Beatriz Conduto: "Muito do que levo para a vida vem do que aprendi no futebol"

Beatriz Conduto ao serviço do Rio Ave
Beatriz Conduto ao serviço do Rio AveArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 35.ª convidada é Beatriz Conduto, média do Rio Ave.

Acompanhe o Rio Ave no Flashscore

"Jogava futebol na rua com os meus vizinhos a toda a hora"

- Qual é a sua primeira memória ligada ao futebol?

A primeira coisa de que me lembro é do meu pai a ir comigo de bicicleta para o treino, que na altura era perto de casa. São memórias que ficam para sempre: foram dos meus primeiros treinos e nunca mais me esqueci.

- Como é que nasceu a vontade de entrar para um clube?

Curiosamente, eu nunca tinha pensado nisso. Eu jogava futebol na rua com os meus vizinhos a toda a hora, ao ponto de a minha mãe, às vezes, ter de impor um travão porque já era hora de ir para casa. Mas nunca tinha pensado em jogar num clube. Até que um dos meus amigos, que jogava comigo na rua, disse: “Não queres vir para a minha equipa? Eles estão a precisar de jogadores.” Eu respondi-lhe: “Então tens de perguntar à minha mãe.” (risos) E foi ele que foi falar com os meus pais.

Beatriz Conduto confiante para a segunda volta do Rio Ave
Beatriz Conduto confiante para a segunda volta do Rio AveOpta by Stats Perform, Rio Ave

- E foi tranquilo lá em casa?

Foi muito tranquilo. Foi quase natural.

- Começa a jogar com rapazes. Como foi essa fase e depois a passagem para o feminino?

Foi tudo muito natural, porque eu já estava habituada a estar rodeada de rapazes quando jogava na rua. Basicamente, só mudou o campo. Mais tarde decidi mudar para o futebol feminino. Ainda tive uma tentativa no ano anterior: fui experimentar, mas voltei atrás porque senti que ainda queria ficar mais um ano com os rapazes. Joguei até já não poder participar mais com eles e depois, a partir daí, fui para uma equipa sénior feminina, com 15 anos.

- E como foi essa transição para um balneário com jogadoras muito mais velhas?

Foi uma realidade completamente diferente. Eu estava habituada ao contexto da escola: saía, ia treinar com os meus amigos. De repente, comecei a treinar muito tarde, com pessoas que vinham do trabalho, outras que já tinham filhos, e eu era uma miúda no meio delas. Foi um bocado chocante, e também porque havia diferenças grandes entre o futebol a que eu estava habituada e aquele que encontrei.

Um dos primeiros registos fotográficos de Beatriz no futebol
Um dos primeiros registos fotográficos de Beatriz no futebolArquivo Pessoal

- Aos 15/16 anos, como é que via o futebol no feminino em Portugal? O que é que imaginava para o futuro?

Aos 15 anos eu só jogava por diversão. Não pensava muito além, porque na altura não havia tantas possibilidades. Nós somos adolescentes e temos sonhos, mas eu olhava e pensava: “Isto nunca vai acontecer.” Aos 16 foi diferente. Começaram a surgir projetos como o Sporting e eu entrei logo nesse primeiro ano. A partir daí passei a ver o futebol de forma completamente diferente, porque estava a ter possibilidades com que tinha sonhado um dia. Tudo aquilo que eu achava que sabia sobre futebol… percebi que não sabia nada. E comecei a aprender muito mais, a olhar para o jogo de outra forma. Já não era só “ir jogar”. Isso foi muito importante para o meu desenvolvimento.

- Quando a Beatriz começa no Quintajense, andavam todas por gosto, não é verdade? Parece uma realidade muito distante...

Posso estar enganada, mas a maior parte das pessoas quase pagava para jogar. Havia pessoas que vinham de longe... Era por gosto, simplesmente.

Beatriz Conduto foi campeã com a equipa B do Sporting
Beatriz Conduto foi campeã com a equipa B do SportingArquivo Pessoal

"Aprendi imenso sobre o jogo no Sporting"

- Fica cinco anos no Sporting. Que balanço faz dessa etapa?

Hoje olho para trás com muita gratidão. Foi um privilégio ter tido aquela oportunidade e ter trabalhado com as pessoas com quem trabalhei: colegas, staff, treinadores, todos. Cresci muito como jogadora e como pessoa, porque ali valorizam muito a parte humana e nós somos obrigadas a crescer. Aprendi imenso sobre o jogo. Antes eu ia para o campo e jogava; hoje não consigo estar dentro do campo sem pensar nas possibilidades que existem em cada momento. O futebol tornou-se um jogo mais complexo na minha cabeça, no bom sentido.

Tive sorte de ter pessoas muito competentes nesse percurso. Destaco muito a mister Mariana Cabral. Aprendi mesmo muito com ela e acho que, muitas vezes, as pessoas não têm noção da importância de ter uma treinadora como ela no futebol português e isso vai além do campo.

- Chega o momento de sair e mudar para o Norte. Como foi fechar esse ciclo e adaptar-te?

Foi duro. O último ano tinha sido muito bom. Tínhamos acabado de ganhar o campeonato da Segunda Divisão e eu estava feliz, mas já sabia que podia ter sido o meu último jogo. Tomei a decisão de sair para um contexto que achei mais favorável. Foi uma mudança repentina, decidi literalmente de um dia para o outro. E fui, com sonhos e expectativas.

Tive um ano difícil, de adaptação, que não correu como idealizava, mas que me fez crescer muito. Saí da minha zona de conforto de cinco anos e tive de me adaptar a uma cidade nova, a estilos de jogo diferentes, a treinadores e colegas novas.

- Sentiu diferenças no futebol no Norte?

Sim, um bocadinho. E também é muito mais frio. Mas o Norte é bom, gostei da mudança. Ao início senti um futebol mais agressivo do que no Sul, com mais “sangue”, como se costuma dizer. Tive de me adaptar. Faz parte.

Beatriz entrou na história do Rio Ave
Beatriz entrou na história do Rio AveArquivo Pessoal

A felicidade no Rio Ave: "É dos grupos mais unidos que já tive"

- Passa por vários clubes e regressa ao Rio Ave. Porquê? O que representa o Rio Ave para si?

A ligação nasce quando saio do Länk. Mesmo antes de decidir ir para o Rio Ave, senti-me acolhida, pela forma como tudo aconteceu. Estava numa fase em que não sabia o que ia fazer e houve uma pessoa no clube que me disse: “Eu vou buscar-te a casa e vens conhecer as condições”, porque eu na altura não tinha como ir. Mesmo eles sem saberem se eu ficaria, acolheram-me desde o primeiro dia.

Encontrei uma equipa muito humana, muito acolhedora, com excelentes pessoas e jogadoras. O desfecho daquela época não correu como queríamos e eu segui outro rumo, mas fiquei sempre com uma ligação ao clube e com pena de não ter corrido melhor. Mais tarde surgiu a possibilidade de voltar, noutro contexto, e decidi regressar... e aí vivemos um ano muito feliz.

- Faz parte da história: o Rio Ave sobe à Liga. Como foi essa temporada?

Foi uma época com altos e baixos. Tivemos lesões chatas que mexeram com a equipa. Mas nos momentos mais difíceis soubemos unir-nos e dar a volta. No playoff eliminámos uma equipa da Liga e isso foi histórico. Foi o culminar de tudo o que tínhamos trabalhado. Nos dois jogos do play-off fomos com tudo, porque depois de tudo o que vivemos e do trabalho que fizemos, não podia haver outro desfecho.

- E este ano, já na Liga, que análise faz à competição e ao momento do Rio Ave?

A Liga, no geral, está mais competitiva e mais disputada. As equipas conseguem ganhar umas às outras com mais frequência do que noutros anos. Enquanto Rio Ave, sabemos que não estamos na posição que queremos, mas estamos a trabalhar para fazer uma segunda volta melhor. A confiança está a crescer e, com o trabalho que fazemos diariamente, acredito que vamos conseguir os resultados que procuramos.

Tabela classificativa da Liga Feminina
Tabela classificativa da Liga FemininaFlashscore

- O que é que o público pode esperar deste Rio Ave até ao fim da época?

É dos grupos mais unidos que já tive. Muito familiar. Nós gostamos mesmo de estar juntas fora do campo, não é só treino e acabou. Somos diferentes, mas sabemos lidar com as diferenças e isso torna-nos mais fortes. Tenho muito orgulho nas minhas colegas e no trabalho que estamos a fazer. Vejo pessoas muito trabalhadoras, com dificuldades diferentes, mas todas a lutar todos os dias pelos objetivos. As pessoas podem esperar uma equipa que não desiste, como se viu no último jogo, em que marcámos na última jogada. Vai ser assim até ao fim.

- Esse golo na última jogada do jogo foi um alívio? O que sentiu?

Foi muita felicidade e, honestamente, foi um “finalmente”. Nós trabalhávamos e parecia que a bola batia em todo o lado e não entrava. Desta vez entrou. Foi um alívio para todas: “Ok, aconteceu. Agora daqui para a frente só tem de ser melhor.”

- A nível pessoal, como está a viver esta época?

Não tem sido tão fácil como a anterior, mas acho que as coisas acontecem quando têm de acontecer. Tento olhar para isto de forma positiva e construtiva. Tem sido um ano de crescimento e de resiliência. Tem-me obrigado a olhar para mim de forma diferente e trabalhar coisas que talvez nunca tivesse tido de trabalhar antes. E espero poder contribuir cada vez mais quando o mister assim o entender, pois trabalho para isso.

Beatriz cumpre terceira temporada em Vila do Conde
Beatriz cumpre terceira temporada em Vila do CondeArquivo Pessoal

"As pessoas têm de dar uma oportunidade ao desporto feminino"

- O que mudou mais no feminino desde que começou? E o que falta melhorar?

A intensidade do jogo mudou muito. O futebol é mais intenso do que era há uns anos. Ainda há muito a melhorar nas condições dadas aos clubes, porque muitos fazem esforços enormes, mas nem sempre é fácil. E também falta as pessoas olharem para o feminino de outra forma. Nós trabalhamos para isso, mas muitas vezes esse valor não é reconhecido por quem está de fora.

- E, hoje, aos 25 anos, como é que olha para o futebol?

Para mim, dentro do campo, o futebol é “fácil” dentro da dificuldade. Eu vejo muitas possibilidades ao mesmo tempo. E às vezes também olho para o futebol com olhos de treinadora, porque já tive essa experiência e acabo por ver mais do que apenas o lado da jogadora.

- Como imaginas os próximos 10 anos do futebol no feminino em Portugal?

Acredito que vão ser de uma evolução tremenda, em condições e em qualidade. Eu acompanho muito as camadas jovens e acho que as pessoas não têm noção da qualidade que vem aí. Há jogadoras a crescer com uma escola diferente, com muita qualidade, e isso vai fazer uma grande diferença nos próximos anos.

Os próximos jogos do Rio Ave
Os próximos jogos do Rio AveFlashscore

- Se pudesse falar com a Beatriz que jogava na rua quando era criança, o que lhe diria?

Diria para continuar a sonhar, mas para trabalhar tanto quanto sonha. Porque, no fundo, o trabalho acaba sempre por compensar.

- Quando um dia terminar a carreira, como gostaria que as pessoas se lembrassem de si?

O futebol moldou-me como jogadora e como pessoa. Muito do que levo para a vida vem do que aprendi aqui e das pessoas com quem me cruzei. Quando deixar de jogar, espero que se lembrem de mim pela pessoa que fui, não tanto pela jogadora. Que me vejam como alguém que apoiava, ajudava, e que punha a equipa em primeiro lugar. Isso foi o que o futebol me ensinou: primeiro a equipa, depois nós.

- Que mensagem deixa a quem ainda olha com desconfiança para o futebol no feminino?

Gostava que percebessem que, tal como os homens, nós trabalhamos muito e muitas vezes temos de trabalhar em dobro ou em triplo para ter o reconhecimento que desejamos. Peço que nos deem o benefício da dúvida. Nós fazemos coisas bonitas também, mas nem sempre isso é notado porque ainda não há tanta gente a acompanhar. Em Portugal precisamos de uma perspetiva mais aberta, como já existe noutros países. Está na hora de mudar a mentalidade de que “o futebol é para os homens”. As pessoas têm de dar uma oportunidade ao desporto feminino, não só ao futebol.

Mais sobre o Flash Feminino

Entrevista de Rodrigo Coimbra
Entrevista de Rodrigo CoimbraFlashscore