Do "futebol de rua" à equipa A: o método que molda o talento em Alcochete

Raúl Ribeiro é coordenador do Departamento de Desenvolvimento Individual do Sporting
Raúl Ribeiro é coordenador do Departamento de Desenvolvimento Individual do SportingSporting CP

Na Academia de Alcochete, onde cada detalhe conta na construção do jogador, o Sporting aposta num caminho cada vez mais individualizado até à elite. Raúl Ribeiro, coordenador do Departamento de Desenvolvimento Individual, explica ao Flashscore como este trabalho complementar aproxima os jovens talentos do patamar mais alto, reduzindo a distância entre a formação e a equipa principal

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"Preparamos os jogadores para estarem mais perto de um patamar de elite"

- Raul Ribeiro é coordenador do Departamento de Desenvolvimento Individual do Sporting. Em que consiste este departamento e que mais-valia traz aos jogadores, sobretudo à formação?

O departamento ocupa-se, fundamentalmente, de melhorar tecnicamente os nossos jogadores e de os tornar cada vez mais autónomos num jogo de futebol onde nunca sabemos exatamente o que vai acontecer. O nosso objetivo é criar essa autonomia e dar-lhes o máximo de ferramentas técnicas possíveis para que, durante o jogo, consigam resolver os problemas que vão surgindo.

Raúl Almeida detalha o trabalho do seu departamento
Raúl Almeida detalha o trabalho do seu departamentoOpta by Stats Perform, Sporting CP

- Trata-se, então, de um trabalho complementar, mais focado em aspetos técnicos e táticos?

Sim, é um trabalho complementar ao treino coletivo. Isolamos determinadas ações e gestos técnicos para que ocorram mais vezes no nosso treino, algo que nem sempre acontece no treino coletivo. Damos grande propensão às coisas que queremos que aconteçam mais vezes. Preparamos para eles estarem mais perto de um patamar de elite. O nível de complexidade vai variando ao longo do percurso formativo, de acordo com a idade e o escalão.

- É um processo transversal a todas as equipas de formação do Sporting?

Sim. Intervimos desde os mais novos, no Pólo UL, até às equipas da Academia, Sub-23 e, desde esta época, também com uma pequena intervenção na equipa B.

- Mesmo sendo uma equipa profissional, a equipa B ainda está numa fase final de formação?

Exatamente. As prioridades é que mudam. Nos escalões mais baixos o trabalho é mais abrangente e geral, sem grande especialização por posição. À medida que os jogadores se aproximam da equipa A, passamos para uma intervenção muito mais individual e específica, focada nas necessidades de cada jogador para atingir o nível da elite.

Raúl Ribeiro no campo de futebol 7 da Academia
Raúl Ribeiro no campo de futebol 7 da AcademiaSporting CP

"Queremos que os degraus até à equipa A sejam cada vez mais pequenos"

- Aurélio Pereira defendia muito o futebol de rua. Este departamento recupera um pouco essa ideia?

Sem dúvida. Também somos defensores disso. Hoje brinca-se cada vez menos e isso limita a liberdade corporal necessária para jogar futebol ao mais alto nível. Temos um espaço dedicado a isso - o campo sete - onde os jogadores passam por contextos semelhantes ao futebol de rua. Lá não treinam o jogo formal, mas tudo aquilo de que precisam para que o jogo depois seja mais fluido: futevólei, squash, futeténis, jogos reduzidos com diferentes estímulos. Cada exercício é pensado para promover determinados gestos e graus de liberdade corporal. Queremos libertar os jogadores dessas amarras.

- No fundo, é um espaço lúdico, mas educativo?

Prefiro dizer que é divertido, mas muito sério. A palavra “lúdico” pode dar a ideia de algo pouco exigente, e não é isso. Há diversão, mas também competitividade e exigência. A vontade de melhorar e de ganhar tem de estar sempre presente.

- Esse trabalho é ajustado às posições dos jogadores?

Sim. Um extremo como o Quenda precisa de irreverência e imprevisibilidade; um defesa-central tem outras prioridades. Há aspetos comuns, mas muitos são específicos. O nosso trabalho é direcionado para aquilo que cada jogador precisa naquela fase.

- O objetivo final é criar jogadores mais completos?

Exatamente. Queremos que, no final do processo formativo, o corpo do jogador tenha sido exposto ao máximo de estímulos possível. Que o corpo compreenda tudo o que está a acontecer. O nosso “tema zero” é a relação com a bola, que a bola seja uma extensão do corpo e não um problema a resolver. Tratar a bola por tu.

Raúl Almeida traça o perfil do processo formativo na Academia de Alcochete
Raúl Almeida traça o perfil do processo formativo na Academia de AlcocheteOpta by Stats Perform, Sporting CP

- A seleção dos exercícios parte apenas do vosso departamento?

Não. É um trabalho cooperativo entre o nosso departamento, as equipas técnicas e a coordenação. Definimos prioridades e planeamos exercícios para que determinadas ações aconteçam mais vezes. Temos treinadores especialistas por escalão, o que nos permite ir ao detalhe. Quanto mais soubermos de cada um deles melhor. Temos o expert coach dos sub-23 e sub-19, outro dos sub-17 e sub-16, dos 15 e 14, 13, 10 e 8 e outro 12, 11 e 9, que nos ajuda no planeamento.

- Este trabalho ajuda a reduzir a distância entre a formação e a equipa A?

Sim. Se pensarmos numa escada, queremos que os degraus até à equipa A sejam cada vez mais pequenos. Queremos que essa subida seja o mais fácil possível. Mas acreditamos num desenvolvimento sustentado, não imediato. A intervenção é diferente consoante o patamar competitivo que o jogador vai enfrentar. O padrão de problemas é diferente de escalão para escalão. Logo a nossa intervenção tem de ser diferente.

- Está previsto fazer crescer o departamento para as academias espalhadas pelo país?

Claramente. É importante a uniformização. Temos seis treinadores, quatro na Academia e dois no Pólo, e mais um membro ligado ao nosso departamento que faz ligação ao nosso gabinete de observação e análise. No Pólo procuramos criar jogadores corajosos na relação com a bola. Na Academia, aos 14 e 15 anos, o nosso plano de intervenção é muito direcionado a esse tipo de ações e complementamos com o futebol de rua. A partir dos sub-16 não deixamos que o futebol de rua desapareça, nem o fator corajoso, mas olhamos mais à especialização. 

Começámos com duas pessoas e hoje somos oito. Sinal que as pessoas acreditam no nosso trabalho, que está a dar frutos. Recentemente demos formação a cerca de 170 treinadores das Escolas Academia Sporting, precisamente para uniformizar processos e levar esta metodologia a todo o universo Sporting. O Sporting é muito mais do que acontece aqui, são os nossos pólos e escolas espalhadas por Portugal inteiro.

- Como é que os jogadores recebem este tipo de trabalho?

Muito bem. Todo o jogador gosta de trabalhar com bola. Quando lhes damos uma bola e o objetivo é melhorar com ela, estão motivados e envolvidos.

Raúl Ribeiro à conversa com o Flashscore na Academia de Alcochete
Raúl Ribeiro à conversa com o Flashscore na Academia de AlcocheteSporting CP

"Quenda e João Simões passaram por este processo"

- Que exemplos concretos pode dar do impacto deste trabalho?

Jogadores como João Simões ou Quenda passaram por este processo. Conseguiram beber disto. E temos outros que vão começar a aparecer mais na nossa equipa A. O nosso trabalho é complementar. No Quenda, por exemplo, a imprevisibilidade, a ousadia no drible e a capacidade de decidir melhor vêm também deste trabalho complementar. Mas reforço: é sempre um trabalho em conjunto com as equipas técnicas. No Simões mais a importância do primeiro toque, a capacidade de transportar a bola e ganhar metros. No Eduardo Felícissmo, capacidade de receber por dentro, no primeiro toque ligar logo para a frente. No Blopa, a capacidade de ser imprevisível e ser ágil na saída do drible para dar sequência às outras ações. 

Acredito muito no desenvolvimento. O Simões, Blopa e Quenda não nasceram assim. Nós queremos dar mais armas para eles usarem em jogo. Se conseguem ser muito bons na capacidade do drible e fugir para o pé forte, temos que lhe dar ferramentas para ser imprevisível ou de ter mais soluções para resolver determinado problema.

Não conseguimos pré-determinar o que vai acontecer no jogo, por vezes algo caótico, e o padrão nunca é o mesmo. Nós acreditamos se lhes dermos muitas ferramentas para resolver os problemas, eles vão estar aptos a resolver esses problemas. Quanto mais completos forem, melhor.

Os números de Quenda
Os números de QuendaFlashscore

- Nota-se que fala disto com forte paixão.

Eu sou apaixonado pelo desenvolvimento e o treino é uma paixão para mim. Acredito que nós treinadores temos o poder de contagiar quem temos à frente. A paixão tem de estar aliada a isto tudo.

- Este tipo de treino é feito todos os dias?

O departamento funciona todos os dias, mas não com os mesmos jogadores. Dos sub-8 aos sub-13, estamos uma vez por semana com cada jogador; nos Sub-14 e Sub-15, duas vezes; dos Sub-16 aos Sub-23, depende do microciclo, mas normalmente uma vez por semana. Trabalhamos sempre em grupos pequenos para garantir atenção ao detalhe. Se queremos ir ao detalhe, temos de ter grupos pequenos. Trabalhamos grupos de seis por treinador.  

- É um processo gradual.

Sem dúvida. O desenvolvimento leva tempo. Queremos que, no final da formação, todas as peças estejam bem encaixadas, criando jogadores sólidos, preparados para responder aos problemas do jogo sem perder equilíbrio.