Acompanhe o Mafra no Flashscore
Em vésperas do arranque da fase de todas as decisões, o Flashscore ouviu os treinadores que vão lutar pela subida de divisão. Seguimos com Orest Shala, treinador do Mafra.
"Percebemos que o desafio ia ser muito maior do que pensávamos"
- Como avalia o trajeto da equipa até esta fase decisiva? Foi mais fácil ou mais difícil do que esperava?
Sabia desde o início que ia ser muito difícil. O que esperava era exatamente isso: um campeonato extremamente duro. O clube vinha de uma descida de divisão e, quando isso acontece, é necessário mudar muita coisa: jogadores, equipa técnica, estrutura. Eu e a minha equipa técnica chegámos a um país novo, o que tornou tudo ainda mais desafiante e estimulante.
Não era um projeto em que podíamos simplesmente observar e ver o que acontecia. Tínhamos de entregar resultados. O clube foi muito claro quanto à ambição e às expectativas, por isso o nosso foco foi encontrar o mais rapidamente possível o caminho para o sucesso.
No início não parecia que isso ia acontecer. O segundo jogo da época foi um desastre, mas acabou por ser um momento importante para nós. Foi um verdadeiro ponto de viragem, porque percebemos que o desafio ia ser muito maior do que pensávamos e que teríamos de nos adaptar rapidamente.
Mais tarde tivemos outro momento-chave: a eliminação da Taça, frente ao Celoricense. Foi um dia muito duro. Perdemos um jogo que não merecíamos perder, mas perdemos. E isso voltou a ser um ponto de viragem, porque a partir daí ficou claro que o foco seria exclusivamente o campeonato. Depois desse jogo, a equipa cresceu muito. Os últimos três meses foram muito positivos: o grupo ficou mais unido, o modelo de jogo ficou claro e os papéis dentro da equipa bem definidos. Foi um percurso interessante, com um início muito difícil, mas faz parte do processo. As coisas novas precisam de tempo e as coisas boas também.

- Já tocou em alguns pontos, mas qual o momento particularmente decisivo ao longo desse caminho?
A derrota na Taça. Foi um momento crítico, também do ponto de vista interno. Sentimos que era necessário mudar algumas coisas: a forma como trabalhávamos juntos, o espírito da equipa, a intensidade dos treinos.
Depois desse jogo, dissemos claramente: “A partir de agora é só campeonato, mas temos de entregar resultados.” Não era sobre mim, não era sobre um jogador ou sobre o capitão. Era sobre o clube. Algo maior do que todos nós. Trabalhamos para o clube e temos orgulho em representá-lo. A partir desse momento, a época mudou.
"Portugal é um país de futebol"
- Agora começa uma nova fase, quase como uma nova competição. O que espera desta etapa?
Espero uma fase ainda mais equilibrada e competitiva. Já foi uma competição muito renhida, mas esta fase final será ainda mais intensa. Há equipas que entram sem grande pressão, sem nada a perder, e isso pode torná-las ainda mais perigosas.
Há clubes que sentem uma obrigação maior de subir e outros que ficariam muito felizes se isso acontecer. Isso cria dinâmicas diferentes. Vai ser interessante, sobretudo com as equipas do Norte, que têm uma mentalidade distinta: são mais fortes nos duelos, mais focadas na organização defensiva. Mas as equipas do Sul também são muito fortes. Sabemos da qualidade do Belenenses, da Académica e do União de Santarém.
- Esta fase exige alguma mudança na preparação da equipa, a nível físico ou mental?
A componente mental é sempre a mais importante. Quando a nossa equipa está focada a 100%, é muito difícil de bater. O grande desafio é conseguir essa intensidade mental em todos os jogos. Para nós, cada jogo é uma final. É como um jogo de Taça: se não ganhas, estás fora. Essa mentalidade de decisão constante é fundamental nesta fase.

- Fala-se sempre de favoritos nesta altura. O que podemos esperar do Mafra?
Desde o início da época a nossa ambição foi muito clara: investir tudo para subir de divisão. Queremos ganhar todos os jogos, um a um. Sabemos que vai ser muito difícil, porque vamos defrontar equipas fortíssimas.
Conheço bem o Belenenses e a Académica, dois clubes históricos, com grandes massas associativas. São adversários muito fortes. Estou entusiasmado por voltar a enfrentá-los, até porque temos contas em aberto: o jogo polémico com o Belenenses e o empate louco frente à Académica. Estou também curioso para conhecer melhor as equipas do Norte.
- É a sua primeira época em Portugal. Que balanço faz da Liga 3 e qual a avaliação dos jogadores portugueses?
Portugal é um país de futebol. A cultura portuguesa vive intensamente o jogo. Os jogadores são extremamente competitivos, querem ganhar sempre. Gosto muito de trabalhar aqui, gosto dos meus jogadores e do espírito da equipa.
A qualidade técnica é impressionante. Todos os jogadores têm um nível técnico muito elevado. Há uma enorme abertura às ideias da equipa técnica e, com o tempo, criámos uma identidade clara de jogo. Quando existe esse compromisso coletivo, tudo se torna mais fácil e passa a ser uma questão de detalhes e de planos específicos para cada adversário.
- Apesar de ser a terceira divisão, nota-se muita qualidade. Concorda?
Sem dúvida. Basta olhar para o exemplo do Fafe, que chegou às meias-finais da Taça de Portugal. Isso dificilmente aconteceria na Alemanha ou na Suíça. Em Portugal, o equilíbrio competitivo é muito grande. As melhores equipas da Liga 3 conseguem competir e ganhar a clubes da Primeira Liga. Isso não é normal em todos os países. Mostra bem a qualidade da competição e dos jogadores.

"Temos alguns adeptos muito fiéis"
- A nível pessoal, como está a viver esta fase da sua carreira?
É muito entusiasmante. Trabalhei muitos anos como treinador-adjunto ao mais alto nível e depois numa equipa B. Sentia que precisava de uma mudança e procurava um projeto com uma visão clara.
Falei com vários clubes, mas o Mafra convenceu-me desde o início. Foi a decisão certa, no momento certo. Para um treinador jovem, liderar um projeto competitivo, lutar pela subida no primeiro ano como treinador principal, num país estrangeiro, é uma experiência incrível.
A relação com os jogadores baseia-se na confiança. Não importa a nacionalidade, importa a comunicação, o trabalho diário e o respeito mútuo.
- E fora do campo? Como tem sido a experiência de viver em Portugal?
Fantástica. O clube tem uma estrutura impressionante, um staff enorme e extremamente competente. As condições são de altíssimo nível, mesmo comparadas com clubes da Primeira Liga.
Trabalhar com este nível de profissionalismo é um prazer. Pequenos detalhes, como ter um nutricionista presente nos treinos e nos jogos, fazem a diferença. Mafra é uma cidade pequena, mas muito acolhedora. Vivo na Ericeira com a minha família e estamos todos muito felizes. Fomos muito bem recebidos e a integração foi muito fácil.
- Para terminar, uma mensagem para os adeptos do Mafra. O que espera deles nesta fase?
Gostávamos de ter o máximo de adeptos possível nos nossos jogos em casa. Sabemos que os últimos anos não foram bons, mas hoje temos um grupo que luta por cada centímetro do campo e que quer subir de divisão com orgulho.
Temos alguns adeptos muito fiéis, que nos acompanham para todo o lado, e isso é fantástico. Mas queremos ainda mais pessoas no estádio. Cada jogo em casa devia ser uma grande festa. Esse é o meu maior desejo.
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