"Matheus Nunes é um dos melhores jogadores do mundo". A declaração de Pep Guardiola, em 2022, depois de o Manchester City golear (5-0) o Sporting em Alvalade não foi inocente. O técnico catalão já estava de olho no internacional português e não tardou a tê-lo do seu lado.
No entanto, apesar dos elogios precoces, Matheus Nunes esteve longe de convencer Guardiola no primeiro contacto com o peculiar técnico dos Cityzens.
Contratado depois de uma época em destaque no meio-campo do Wolverhampton, o ex-Sporting nunca demonstrou consistência posicional e leitura suficientes para se afirmar como médio no modelo altamente controlado de Guardiola. No entanto, havia outro espaço destinado a Matheus Nunes.

A difícil adaptação a lateral
Após passar metade da época 2023/24 como figura secundária na equipa de Pep Guardiola, Matheus Nunes foi preparado pelo técnico catalão para assumir a lateral direito, constante fonte de problemas e dúvidas no onze do Manchester City.
Apesar de algumas exibições erráticas e até erros comprometedores em jogos importantes (recorde-se o dérbi de Manchester da temporada passada), Guardiola continuou a ver em Matheus Nunes um lateral capaz de fazer a diferença na equipa de Manchester.
"Ele pode ser um lateral-direito incrível porque é um médio defensivo com uma capacidade física extraordinária (...) Agora, a questão está com ele. Falamos muito sobre isso. É apenas uma questão de mudar a mentalidade e sentir que é capaz, pois tem os atributos especiais para jogar nas alas", disse já esta temporada.

E a verdade é que, como tem acontecido ao longo dos anos, Guardiola tinha razão.
Matheus Nunes já não é o box-to-box que os adeptos do Sporting viram brilhar em Alvalade, no primeiro campeonato conquistado por Ruben Amorim, mas sim o lateral perfeito para uma equipa que queira dominar o jogo com bola e construir a partir dos seus defesas.
Números impressionam
Depois da época de adaptação ao corredor direito, Matheus Nunes agarrou o lugar e tornou-se num dos jogadores mais importantes nos sky blues.
Em 2025/26, já ultrapassou o número de partidas a titular na Premier League desde que chegou ao Etihad e os dados jogam a favor da mudança de posição operada pelo antigo treinador de Barcelona e Bayern Munique.
Segundo os dados da Opta, Matheus Nunes é o jogador do Manchester City com mais toques na bola na Premier League (1.931), o que desde logo mostra o papel que o internacional português assume na equipa de Guardiola. Um lateral com ADN de médio e capacidade na condução e construção a partir de trás.

Além desses números, o ex-Sporting também é o jogador do Manchester City com mais recuperações de bola (120) e o segundo com mais passes bem sucedidos (1.287), destacando-se ainda na quantidade de duelos ganhos - terceiro melhor, com 107, atrás de Doku (115) e O'Reilly (121).
No entanto, o dado que atesta a sua nova dimensão é mesmo o número de passes bem sucedidos a terminar no último terço - 377, melhor registo do Manchester City, à frente de Bernardo Silva.
Apesar de atuar pelo corredor direito, o internacional português liga a primeira fase de construção dos Cityzens à zona de criação, fazendo uso dos seus pontos fortes como médio no processo ofensivo da equipa. Ainda assim, a influência crescente não elimina as fragilidades que continuam a marcar o seu jogo.

Esse protagonismo tem, naturalmente, um preço. Matheus Nunes é também o jogador do Manchester City com mais passes falhados (162) e perdas de posse (264) na Premier League.
Os números espelham o perfil de um lateral que joga muitas vezes por dentro, recebe sob pressão e assume a responsabilidade de acelerar o jogo com conduções e passes verticais. Os 17 dribles completados - quinto melhor registo da equipa - ajudam a perceber o perfil do médio adaptado a lateral.
Afirmação a tempo do Mundial-2026?
Para completar a transição de médio de condução para lateral de construção, falta a Matheus Nunes conquistar o espaço que nunca teve na seleção portuguesa.
Apesar das 17 internacionalizações, foi titular apenas em dois jogos oficiais e ainda não o foi sob o comando de Roberto Martínez. Desde o Euro-2024, o selecionador utilizou-o apenas na última partida de qualificação para o Mundial-2026.

O contexto, porém, mudou. Depois de ter recorrido a João Neves como lateral direito na Liga das Nações, o modelo de Portugal parece abrir espaço a um perfil híbrido, e é precisamente aí que encaixa a nova versão de Matheus Nunes. A concorrência é forte - João Cancelo, Diogo Dalot e Nélson Semedo têm sido as escolhas de Martínez - e o português soma apenas 17 minutos como lateral direito pela seleção.
Ainda assim, o que tem mostrado na Premier League, num contexto competitivo mais exigente, coloca-o não só na corrida por um lugar na convocatória como na discussão pela titularidade. Depois de admitir que só aceitou a mudança de posição “depois de escutar muitas pessoas e de conversar com a psicóloga”, a dúvida está dissipada: a adaptação correu melhor do que todos estariam à espera.

