão vive dias felizes nos azuis do Restelo
Diogo Leitão vive dias felizes nos azuis do ResteloOs Belenenses

"Sinto que estou na melhor fase da minha carreira"

- Sem desprimor pelas outras equipas que representou, mas estando agora no Belenenses, qual é o peso de vestir essa camisola? Como tem sido a sua caminhada no clube?

Sinto que muitas vezes estamos a jogar jogos com exigência de Liga. O Belenenses exige isso, os adeptos exigem isso, e acho que é isso que faz de um clube um clube grande: adeptos exigentes, que nos colocam pressão em todos os jogos. Se calhar, numa equipa sem tanta história e com menos adeptos, nesta fase já não se exigiam vitórias nem intensidade durante os 90 minutos. Aqui não. Aqui exige-se sempre. Basta darmos um passo atrás e sentimos logo essa exigência. E isso é bom, porque nos obriga a andar sempre no limite e a dar o máximo em todos os momentos do jogo.

Já representei outros clubes históricos, mas diria que o Belenenses é o mais histórico de todos e aquele que tem mais peso no futebol português.

Belenenses segue na 1.ª posição da Série B
Belenenses segue na 1.ª posição da Série BOs Belenenses

- Sente essa exigência da parte deles?

Os adeptos exigem-nos todos os dias que façamos o nosso melhor. Querem claramente voltar ao patamar onde o clube já esteve, e o mais rápido possível. Para eles, o Belenenses estar nesta liga não faz sentido, e isso traduz-se numa exigência constante de vitória.

Sabemos que nem sempre é possível ganhar todos os jogos, mas o objetivo é esse. E sinto que este ano temos armas para ganhar qualquer jogo que disputemos. Mesmo sabendo que, no futebol, isso dificilmente acontece até ao fim da época, é essa mentalidade que os adeptos nos passam e que temos de assumir.

- Que mensagem gostaria de deixar aos adeptos nesta fase da temporada?

Que vamos fazer tudo para vingar o que aconteceu no ano passado. Vamos entrar em todos os jogos para ganhar, em casa ou fora. Sentimos muito o apoio dos adeptos, em todo o lado, e toda a estrutura do clube está focada no mesmo objetivo: subir de divisão.

- Do ponto de vista individual, o Diogo está com 27 anos. Como se sente nesta fase da carreira?

Sinto que estou na melhor fase da minha carreira. Percebo cada vez melhor o jogo, todos os seus momentos. Se olhar, por exemplo, para o ano em que subi com o Estrela da Amadora, fui muito importante, mas hoje sinto que sou muito mais jogador do que era há cinco ou seis anos.

Acho que é algo que não está em declínio, pelo contrário, está em consolidação. O futebol vive muito de estatísticas, de golos e assistências, mas o jogo tem 90 minutos e é preciso perceber todos os momentos, ofensivos e defensivos. Sinto que estou cada vez mais forte nesse aspeto, e isso ajuda-me muito a ter rendimento em campo.

Diogo Leitão tem dado cartas na Liga 3
Diogo Leitão tem dado cartas na Liga 3Os Belenenses

"Não tiro mérito nem prestígio à Liga 3, mas ambiciono mais"

- O Diogo Leitão é sinónimo de fase de subida: vai disputar a sexta consecutiva. Que valor dá a isso? É pesado esse rótulo?

Tem sempre um lado bom e um menos bom. O lado bom é que, ao longo da minha carreira, só disputei fases de subida. Nunca lutei para não descer, e espero nunca ter essa sensação. Lutar para subir é sempre melhor.

Mas, ao mesmo tempo, sei que estou na Liga 3 e que um jogador ambiciona sempre jogar um patamar acima. Quero jogar nos campeonatos profissionais. Não tiro mérito nem prestígio à Liga 3, mas ambiciono mais. Acredito que essa oportunidade vai surgir, mais cedo ou mais tarde. Não me importava de perder esse rótulo e estar com o Belenenses na Liga 2 (risos).

- O que sente que tem faltado para dar esse passo para a Liga 2 ou Liga?

Já tive oportunidades na Liga 2 e, em alguns momentos, fiz escolhas que achei mais acertadas para o meu desenvolvimento, preferindo contextos onde pudesse lutar por subir e praticar um futebol mais próximo das minhas características. Também houve questões contratuais e outras condicionantes. Não diria que são desculpas, mas fazem parte do percurso. Acredito que é sobretudo uma questão de oportunidade, e sinto que, quando ela voltar a surgir, estarei mais preparado para a agarrar.

Eu já estive no Leixões e nessa oportunidade que me deram não agarrei a 100%, e devia. Ainda estava com a cabeça no Estrela da Amadora, era novo e não percebia que o futebol mudava muito rápido. Esse meio ano ensinou-me que tenho de agarrar uma nova oportunidade a 100%.

- Tem nível suficiente para jogar nesses escalões?

Essa pergunta não é difícil para mim. Acredito que sim. É uma oportunidade que tive uma vez, não agarrei por culpa minha e que se voltar a ter vou estar mais preparado para chegar e nunca mais sair.

- E se essa oportunidade surgisse com o Belenenses?

Assinava já hoje. Seria a oportunidade de voltar a um patamar onde já estive, mas agora com outra maturidade, e num clube que me recebeu muito bem, que apostou em mim e onde me sinto em casa. Gostava muito de ajudar o Belenenses a chegar à Liga 2 e de viver esse momento com o clube.

- Com mais de 100 jogos na Liga 3, como avalia esta competição?

A Liga 3 fez muita diferença. No último ano do Campeonato de Portugal havia quase 100 equipas, o que tornava tudo mais difícil. Hoje há mais visibilidade, mais transmissões... Há cada vez mais jogadores e treinadores a dar o salto direto da Liga 3 para as ligas profissionais, e isso mostra que esta competição é importante para o desenvolvimento do futebol português.

Diogo Leitão faz retrato da sua carreira
Diogo Leitão faz retrato da sua carreiraOpta by Stats Perform, Os Belenenses

- Qual a sua visão global sobre o futebol português?

Acho que é bom que os clubes - não diria os três grandes, porque esses têm capacidade financeira para ir buscar jogadores a outros países - apostem mais em jogadores dos escalões inferiores. Refiro-me sobretudo a clubes da Liga e da Liga 2: ir buscar jogadores a níveis mais baixos e dar-lhes oportunidade.

O Campeonato das Oportunidades dá muitos e bons exemplos de jogadores que passaram por estas divisões e chegaram à Liga. Um exemplo é o Ricardinho: chegou a jogar no Campeonato de Portugal, no Torreense, e depois foi aposta do Santa Clara, onde teve muito sucesso. Como ele, há vários, e acho que as equipas portuguesas deviam apostar mais nesse caminho.

Filho de Diogo Leitão acompanhou o pai no relvado
Filho de Diogo Leitão acompanhou o pai no relvadoOs Belenenses

O lado mais pessoal: "Penso muito na mensagem que quero passar ao meu filho"

- Olhando para trás, como avalia a sua carreira?

Não me arrependo de nada. Mesmo os momentos menos bons serviram de aprendizagem. Dou muita importância ao processo, mais do que ao resultado final. Faço aquilo que gosto, sou feliz todos os dias no futebol, e sei que vou sentir muita falta quando isto acabar. Por isso, diria ao Diogo do início da carreira para aproveitar cada momento, ser ambicioso e trabalhar sempre no máximo.

- Ser pai mudou a sua forma de encarar a carreira?

Ser pai muda tudo. Hoje penso muito na mensagem que quero passar ao meu filho. Quero que ele veja um pai ambicioso, trabalhador, que faz aquilo de que gosta, que não se conforma com o que tem e dá o máximo todos os dias. Tento que essa imagem passe também dentro do campo.

Os últimos três jogos do Belenenses na fase regular da Liga 3
Os últimos três jogos do Belenenses na fase regular da Liga 3Flashscore

- Quando um dia pendurar as chuteiras, como gostaria que o recordassem?

Gostava que me recordassem mais pelo Diogo do balneário do que pelo do campo. A convivência, as conquistas e as dificuldades partilhadas são o que fica. Claro que quero ser lembrado como alguém comprometido, trabalhador e que gostava de jogar bom futebol, aquele futebol que puxa adeptos ao estádio. Mas espero que me lembrem também como o que sou neste momento, um palhaço no balneário (risos).

- Se o futebol fosse uma pessoa e se cruzasses com ele na rua, o que lhe diria?

Dava-lhe um grande abraço e dizia obrigado por tudo. Obrigado pelas pessoas que conheci, pelos momentos que vivi e por tudo o que me deu. Sei que sou muito pequenino em relação a ele, mas foi graças ao futebol que vivi muitos e bons anos e que a minha vida fez sentido.