Exclusivo com Filipe Çelikkaya: "MLS está no top 20 das principais ligas mundiais"

Filipe Çelikkaya, treinador adjunto do Chicago Fire
Filipe Çelikkaya, treinador adjunto do Chicago FireChicago Fire

Filipe Çelikkaya é o único treinador português a trabalhar na MLS, nos Estados Unidos, que arranca este sábado para uma temporada histórica, em ano de Mundial no país. Aos 41 anos, o técnico português vai para a segunda época como adjunto no Chicago Fire, naquela que é a sua terceira aventura no estrangeiro, depois de ter sido adjunto de Bruno Lage no Al Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, e de Luís Castro, no Shakhtar Donetsk. Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Filipe Çelikkaya assume também que já teve convites para regressar à Europa, depois de ter deixado a sua marca como treinador do Sporting B, no projeto encabeçado por Ruben Amorim.

"Lutar pela MLS Cup é o grande objetivo"

- Quais os indicadores que mais o satisfizeram na pré-época do Chicago Fire e que sinais lhe dão confiança para o arranque da MLS?

- Os indicadores são variados, desde a parte técnico-tática, à psicológica e à física. Os dados dizem-nos que estamos preparados para o início do campeonato, que vai ser longo e dividido em duas partes. A continuidade do trabalho desenvolvido no ano passado e a construção desta equipa dá-nos confiança para o arranque na Major League Soccer. Iniciamos o campeonato com enorme confiança, sabendo desde logo que vai ser longo e que temos de estar preparados para os momentos bons e menos bons.

- O que mudou estruturalmente na equipa desde a última época — em termos de identidade, intensidade e mentalidade competitiva?

- O que pretendemos é continuar a melhorar tudo aquilo que foi feito na época anterior. Ou seja, se atingimos os playoffs com determinada forma de jogar, com uma intensidade boa, com uma mentalidade competitiva ótima, queremos melhorar isso, a nossa classificação e se for possível conquistar títulos. Tudo isto são comportamentos que têm de ser incutidos no dia-a-dia da equipa, desde que os jogadores chegam ao centro de treinos até ao momento em que saem. Existe uma identidade muito própria do clube e uma mentalidade competitiva vincada, porque o nosso grande objetivo é vencer jogos. Quanto mais jogos ganharmos, mais perto estamos dos nossos objetivos de uma forma geral.

- A pré-época serviu mais para consolidar princípios ou para acelerar novos comportamentos táticos? Onde sentiu maior evolução?

- A pré-época serve essencialmente para continuar a construir, consolidar princípios e para os jogadores novos adquirirem também esse tipo de comportamentos. Sabemos que o futebol está em constante desenvolvimento, existem novas dinâmicas a serem incutidas dentro da forma de jogar e continuamos dessa forma a construir a equipa. Naturalmente, os jogadores que chegam têm de recolher um pouco mais de informação, mas mesmo essa instrução deve ser feita de uma forma faseada, para que a evolução dentro da equipa seja equilibrada.

- Como perspectiva a época do Chicago Fire? Quais são os grandes objetivos?

- Perspectivamos uma época muito difícil, um pouco diferente da passada, já que este ano vamos ter um momento pré e pós-Mundial. No entanto, vamos trabalhar para chegar ao playoff para lutarmos pela conquista da MLS Cup. Esse é o grande objetivo. Temos ainda mais duas competições nas quais vamos participar e ambicionamos vencer, que são os casos da Open Cup e da Leagues Cup, com as equipas mexicanas. Queremos chegar o mais longe possível e vencer. Estes são os grandes objetivos, além de querermos continuar a desenvolver o clube e os jogadores.

- Mais do que resultados imediatos, que tipo de cultura quer consolidar dentro do balneário?

- Os resultados imediatos são a parte mais importante de uma equipa de futebol, ou de outra modalidade qualquer. Portanto, queremos vencer todos os jogos e isso leva-nos depois a níveis de confiança e de consolidação de processos ainda maiores. Mas, sabemos que o tipo de cultura que pretendemos é o foco no processo, nos comportamentos que cada jogador deve adquirir enquanto está connosco e de que forma é que se expressa no jogo. Queremos chegar à vitória através desse processo que trabalhamos diariamente, criar uma imagem forte da equipa dentro da MLS.

Os próximos jogos do Chicago Fire
Os próximos jogos do Chicago FireFlashscore

"O recrutamento é decisivo para a afirmação na MLS"

- A MLS tem vindo a crescer em termos competitivos e mediáticos. Como analisa hoje o nível da liga e os principais desafios para uma equipa que quer afirmar-se?

- Em termos de mediáticos e competitivos, a MLS está num patamar bastante bom. Existe um teto salarial que promove essa competitividade dentro da Liga nas duas conferências. Os principais desafios que encontro passam por criar sustentabilidade, uma base sólida dentro das equipas e, dessa forma, trabalhá-las a longo prazo. Isso é um desafio que me agrada. O recrutamento, cada vez mais, é decisivo para a afirmação de uma equipa na MLS. E quando digo recrutamento, é o interno e o externo. Isso também é um bom desafio para se ter na Liga que, neste momento, é muito boa para quem se encontra nela.

- Num campeonato com viagens longas e grande diversidade de estilos, que fatores considera determinantes para garantir consistência ao longo da época?

- É de facto um campeonato com grandes viagens, com grande diversidade de estilos e é necessário ter consistência ao longo da época, até porque viajamos para diferentes climas dentro do próprio país e isso promove diferentes tipos de velocidades durante o próprio jogo. Portanto, para garantir consistência é necessário ter uma parte estratégica e de recuperação muito fortes para que possamos ter sempre qualidade no nosso jogo. É também importante ter, tendo em conta a extensão e o número de jogos que efetuamos dentro desta mesma competição, um plantel equilibrado e vasto que nos permita dar condições para jogar em todas as competições. 

- Que tendências táticas identifica atualmente na MLS e onde pretende posicionar o Chicago Fire nesse contexto?

- Devido a termos muitas equipas na MLS, existem diferentes formas de jogar. Todos os treinadores, neste momento, aprendem uns com os outros o que faz com que as tendências sejam atuais. Veremos se o Mundial de 2026 nos pode trazer algumas ideias diferentes. Relativamente ao Chicago Fire, posso dizer que tentamos ser uma equipa que pretende construir o seu jogo desde trás, avançando a bola até à baliza adversária através do que o adversário nos permitir. Pretendemos ser uma equipa inteligente, que vai buscar espaço atrás da linha defensiva se o mesmo existir. Caso não exista, necessita de ter capacidade para quebrar um bloco adversário mais baixo. Queremos ser uma equipa bem organizada defensivamente e ter excelentes transições ofensivas e defensivas. Isto é o que queremos ser e fomos em muitos momentos na época anterior. Vejo outras equipas da MLS com diferentes características, umas mais de jogo direto, outras mais de jogo de apoiado, outras mais de contra-ataque e por aí fora, e em todas elas conseguimos encontrar algo que nos pode surpreender a qualquer momento.  A MLS apresenta bons indicadores para continuar a ganhar consistência no futuro.

- Nota uma evolução clara na formação e no talento jovem norte-americano? A MLS está hoje mais exportadora ou mais atrativa para talento internacional?

- É algo de que falamos muito internamente. É necessário melhorar e continuar a evoluir na formação dos jovens jogadores, com melhores metodologias, com melhores práticas, com melhor instrução e por aí fora. Sabemos que é um processo a longo prazo, especialmente nos jovens, e isso deve ser feito de uma forma consistente ao longo do tempo. Acaba por ser um dos aspectos em que o futebol norte-americano necessita de continuar a evoluir para ter melhores jogadores no futuro. Até porque muitos dos jogadores que integram atualmente a equipa A da seleção estão a jogar nas ligas europeias. Como tal, apesar de serem exportadores neste momento, há milhões de praticantes que podem evoluir significativamente se tiverem bons treinadores, boas práticas, boas metodologias, bons preparadores físicos e bom staff de apoio. A MLS hoje está decididamente exportadora e importadora. Exportadora porque consegue exportar jogadores através de vendas com valor significativo, mas também consegue importar e recrutar em todos os cantos do mundo. Vejo isto de uma forma global e não de uma forma micro. 

Filipe Çelikkaya vai para a segunda época no Chicago Fire
Filipe Çelikkaya vai para a segunda época no Chicago FireFlashscore

"MLS está no top 20 das principais ligas mundiais"

- Com o crescimento mediático da liga e o investimento crescente, acredita que a MLS caminha para se afirmar como uma das principais ligas mundiais na próxima década? O que falta ainda para dar esse salto definitivo?

- Acredito que neste momento a MLS está no top 20 das principais ligas mundiais. Não tenho dúvidas disso. Não sei dizer a exata classificação que ocupa, acho que para o fazer é necessário realizar um estudo muito profundo, em várias variáveis, ao nível das condições, infraestruturas, jogadores e as suas bases salariais, o tipo de treinador que aqui está, a forma como essas equipas jogam, que tipo de investimento é que se faz na formação, os resultados que se têm também nas equipas principais e as receitas que se geram. Tem de ser um estudo macro e muito global para se perceber onde é que se está e o que é que falta para chegar a um top 10, um top 8, um top 7. Nesse sentido, acredito que não é só o jogo em si, que obviamente vai melhorar com o tempo, acredito também que tudo aquilo que envolve o jogo também pode contribuir bastante para aquilo que é o espetáculo a fim de semana.

"É um momento histórico para o futebol nos Estados Unidos"

- O Mundial nos Estados Unidos aproxima-se. Que impacto antevê para o crescimento da MLS e do futebol no país?

- Acredito que a MLS vai sofrer um impacto muito positivo ao longo do tempo, desde já pela mudança do calendário que está vigente neste momento para o calendário europeu. Isso vai trazer consequências muito positivas, não só na transferência de jogadores e treinadores, mas de todos os agentes do futebol. E vai haver, obviamente, interesse para que as equipas dos Estados Unidos, com a economia que têm, possam competir com clubes do futebol europeu. É isso que antevejo neste momento. É bom estar na MLS em ano de Mundial, até porque sofrer essa transformação vai ser bastante positivo, não só para qualquer jogador, mas também para um treinador que tem que se adaptar rapidamente a todas estas transformações e vai ter que continuar a crescer para continuar a ter rendimento.

- Enquanto treinador europeu a trabalhar nos EUA, sente que está num momento histórico de transição e afirmação do futebol norte-americano?

- Sim, é um momento histórico e uma decisão histórica para o futebol nos Estados Unidos e espero que se consiga afirmar como uma das grandes potências em termos competitivos num futuro próximo, pois a nível da organização e espetáculo desportivo são, de facto, excelentes.

Filipe Çelikkaya é adjunto de Gregg Berhalter
Filipe Çelikkaya é adjunto de Gregg BerhalterFlashscore

"Tive convites para regressar à Europa"

- Em termos pessoais e profissionais, que balanço faz da sua primeira época no Chicago Fire?

- A primeira época foi muito, muito positiva naquilo que era a realidade do Chicago Fire. Houve um investimento forte em todos os recursos, não só de recursos do dia-a-dia das pessoas que estão responsáveis por cada departamento, mas também ao nível dos jogadores, ao nível do centro de treinos, no futuro estádio de futebol, deixando nós de praticar, de jogar, de competir no Soldier Field, que é o nosso estádio atual. Esta primeira época foi de afirmação e de estabelecer o futuro do Chicago, como uma das grandes equipas da MLS. É também uma marca para a MLS, porque, de facto, as pessoas olham para nós como um projeto sólido, com resultados imediatos, com uma transformação significativa na forma de jogar, com venda e compra de jogadores. Há um investimento muito forte e penso que nos próximos anos o Chicago Fire será uma das grandes equipas da Liga. Não tenho dúvidas e quero que este clube, no futuro, seja campeão muitas vezes.

- Teve convites para regressar à Europa? Se sim, o que o levou a não aceitar e a permanecer no Chicago Fire?

- Sim, tive convites para regressar à Europa, convites esses que recusei porque o contrato não me permitia sair no meu primeiro ano de ligação ao clube. Tive um convite que muito me lisonjeou, para uma equipa de primeira liga a nível europeu, mas que não pude aceitar. De qualquer forma, sabemos que no futebol tudo muda de um momento para o outro. O mais importante para um treinador é continuar a desenvolver o seu trabalho, a evoluir e, claro, ter um registo vencedor na competição onde se insere. Acredito que estar em contacto com diferentes culturas deixa-te mais preparado o futuro. Neste momento estou concentrado no Chicago Fire e o futuro logo se vê. Mas sabemos que a Europa tem clubes muito apetecíveis e não fecho as portas a nenhum projeto que me possa vir a interessar.

Filipe Çelikkaya com Ruben Amorim no Sporting
Filipe Çelikkaya com Ruben Amorim no SportingArquivo Pessoal