Nesta entrevista exclusiva, o treinador principal do Zalaegerszegi fala sobre a ascensão da equipa no panorama do futebol húngaro, o seu próprio percurso profissional e o que aprendeu ao trabalhar ao lado do treinador do Lyon, Paulo Fonseca.
- Conta já com 18 anos de carreira como treinador, com experiência em Portugal, Itália e México. O que levou um treinador com este currículo a mudar-se para a Hungria?
- Tenho muita experiência de várias formas, em diferentes países, diferentes competições, mas o projeto aqui era simples e muito honesto para mim: desenvolver jogadores. Evitar a descida, mas acima de tudo, desenvolver jogadores, fazer crescer a equipa e mostrar as qualidades individuais dos jogadores para depois os vender. Senti que, no fundo, fiz isto toda a minha vida, e adoro poder ajudar os jogadores a terem uma vida melhor no futuro, a evoluírem nas suas carreiras. Por isso, vamos a isso. Vamos avançar. Depois, gostei muito das pessoas que falaram comigo. O Andreas e o Damien (os proprietários) falaram comigo... e o que disseram foi muito sincero. Por isso, foi bom para mim entrar neste projeto.

- Diria que o futebol é, essencialmente, igual em todo o lado? Como em Portugal, na Argentina ou na Hungria? Ou já notou algumas particularidades da liga húngara?
- Claro que o princípio do jogo é igual em todo o lado, mas cada liga tem as suas próprias especificidades. Aqui, o jogo é um pouco mais físico do que em Portugal, por exemplo. Mas é muito competitivo, é muito difícil ganhar jogos. Qualquer equipa pode vencer as outras, e se olharmos para o campeonato e para a classificação, isso fica evidente. Não é fácil jogar uns contra os outros. Portanto, o campeonato é muito competitivo, muito físico, e temos de gerir bem todos os detalhes do jogo. Caso contrário, não temos hipótese de competir com eles.
- Durante grande parte da sua carreira, trabalhou com o Paulo Fonseca, incluindo na Roma. O que aprendeu com ele e o que aplica no seu próprio trabalho?
- Crescemos juntos, porque desde o início trabalhámos lado a lado, desde os sub-19 em Portugal. Foram muitos anos a trabalhar juntos, a falar sobre todos os detalhes, a criar exercícios em conjunto e tudo o resto. Claro que ele é o meu melhor amigo nesta forma de ver o futebol. Aqui, utilizo muitas das coisas que usei no passado. A forma como falo com os jogadores em certos momentos ou a maneira como gerimos o jogo taticamente, uso os mesmos princípios que trabalhámos juntos.

- Como foi recebido pelos adeptos na Hungria? Porque deve ser uma situação estranha para eles, com novos proprietários, novo treinador e muitos jogadores novos.
- Foi muito fácil porque os adeptos são apaixonados, mas sabem das dificuldades que tivemos desde o início para criar este grupo, esta equipa... Eles sabem bem a dificuldade que é manter-se na primeira liga desde o início, e estão sempre connosco. São adeptos muito apaixonados, e isso significa que estão sempre com a equipa, e são muito importantes em todos os jogos. Mesmo nos jogos fora, estão lá connosco. É muito importante e ajudam-nos a ganhar jogos.
- Tem o plantel mais jovem da liga. Em que aspetos é que trabalhar com uma equipa tão jovem é único ou diferente?
- Em dezembro, éramos o terceiro plantel mais jovem da Europa. É muito exigente de um ponto de vista, porque a experiência destes jogadores não é muita... A parte psicológica é muito importante durante os jogos, porque quando somos jovens, não somos tão consistentes. Essa parte faz a diferença por vezes, e temos trabalhado muito nisso. Também a parte tática... Muitas vezes não controlamos o aspeto tático do jogo, por isso estamos também a crescer nesse sentido. E claro, a consistência da equipa, por vezes, não é fácil de alcançar. Mas nos últimos nove jogos, só perdemos um. Nos últimos seis, não perdemos nenhum. Parece que as coisas estão a correr pelo caminho certo. O que sinto é que, se conseguirmos... manter-nos neste campeonato, na primeira liga da Hungria – porque a equipa é muito jovem e há muito a melhorar – será uma grande vitória conseguir isso.

- E no futuro, talvez daqui a cinco ou dez anos, acha realista o clube tornar-se uma referência do futebol húngaro?
- A consistência do clube quando tentamos construir um projeto é muito importante para o futuro. Acho que o projeto e a ideia do Damian, o presidente, e do Andras, o diretor desportivo, são muito claras e consistentes. Com isso, com tempo... penso que é algo possível. Nunca se sabe, porque há muitas equipas aqui com orçamentos superiores, e com mais orçamento é mais fácil, claro. Mas a forma como eles (os proprietários e o diretor) pensam e conhecem o mercado, com tempo, acho que podem desenvolver jogadores. E com mais jogadores a chegar e uma base dentro do clube, penso que podemos tentar lutar por outras posições, sim.
- Acha que a liga húngara pode realisticamente evoluir e atingir o nível da liga checa, por exemplo, no futuro?
- Acho que, por vezes, para atingir outros patamares, é preciso preparar os jovens. Os jovens serão a base da seleção nacional e das maiores equipas do país. E com isso, daqui a 10 anos, imagino que as coisas possam atingir outro nível. O que sinto aqui é que têm muito boas condições, excelentes infraestruturas para trabalhar com os jovens e com a equipa principal. A questão, por vezes, é a forma como devem evoluir no desenvolvimento, no talento. Precisam de ver como os melhores clubes do mundo fazem, noutros países, como trabalham. E, com um projeto como este, podem alcançar não só o nível da República Checa. Nunca se sabe quando ou onde vamos parar. Portugal é um país pequeno, e há 20 anos não era como agora. E agora conseguiram... talvez o nível mais alto do mundo, juntamente com outros países."
- Porque Cristiano Ronaldo nasceu, certo?
- Não só o Ronaldo. Claro que o Ronaldo e o (José) Mourinho são os maiores símbolos neste momento do futebol português, mas todos os processos que Portugal iniciou há cerca de 20 anos com muitos treinadores – e eu era jogador nessa altura, há 25 anos – mudaram tudo agora. Isso começou talvez há 25 anos, por isso a forma como olhamos para as coisas e o tempo que temos para as concretizar pode mudar o futuro. Talvez tenham de olhar 10 anos em frente para tentar alcançar algo importante.
