Exclusivo com Filipe Santos, treinador dos sub-14 do Sporting: "O nosso modelo é centrado no atleta, não na equipa"

Filipe Santos, treinador da equipa sub-14 do Sporting
Filipe Santos, treinador da equipa sub-14 do SportingSporting CP

Alcochete continua a ser um viveiro de talento, mas também de princípios. Filipe Santos, treinador dos Sub-14 do Sporting, detalha ao Flashscore a metodologia que sustenta a formação leonina, baseada na adaptação progressiva, na individualização e numa ideia simples: sem dificuldade, não há crescimento.

Acompanhe o Sporting no Flashscore

A formação de um jovem em Alcochete: "Se for tudo demasiado fácil, não há desenvolvimento"

- Chega ao Sporting vindo do Sacavenense para treinar equipas de infantis em futebol de sete, passou pelo futebol de nove e atualmente está com os Sub-14. Em termos de formação no Sporting, estas duas transições - do sete para o nove e do nove para o onze - fazem sentido para uma melhor adaptabilidade do jogador em relação ao futuro?

Sim, fazem todo o sentido. Aliás, se formos à génese, eles começam ainda mais atrás, no futebol de três contra três, nos petizes, e isso tem uma vertente vertical de adaptação à complexidade do jogo em função do escalão etário. Três para três, cinco para cinco, há países onde jogam seis para seis, oito para oito. Em Portugal temos o sete para sete e o nove para nove. Algumas associações têm campeonatos de futebol de nove no escalão de Sub-13, infantis, e isso ajuda muito na ocupação do espaço, na relação com o número de jogadores e numa adaptação mais gradual e natural até chegar ao produto final, que é o onze contra onze. 

- Estamos a falar de Sub-14, uma idade em que as chamadas qualidades diferenciadoras ainda podem estar “escondidas”. Alguns destacam-se cedo, outros aparecem mais tarde. Que metodologia é utilizada no Sporting para aprimorar aquilo que já existe, sem acelerar processos?

Estamos numa janela de oportunidade muito boa para desenvolver a vertente técnica. É apenas o segundo ano de competição oficial em futebol de onze e eles começam agora a preocupar-se mais com questões organizacionais, tanto coletivas como intersetoriais e setoriais. Há uma iniciação mais forte aos comportamentos posicionais, ainda sem grande especialização, porque estamos numa fase de pré-especialização, que corresponde aos Sub-14 e Sub-15. Do ponto de vista científico, continuam numa fase ótima para desenvolver a técnica, sempre associada à tomada de decisão, ao espaço, ao tempo, ao adversário. Tudo isto ainda está numa fase embrionária, incluindo a vertente física - velocidade, força, potência - mas é decisivo para o futuro.

Filipe Santos trabalha na Academia de Alcochete
Filipe Santos trabalha na Academia de AlcocheteOpta by Stats Perform, Sporting CP

- E acelerar pode ser contraproducente.

Exatamente. Daí a individualização do treino, que é um princípio da nossa metodologia. Olhamos para cada jogador e para aquilo de que precisa, no tempo certo. Contextualizamos isso no treino, em grupos, em exercícios e, por vezes, colocando-os a treinar num escalão acima. Ao fim de semana, competem tanto no Campeonato Nacional como na Distrital de Lisboa, muitas vezes contra jogadores mais velhos, o que traz dificuldades adicionais, inclusive biológicas.

- Quanto maior a dificuldade, maior o crescimento?

Sim, mas sempre num equilíbrio entre sucesso e insucesso. Se for tudo demasiado fácil, não há desenvolvimento. Costumo brincar com eles usando o exemplo da PlayStation: se jogam sempre no modo amador e ganham 6-0, está demasiado fácil, é preciso subir o nível. O erro faz parte do processo. Eles têm de errar, perceber porque erraram e corrigir. É nessa lógica pedagógica que desenvolvemos o treino.

- Como funciona a articulação para que um jogador atue um ou dois anos acima da sua idade?

Falamos de anos, não de escalões. Cada escalão abrange dois anos. Tudo depende do estágio de desenvolvimento do jogador. O nosso modelo é centrado no atleta, não na equipa. Avaliamos se o contexto já está demasiado fácil e, se estiver, criamos uma nova dificuldade. Nos Sub-14, a vertente biológica é muito importante: diferenças de maturação podem ser grandes e têm de ser respeitadas. Não pode ser nem demasiado fácil nem demasiado difícil; tem de haver sucesso para haver progressão.

- É também neste escalão que muitos atletas passam a residir na Academia.

Sim. Alguns começam ainda em Sub-13, outros entram em Sub-14. Cada caso é diferente. Há toda uma estrutura de apoio - pedagogia, psicologia, treinadores, coordenação, comunicação - para ajudar nessa transição. Eles passam a viver aqui 24 horas por dia e criam uma nova família. No meu caso, estou há sete anos no clube e já conhecia muitos destes atletas do Pólo de Lisboa, o que facilita a adaptação.

- Isso gera confiança no jogador.

Sem dúvida. Os mais velhos ajudam a integrar os mais novos. Passam a ser irmãos. Há regras, há convivência, há apoio mútuo. Hoje, com a tecnologia, também mantêm proximidade com a família através de videochamadas, o que ajuda muito. Estão longe fisicamente, mas mais perto através de uma ligação.

- A exigência escolar continua a ser inegociável?

Há dois pontos importantes. A premissa passa por ser bom ser humano. São pré-adolescentes. Antes de futebolistas, são estudantes. O bom aproveitamento escolar, o comportamento, o saber estar e o saber ser e respeitar são fundamentais. Nem todos vão ser jogadores profissionais e têm de estar preparados para a sociedade.

Filipe Santos conversou com o Flashscore na Academia de Alcochete
Filipe Santos conversou com o Flashscore na Academia de AlcocheteSporting CP

"A família tem de confiar no nosso trabalho"

- O nome Cristiano Ronaldo na Academia tem impacto nos miúdos?

Claramente. Passamos os valores da história do clube: Luís Figo, Cristiano Ronaldo, os campeões da Europa. O Cristiano é o maior exemplo de profissionalismo, trabalho e longevidade. É uma inspiração diária. Trabalho, humildade e profissionalismo. Temos vários departamentos a auxiliar a evolução: performance, nutrição, psicologia, pedagogia… Todos estamos envolvidos para um miúdo se desenvolver nas vertentes todas.

- O Departamento de Desenvolvimento Individual também intervém nestas idades?

Sim, e não acho precoce. É um acrescento ao processo, uma recuperação do que antes existia de forma natural no futebol de rua. Nesta fase de crescimento rápido, ajuda muito na coordenação, na relação com o corpo e com a bola.

- E a gestão das expectativas dos pais?

Aqui os pais não assistem aos treinos, o que protege o atleta. A família tem de confiar no nosso trabalho. Há reuniões regulares com a coordenação. Nós focamo-nos no desenvolvimento do jogador. Representar o Sporting já é uma pressão suficiente. A nossa exigência é evoluir, aprender e melhorar. Quem decide somos nós e nós queremos o melhor para cada um deles. Somos exigentes e metemos a pressão - não a de ganhar e ser campeão - mas de desenvolver. A aprendizagem é o nosso foco.

Os números de João Simões
Os números de João SimõesFlashscore

- Há um exemplo muito bom recente, de um jovem que passou por várias etapas e atingiu o patamar sénior. Falo do João Simões.

O foco que o João tem é extraordinário. Não é fácil uma criança ter esse foco e discernimento. Depois a passagem de testemunhos do João para os mais novos é importantíssimo. Passagem de testemunho, o visitar e o estar sem qualquer problema é ótimo. De perceber que está ali mais um irmão. Precisamos da família para crescer bem. 

- É difícil dizer a um miúdo que não vai continuar no Sporting?

É sempre duro. Essa comunicação é feita pela coordenação com a família. Temos todos os cuidados. Não somos nós sozinhos que decidimos isso, mas é duro ter esse tipo de conversa, sobretudo com os mais novos. Explicamos que o caminho não termina ali e damos exemplos de jogadores que saíram, cresceram noutros contextos e até regressaram. Ninguém tem uma bola de cristal, mas tentamos olhar sempre para o melhor caminho. O nosso objetivo é o bem-estar e a felicidade deles.

Filipe Santos cumpre 7.ª época no Sporting
Filipe Santos cumpre 7.ª época no SportingSporting CP

"Sporting investe no nosso desenvolvimento enquanto treinadores"

- Depois de sete anos no clube, sente-se realizado?

Muito. O Sporting investe no nosso desenvolvimento enquanto treinadores. Sinto-me mais valorizado e preparado para novos desafios. Sinto-me mais preparado todos os anos. Têm sido sete anos maravilhosos. Vivemos o clube intensamente.

- É um clube diferente?

É um clube diferente porque gostamos de estar aqui, gostamos das pessoas e sentimos que crescemos como profissionais e como pessoas. Estamos com quem gostamos, no clube que gostamos. Por esta simbiose, mas também com os meus colegas de outros escalões e outros atletas, isto é gostar de estar no clube. Ver como determinado jogador era e estar hoje. E vê-los passar para a ala profissional é o auge daquilo que é a nossa satisfação.

Reportagem Flashscore: Uma viagem pela Academia Cristiano Ronaldo, viveiro de talentos do leão