
Às vésperas de o Brasil se tornar pentacampeão mundial na Ásia, em 2002, o Campeonato Paulista completava 100 anos. A mais antiga competição de futebol organizada no Brasil nunca mais seria a mesma, gerando um saudosismo que persiste até hoje. Com a chegada do formato de pontos corridos a nível nacional, os campeonatos regionais ficaram mais curtos e deixaram de ter seis meses de duração, como antes. Chegámos ao momento atual com debates que incluem, inclusive, a extinção dessas competições.
No caso do Paulista, a mudança para 2026 não agradou a todos, mas colocou um novo cenário “à frente da baliza”. Todos os clássicos regressaram à fase de classificação, algo que não acontecia desde 2013.
Ao contrário do passado, também, o “tiro” ficou mais curto, complicando definitivamente a vida dos grandes. Com exceção do Palmeiras, que tem plantel e estrutura para ambições bem maiores, os outros três grandes clubes do Estado encaram o regional como uma possibilidade talvez única, em 2026, de libertar o grito de campeão preso na garganta dos seus adeptos.
Símbolo de fim de seca
Tratado com um peso semelhante ao do Brasileirão pelas gerações até aos anos 1980, o Paulista é visto com carinho pelas maiores torcidas paulistas, entre outros motivos porque o troféu encerrou os maiores jejuns da história de cada um dos quatro grandes clubes do Estado.
A maior delas, a do Corinthians, terminou em 1977, no Morumbi. Basílio marcou o golo da vitória sobre a Ponte Preta no terceiro jogo da decisão e o resto tornou-se história. A segunda partida dessa série, também vencida pelo Timão, lidera até hoje a lista de maiores assistências no estádio são-paulino: 146.082 pessoas. A apaixonada Fiel passou 23 anos sem festejar títulos.
A caminhada de 16 anos, 8 meses e 24 dias do Palmeiras sem conquistas — também a maior da sua história — terminou com o Paulista de 1993 frente ao rival Corinthians. O momento decisivo: Evair, com a frieza que o caracterizava, converteu o penálti enganando o guarda-redes Ronaldo, aos 10 minutos do segundo tempo do prolongamento. O 4-0 final pôs fim ao jejum às portas da vitoriosa Era Parmalat. O Verdão vencera por 3-0 no tempo regulamentar, resultado que lhe permitia empatar o prolongamento para ficar com o título — uma das particularidades dos regulamentos de então.
O Paulistão também decretou o fim do jejum do Santos FC em 1955, ainda antes de Pelé. Foi uma temporada sem final típica, mas um golo de Pepe contra o Taubaté, na vitória por 2-1, selou a conquista.
A fila de 13 anos do São Paulo, a maior da sua história, terminou em 1970, também no Campeonato Paulista. Toninho Guerreiro entrou para o grupo de heróis ao marcar o segundo golo na vitória por 2-1 sobre o Guarani. O regulamento era de pontos corridos. Mais recentemente, depois de uma década quase perdida, o título paulista sobre o Palmeiras, na primeira passagem de Hernán Crespo pelo Morumbi, voltou a ecoar pela cidade em 2021. Em plena pandemia, o estádio estava vazio.
Vale muito
“Sabes qual é o recorde de assistência no Morumbi este ano? 54 mil. Em que competição? No Paulista. Portanto, tem de se respeitar. Cinquenta mil pessoas pagaram bilhete. A massa adepta indica o caminho. Como posso pensar em poupar jogadores? É preciso respeitar".
A frase de Hernán Crespo, já em 2026, depois da qualificação do São Paulo para os quartos de final, ilustra a forma como pretende encarar a fase a eliminar. O São Paulo rodou pouco os principais jogadores até agora, mas as chegadas de Lucas Ramon e, sobretudo, de Cauly podem ajudar a alterar o cenário — evitando a sobrecarga de Marcos António. Há ainda reforços que já estavam no plantel e quase não atuaram em alto nível em 2025, como Calleri e Lucas Moura. Nos quartos de final, o Tricolor terá o único duelo de Série A entre os quatro confrontos, contra o Red Bull Bragantino — reedição da final de um Brasileirão, o de 1991.

Dorival Júnior e Abel Ferreira também dão sinais de que não vão negligenciar o Paulistão, ainda mais com clássicos entre eles a poder acontecer nas meias-finais ou na final, caso o Corinthians confirme o favoritismo sobre a Portuguesa e o Palmeiras faça o mesmo diante do Capivariano.

Enquanto o treinador do Corinthians precisou de gerir mais o plantel devido à Supercopa e aos primeiros jogos do Brasileirão, o conjunto alviverde tem demonstrado capacidade para ir longe em 2026. Isso deu mais opções a Abel, apesar de a derrota por 4-0 frente ao Grêmio Novorizontino ter causado algum ruído. Os principais jogadores do Corinthians somaram mais minutos do que os do Palmeiras.

No caso do Santos, uma conquista — ainda que estadual — logo no início do ano, para dar impulso ao projeto de Neymar, está no radar, como admitiu Juan Pablo Vojvoda após garantir a vaga nos quartos de final.
“Este Paulistão foi diferente, cheio de clássicos e bastante equilibrado. Quatro pontos separaram o primeiro do oitavo. Agora vai começar outro campeonato. Vai ser disputado, mas será só um jogo. E o Santos tem equipa para conquistar o título". Esse jogo único, porém, será contra o Novorizontino, equipa que terminou a fase de apuramento do Paulistão na primeira posição. A expectativa é que Neymar possa aparecer na lista dos que mais jogam, assim como já aparece Gabigol.

