Exclusivo com Kachunga: "Presença no Mundial-2026 seria um grande impulso para a RD Congo"

Elias Kachunga disputou duas épocas na Premier League pelo Huddersfield
Elias Kachunga disputou duas épocas na Premier League pelo HuddersfieldDaniel Hambury / PA Images / Profimedia

A história de carreira de Elias Kachunga é um exemplo marcante de perseverança e paixão, desde a estreia na Premier League com o Huddersfield, celebrando a primeira vitória e o primeiro golo, até à adaptação ao intenso e eletrizante futebol inglês, em contraste com a abordagem tática da Bundesliga alemã.

Numa entrevista exclusiva ao Flashscore, partilha a resiliência mental necessária para vingar ao mais alto nível, os maiores desafios ao subir do Championship, e o orgulho de representar a RD Congo no panorama internacional.

Kachunga fala ainda sobre treinadores influentes como David Wagner, os seus planos para continuar ligado ao futebol através do treino e dos media, e as suas apostas no investimento imobiliário – tudo isto enquanto valoriza o papel de pai e a vontade de aprender ao longo da vida.

- Olhando para o teu percurso na Premier League com o Huddersfield, recordas algum momento ou conquista que te tenha marcado de forma especial?

- Provavelmente o meu primeiro jogo na Premier League, e vencê-lo foi um momento marcante, tal como marcar o meu primeiro golo frente ao Watford.

- Quais as principais diferenças que notaste entre jogar na Alemanha e em Inglaterra, tanto dentro como fora do relvado?

- Em Inglaterra, o jogo é mais rápido e físico, e sente-se que todas as equipas têm jogadores especiais, o que torna a liga muito forte. Diria que a liga inglesa é provavelmente a melhor do mundo. Na Alemanha, o foco era mais tático, com as equipas a darem grande importância à estratégia dentro e fora de campo. Como a Premier League é tão grande e global, há muito mais atenção e foco mediático. Estas são, para mim, as maiores diferenças.

- Na tua opinião, que qualidades são essenciais para um avançado se destacar ao mais alto nível? Como lidas com as exigências físicas e mentais do futebol da Premier League e da Bundesliga? Que conselhos darias a jovens jogadores que ambicionam chegar a esse patamar?

-Para ser um avançado de topo, os golos são obviamente fundamentais – marcar é o principal objetivo. Na Premier League, a força mental é igualmente crucial para manter o rendimento todas as semanas. Aos jovens avançados, recomendo trabalhar a finalização com ambos os pés, manter-se forte e desenvolver a capacidade de segurar a bola e de se ligar aos colegas – são competências importantes para o futuro.

- Tendo jogado nas quatro principais ligas profissionais inglesas, consideras que a passagem do Championship para a Premier League é o maior salto? O que torna esse passo tão exigente?

- Sim, acredito que o maior salto é do Championship para a Premier League, devido à qualidade das equipas que se enfrentam todas as semanas. Para clubes mais pequenos como o Huddersfield, cada jogo é decisivo e conquistar pontos é sempre um desafio, o que torna essa transição muito significativa.

- Ao longo da tua carreira, viveste as emoções das subidas e descidas de divisão – como consegues manter a motivação e o foco em períodos difíceis, como lesões ou maus resultados da equipa?

- O destino teve um papel importante na minha vida e carreira, ajudando-me a ultrapassar momentos complicados. Tive a sorte de contar com o apoio da família e dos amigos, o que é fundamental. Também aconselho os jogadores a procurarem ajuda externa quando necessário, seja de um mentor ou treinador, especialmente nos momentos mais difíceis.

- No início da tua carreira, trabalhaste com treinadores de renome como David Wagner e Ralph Hasenhüttl – de que forma influenciaram o teu crescimento como jogador? Houve outros treinadores ou mentores que tenham sido determinantes no teu desenvolvimento?

- Cada treinador com quem trabalhei tinha o seu estilo próprio, por isso é difícil destacar apenas um. O David Wagner foi fundamental, sobretudo na subida à Premier League. O Claus-Dieter ‘Pele’ Wollitz, treinador alemão, confiou muito em mim quando estive emprestado na Alemanha. Aprendi com muitos treinadores ao longo da carreira.

- Partilhaste o relvado com muitos jogadores talentosos – quem destacas como o melhor colega de equipa com quem jogaste, e quem foi o adversário mais difícil de enfrentar?

- Joguei com muitos bons jogadores. No início da carreira, o Mohamadou Idrissou e o Igor De Camargo ajudaram-me bastante no Borussia Mönchengladbach. Quanto a adversários, o Virgil van Dijk e o Andy Robertson foram especialmente difíceis – defrontá-los foi um grande teste.

Elias Kachunga controla a bola sob pressão pelo Huddersfield frente ao Liverpool na Premier League em outubro de 2017
Elias Kachunga controla a bola sob pressão pelo Huddersfield frente ao Liverpool na Premier League em outubro de 2017PAUL ELLIS / AFP

- Como avalias a tua época até agora, assim como a do Cambridge? O clube está atualmente à porta dos play-offs na League Two – esse é o objetivo, ou ainda acreditam na subida direta?

- Temos feito uma boa época até ao momento, com uma série invicta sólida e estamos nos play-offs. Se continuarmos a jogar assim, temos reais hipóteses de garantir a promoção direta. Esse deve ser o nosso objetivo e temos de continuar a trabalhar para o alcançar.

- Tiveste a honra de representar a RD Congo em 2017 – o que significou essa experiência para ti, a nível pessoal e profissional?

- Foi um momento enorme na minha carreira, tanto para mim como para a minha família. Ir a Kinshasa com o meu pai e ver os adeptos no aeroporto foi inesquecível. Vestir a camisola e jogar pelo meu país foi uma experiência incrível que nunca vou esquecer.

- O que pensas da atual seleção da RD Congo? Quão especial seria para o país voltar a um Mundial pela primeira vez desde 1974?

- A RD Congo tem agora uma seleção muito forte e a organização melhorou bastante. Muitos jogadores talentosos estão a optar por representar o país, o que se reflete nas nossas exibições recentes. Estamos apenas a um jogo de garantir a presença no Mundial (onde seria adversária de Portugal no Grupo K), e isso seria uma conquista enorme, dando um grande impulso à nação.

- Pensando no futuro, já consideraste seguir carreira como treinador, dirigente ou nos media? Quais são os teus objetivos para a próxima etapa no futebol?

- Neste momento estou a tirar as certificações de treinador, já tenho a licença UEFA B e quero em breve obter a licença A. Também já fiz algum trabalho nos media e talvez siga por aí depois de terminar a carreira de jogador. Espero continuar ligado ao futebol de alguma forma e ver onde esta caminhada me leva.

- Fora do futebol, que hobbies e interesses tens? Ouvi dizer que jogaste ténis em criança – ainda acompanhas o desporto? Além disso, sei que tens interesse em investimento e desenvolvimento imobiliário – podes contar-nos mais sobre isso?

- Gosto de ver vários desportos como ténis, basquetebol e futebol americano. É bom, por vezes, afastar-me um pouco do futebol e acompanhar outras modalidades. No que toca ao imobiliário, comecei uma empresa há três ou quatro anos, comprando e arrendando casas. Gosto muito e quero expandir o meu portefólio. Depois de terminar a carreira de jogador, pretendo dedicar-me mais ao desenvolvimento imobiliário, explorar novos projetos e aprender com especialistas. A nível pessoal, orgulho-me de ser pai de um menino que está quase a fazer dois anos, e vê-lo crescer e aprender é uma experiência maravilhosa. Procuro aproveitar a vida, manter-me ligado ao futebol e continuar a aprender sobre diferentes pessoas e os seus percursos.