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Do Brasil a Portugal: "Eram só seis meses e virou a vida toda"
- Quais as primeiras memórias que a ligam ao futebol?
São memórias muito boas. Desde pequenina que jogo futebol. Lembro-me de um campinho perto da minha casa, no Brasil, onde ia muitas vezes com o meu pai e, mais tarde, também com a minha irmã. Jogávamos aquilo a que no Brasil chamamos “golo a golo”, que é, no fundo, “baliza a baliza”: um remata, o outro tem de dar só um toque e tentar marcar. Era basicamente o meu dia a dia com o meu pai. Era basicamente o nosso ritual diário.
Aos fins de semana, também participávamos em jogos de pais e filhos, e o meu pai era o único que levava duas meninas. A minha mãe também estava sempre presente, a assistir. Tenho muitas lembranças dessa fase.

- E quando é que vocês vêm para Portugal?
Eu tinha 14 anos. O meu pai era juiz no Brasil e foi chamado para fazer um mestrado de seis meses em Portugal. Nós já vínhamos muitas vezes cá: o meu avô é português, tínhamos apartamento em Vila do Conde e era habitual virmos no Natal ou no verão.
Mas naquele momento o objetivo era ficar só esse tempo. Aconteceu que eu e a minha irmã começámos logo a jogar futebol. Eu fui para o Rio Ave, para os sub-19, e a minha irmã jogou com rapazes, porque na altura tinha 9 anos e não havia equipa feminina.
Ao fim dos seis meses, voltámos ao Brasil com muita pena, mas não durou muito: em fevereiro já estávamos cá outra vez, para mais um ano. E esse “mais um ano” virou a vida toda. Ainda temos casa no Brasil, mas estamos cá até hoje.
- No Brasil tinha alguma experiência ligada a clubes?
Foi aqui que comecei a jogar futebol a sério, porque no Brasil jogava futsal. Aliás, eu cheguei a criar a equipa de futsal na minha escola: fui de sala em sala a chamar jogadoras para participarem na primeira equipa de futsal da escola. Joguei futsal durante algum tempo e, quando vim para Portugal, entrei no futebol de 11.
- A família sempre apoiou essa sua paixão?
Os meus pais sempre me apoiaram. Conseguem estar quase sempre presentes, mas quando não podem, dão um jeito de entrar em contacto com alguém que esteja a ver o jogo ao vivo.

Lesões no SC Braga e o passo "atrás" para o Gil: "Queria voltar a ser a Maria Gaspar"
- Uma coisa é vir de férias, outra é passar a viver cá, fazer amigos novos… Como foi para si?
Como a ideia inicial era “só seis meses”, foi mais tranquilo. Os meus amigos e a minha família no Brasil pensavam que nós voltávamos em janeiro e eu também sentia que ia aproveitar a experiência e regressar. Mas eu sou uma pessoa que se dá bem com as pessoas e falo bastante, por isso cheguei e fiz logo muitos amigos, na escola e no futebol. Claro que fiquei dividida, porque também tinha os meus amigos no Brasil. Mas acabou por ser natural para mim e para a minha família, porque sentimos que, naquele momento, era o melhor para todos.
- Recorda-se do processo de entrada para o futebol federado?
Como disse, eu cheguei e fui logo para o Rio Ave, o que foi uma grande porta de entrada e também uma grande ajuda, porque muitos dos amigos que fiz foram através do futebol. Quando ia voltar para o Brasil, ainda sem saber que regressaria a Portugal, lembro-me de o balneário ter chorado todo. Fizeram-me um quadro que ainda hoje tenho, com uma foto minha e as atletas ao fundo. Ficou muito marcado em mim, nos meus pais e na minha irmã.
- Nessa altura, imaginava o seu futuro no futebol de que forma?
Era uma miúda, uma adolescente feliz. Pensava em jogar, em marcar uns golinhos, e estava a correr bem.

- Vivia-se uma fase de transição no feminino em Portugal. Como acompanhava essa evolução da modalidade?
Sempre acompanhei e sempre tive interesse, mas a diferença para hoje é enorme. Em 2016 as coisas eram muito diferentes. Quando vim para cá, comecei a interessar-me mais pela Liga. Saí do Rio Ave e fui para o Amorim disputar a segunda divisão; depois fui para o SC Braga. Quando cheguei ao SC Braga, em 2018, aí sim comecei a ver o futebol feminino de outra forma, porque estava num clube de Liga. Mas sempre fui interessada.
- A verdade é que passa cinco anos em Braga, mas não chega a estrear-se na Liga. Explique-nos esse processo.
Passei por algumas lesões graves. Cheguei ao SC Braga para integrar a equipa B e, em março, já perto do fim da época, sofri a primeira rotura do ligamento cruzado. Recuperei bem e voltei a jogar nas sub-19, mas entretanto aparece a Covid. Ainda assim, joguei entre novembro e março e, nesse período, fui chamada à equipa A.
Recuperei, dei o salto para a equipa principal… e voltei a ter outra rotura do cruzado. Tive de ser operada. Foi um período difícil, com muitos contratempos seguidos. Mas o SC Braga foi incrível comigo e ajudou-me a recuperar muito bem.
Quando voltei, regressei à equipa B. Era capitã, dava-me bem com toda a gente e fazia pré-épocas com a equipa A, mas sentia que precisava de um novo desafio. Decidi dar um passo atrás para voltar a sentir-me “a Maria Gaspar” em campo. Fui para o Gil Vicente e não me arrependo. Foi lá que voltei a ter minutos, a marcar golos e, acima de tudo, a reencontrar-me.
No fim da época passada, porém, sofri uma nova lesão... fraturei o perónio. Foi, sem dúvida, a pior de todas. Fiquei assustada, não vou negar. Do cruzado já se ouve falar muito, mas aquilo foi diferente. Ainda assim, consegui recuperar em tempo recorde, com muito esforço e dedicação. Tudo isto para dizer que voltei a ultrapassar uma fase menos boa e cheguei ao Vitória SC.

"Temos sido uma equipa-surpresa"
- Quando surge a oportunidade Vitória SC, qual foi o primeiro pensamento?
Na primeira entrevista que dei aqui disse isto e mantenho: o Vitória SC é um clube com muita alma e muita história. Sempre vi o Vitória SC assim e tinha vontade de viver isso. Cheguei e confirmou-se. Fiquei muito feliz, senti que era um voto de confiança, também pelo que fiz no Gil.
- E tem sido como imaginava?
Eu tento não criar demasiadas expectativas. Trabalho para que as coisas aconteçam, mas deixo-as acontecer de forma natural. Sou muito metódica, faço a minha parte, e há coisas que não dependem de mim. As coisas foram acontecendo, fui ganhando minutos, confiança, e fui evoluindo.
- Recorda-se da estreia na Liga?
Sim, claro. Foi um misto de emoções, porque entrei num jogo contra o Benfica. Foi uma derrota, mas foi um momento marcante.

- Qual a sua avaliação do nível do campeonato português?
Acho que é uma liga que tem crescido imenso. Ainda há muito a melhorar, mas tem crescido muito. Há alguns anos tínhamos apenas uma vaga para as competições europeias e hoje já temos três, e isso diz bastante. Sinto também que cada vez se exige mais às jogadoras e aos clubes. O lote fica mais apertado e os clubes têm de acompanhar: apostar, evoluir e dar boas condições às jogadoras. Espero que continue a crescer e a melhorar.
- O que podemos esperar do Vitória SC até ao final da época?
Acho que temos sido uma equipa-surpresa, porque temos dado boas respostas. O Vitória SC tem muita alma e nós, jogadoras, também. Entramos em todos os jogos para ganhar. Por isso, podem esperar um Vitória SC muito forte, como tem sido.
- E o que podemos esperar da Maria?
O mesmo: quero ser cada vez mais madura e completa, ajudar a equipa no que for preciso. Se puder ser com golos, melhor; se não, com assistências ou noutra forma qualquer. O importante é ajudar.
- Como é que se tem sentido nesta primeira época na Liga?
É muito especial. Acho que precisava disto. Estar num ambiente em que as pessoas gostam de trabalhar e evoluir ajuda-nos a ser melhores. Por isso, sim, foi um bom passo e é especial estar aqui.

"Neste momento estou a tirar um mestrado e uma pós-graduação"
- Aos 24 anos, como imagina o futuro e o que ainda quer conquistar no futebol?
Quero continuar a evoluir e tornar-me uma jogadora mais madura e completa. Sinto que isso tem acontecido aqui. Deixo as coisas acontecerem com naturalidade, mas sempre a fazer a minha parte, a trabalhar, com o método que tenho. Futuro? O que tiver de ser, será. Quero crescer e estar no patamar mais alto possível, mas passo a passo.
- Vi uma fotografia sua num curso da Liga Portugal. Pode explicar-nos do que se trata?
Na verdade, neste momento estou a tirar um mestrado e uma pós-graduação. Fiz licenciatura em Ciências da Comunicação, na Católica, e entrei num mestrado em Comunicação Digital. Ao longo do mestrado percebi que também me interessava pela gestão. E no meio do meu mestrado surgiu a oportunidade de fazer a pós-graduação da Liga, em Organização e Gestão no Futebol Profissional. Portanto, estou a fazer a tese - por acaso sobre futebol feminino - sobre estratégias e visibilidade de conteúdos digitais dos clubes da Liga BPI. E estou também na pós-graduação da Liga.
- Consegue conciliar tudo?
É cansativo, não vou negar. Há fases mais difíceis. No início de dezembro, por exemplo, tinha uma parte da tese para entregar e o primeiro exame da Liga. Já vinha mentalizada: “se este mês render menos no futebol, está explicado”. Tento ser organizada, manter a matéria em dia para não correr atrás do prejuízo, mas há alturas em que é preciso acelerar e estudar mais.
- A Maria pensa em trabalhar em algo relacionado com a gestão no futebol?
Sim. Antigamente achava que talvez conseguisse estar fora do futebol, mas hoje sinto que não faz sentido. Não sei o futuro, mas neste momento, quando deixar de jogar, quero continuar ligada ao futebol.
- O que falta para o feminino dar um salto em Portugal?
Agora que estou na pós-graduação, vejo muito do futebol profissional masculino e noto logo a diferença. A Liga Feminina não está incluída e isso deixa-me frustrada. O que eu mais queria era estar nas aulas e ver o futebol feminino integrado nesses conteúdos. Ainda não acontece, mas espero que mude rapidamente.

"O futebol ajudou-me a ser quem sou, dentro e fora de campo"
- Olhando para trás, para a Maria que saiu do Brasil e chegou a Portugal, o que lhe apetece dizer?
Nem sei (suspiro). Passei por muita coisa e isso fez-me ser quem sou hoje. Mesmo com as lesões, tento tirar o lado positivo. Cresci imenso como pessoa e sinto que, por vezes, fui exemplo para outras atletas. Há pessoas que me procuram quando passam por situações difíceis e usam-me como referência. Isso para mim é ótimo. Acho que as coisas acontecem por algum motivo. Nem que seja para, quando acontecer com outras pessoas, elas olharem e pensarem: “é possível”.
- Na jogadora Maria Gaspar, o que há de brasileiro e de português?
É uma pergunta difícil. O futebol que eu vivi foi sobretudo aqui. Nunca joguei futebol no Brasil em competição feminina; por isso não sei responder muito bem. Ainda assim, claro que tenho a minha base de vida no Brasil e uma enorme influência do futebol que aprendi em Portugal.
- E que espaço ocupam Portugal e Brasil no seu coração?
Meio-meio. Toda a gente me pergunta o que escolheria em certas situações, como por exemplo a Seleção, e eu não consigo escolher. Estou em Portugal, gosto muito de estar aqui, mas amo o Brasil: foi onde nasci, adoro visitar. São dois lugares muito especiais para mim.
- Portanto, se a seleção portuguesa e a seleção brasileira a convocassem...
Deixo esse problema para depois (risos).

- Se o futebol fosse uma pessoa, o que lhe diria?
Agradecia. Pelas pessoas, pelos momentos. O futebol dá-me coisas que ficam para a vida. Mesmo nas fases menos boas, conseguimos tirar aprendizagens e levar isso para a vida fora do futebol. O futebol ajudou-me a ser quem sou, dentro e fora de campo. Só tenho a agradecer.
- E quando terminar a carreira, o que gostavas que respondessem à pergunta “quem foi a Maria Gaspar”?
Gostava de ser lembrada como alguém que superou muito. Mesmo sendo nova, passei por coisas difíceis, mas também trouxeram coisas boas. E gostava de ser lembrada como uma pessoa que ajudava muito, dentro e fora do campo, que estava disponível para as colegas. Acho que isso é o mais importante.
- Para terminar: qual é o seu maior desejo para 2026?
Terminar a tese, concluir a pós-graduação e, no futebol, no plano coletivo, quero continuar a evoluir e que a equipa mantenha a época que está a fazer, pois estamos no caminho certo. A nível individual, quero ajudar ao máximo e somar o maior número de minutos possível. E, claro, um sonho pessoal que tenho para este ano é chegar à final da Taça de Portugal no Estádio do Jamor.
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