Na entrevista concedida à Rádio Renascença, Florentino Luís revelou ainda que a sua experiência na Premier League tem sido o fator determinante para o seu crescimento competitivo, permitindo-lhe adquirir a "constância" que considera ser a palavra-chave para chegar ao patamar da Seleção Nacional.
O médio sublinhou também que a intensidade do futebol inglês, caracterizada por um tempo útil de jogo superior e pela ausência de "abébias" ou paragens constantes por parte dos árbitros, o preparou mentalmente para enfrentar os melhores do mundo. Atualmente, o médio lidera as estatísticas em Inglaterra, sendo o número um do campeonato inglês em ações defensivas e o segundo jogador com mais desarmes em toda a competição.
Embora tenha nascido em Angola, o jogador é categórico em reafirmar a sua total lealdade a Portugal, país que o acolheu aos dois anos de idade e que lhe proporcionou as condições de formação necessárias para atingir o topo do futebol europeu. Florentino garante que, apesar do orgulho nas suas raízes e da vontade de ajudar o seu país de nascimento através de projetos sociais, a sua entrega e compromisso dentro de campo serão sempre dedicados a representar Portugal, tal como sucedeu ao longo de todo o seu percurso nas seleções jovens.
Com o Campeonato do Mundo no horizonte, o médio encara este desafio como a realização de um "sonho de criança". Florentino acredita que o facto de estar a competir semanalmente na liga mais exigente do planeta poderá ser o argumento decisivo para convencer Roberto Martínez a incluí-lo no lote final de convocados.

Aventura em Inglaterra: "Tem sido um percurso muito positivo. Como disse, já tinha estado em Espanha, em França e em Portugal, também. São ligas muito competitivas, mas eles aqui... senti uma diferença. Porque a intensidade é realmente muito, muito alta. Mas tem sido uma adaptação boa, porque tenho conseguido desfrutar do tempo e o clube tem dado todas as condições para estar ao mais alto nível. É uma liga que é muito aliciante. Quando nós vimos na televisão, dá aquele ar de que é muito intenso, e quando nós, jogadores, estamos mesmo dentro de campo, conseguimos confirmar que sim. É diferente."
Intensidade de jogo entre Portugal e Inglaterra: "Sim, notei essa diferença. Em Portugal, um jogador está habituado a ter muitas paragens, a ter algum contacto com outro jogador e a ter essas faltinhas. Aqui, o árbitro deixa muito andar. O tempo útil é muito maior, o que proporciona um maior espetáculo a toda a gente. No final é bom, porque toda a gente tem de jogar no limite e sabe que os árbitros não dão essas abébias, por assim dizer. Nós, jogadores, já estamos mentalmente preparados para isso."
Burnley nos lugares de despromoção: "A nossa equipa tem tido boas exibições ultimamente e os resultados dos últimos quatro jogos, tirando o último, foi contra três equipas do Top 5 da liga. E nós empatamos com essas três equipas. Estamos a conectar-nos cada vez melhor e estamos a fazer jogos cada vez melhores. Mas o que falta, se calhar, é a concretização das oportunidades que nós temos. Às vezes temos muitas oportunidades, mas não conseguimos concretizar. E também temos de ter atenção a pequenos detalhes, porque aqui em Inglaterra, à mínima distração defensiva, as equipas já aproveitam para marcar golos."
Burnley tem cláusula obrigatória de compra mas apenas em caso de manutenção: "Acredito até ao fim que vamos continuar na Premier League. E estou muito satisfeito de estar aqui, sempre foi o meu sonho estar entre os melhores e pretendo continuar aqui, nesse lugar."
Esperanças em ir ao Mundial-2026: "Sim, tenho esperança de que isso possa acontecer, ainda que seja muito difícil, porque o leque de jogadores da Seleção Nacional é de muita qualidade. E é tudo jogadores que são muito constantes no clube. Acho que essa é mesmo a palavra-chave, a constância. E essa constância tem sido uma coisa que tenho conseguido adquirir aqui em Inglaterra. Tenho-me focado no meu trabalho diário e, claro, no final, quem sabe, possa ir ao Mundial. Era um sonho de criança."
Porque nunca teve essa oportunidade na Seleção Nacional? "Acho que se deve ao que estava a falar anteriormente, o leque de jogadores que existe na Seleção Nacional. São jogadores de muita qualidade e que jogam todos em grandes clubes. Mas a minha vinda para cá também pode ser um fator a ajudar nessa convocatória, porque aqui estou entre os melhores jogadores. Mas isso são decisões que cabem sempre aos treinadores. Mas claro que a minha presença em várias pré-convocatórias, mesmo este ano, ainda me dão esperança de estar no Mundial. Esse é o meu objetivo, é passar da pré-convocatória para a convocatória."
Expectativa pelo estágio de março: "Claro, claro. Acho que é uma boa oportunidade, ainda por cima vai haver uma rotação dos jogadores e espero representar a Seleção."
Possibilidade de jogar pela seleção de Angola: "Angola é o país onde nasci. E eu tenho muito orgulho das minhas raízes. Mas foi Portugal que me deu as condições para estar onde estou hoje. Os meus pais emigraram na altura para Portugal, quando eu tinha um ano e meio, dois anos. Essa vinda para cá fez com que eu pudesse estar no nível em que estou hoje, por isso sou muito grato pelo que Portugal já fez comigo. A minha entrega no futebol sempre será por este país. Claro que não esqueço Angola: tenho a ideia na minha cabeça de fazer projetos sociais para ajudar pessoas mais carenciadas. Mas dentro de campo quero representar Portugal. E assim como já foi no passado, pretendo fazê-lo também no futuro."
Temporada do Benfica: "As épocas no Benfica são sempre assim, complicadas. Mesmo quando fomos campeões, nas últimas duas vezes, foram os dois na última jornada. É sempre até ao fim. E acho que este ano também vai ser assim, apesar de o Porto estar um pouco mais adiantado na classificação. Acredito que vai ser luta até ao fim. E os jogadores, a comissão técnica, acredito que também tenham essa convicção, que ainda que seja difícil, ainda têm essa oportunidade. E na Champions, quem sabe, possam fazer uma coisa engraçada. Acho que o foco deles deve estar naquilo que eles podem fazer, que é controlar os jogos e darem o máximo. Mas quem sabe. No meu primeiro ano, quando o Benfica é campeão, também estávamos sete pontos atrás do FC Porto. Agora, o Benfica está a nove. Mas ainda há muito jogo para acontecer, muitos jogos entre as equipas grandes, é possível."
Florentino Luís daria jeito ao Benfica? "Isso é complicado de dizer, mas esses três jogadores são jogadores com muita qualidade e às vezes demoram algum tempo até convencer toda a massa associativa. Mas acredito que no futuro vão conseguir fazê-lo. Mas claro que um dia gostaria de voltar ao Benfica, um clube por que tenho muito carinho."
Tem pena de não ter sido treinado por José Mourinho? "O José Mourinho é um treinador muito especial e toda a gente sabe das suas qualidades, da forma como gere o grupo. Mas graças a Deus também estou aqui. Se fosse treinado por ele, não estaria aqui na Premier League. Eu encaro essas coisas assim, vejo o lado positivo, e o lado positivo é que estou aqui a desfrutar do melhor campeonato do mundo."
Como avalia o trabalho de Mourinho? "Eu tenho acompanhado o Benfica, acho que tem sido um trabalho com alguns altos e baixos. Momentos muito marcantes, mas também alguns momentos um pouco mais abaixo do que eu esperava. Mas essa estabilidade num clube como o Benfica, por vezes demora um certo tempo. Às vezes os adeptos não têm essa paciência para os resultados aparecerem, mas quando as coisas forem consolidadas, acho que irão fluir de uma melhor maneira."
Gostava de regressar ao Benfica? "Sim, gostaria de voltar ao Benfica. Creio que a nossa ligação ainda não acabou definitivamente. Claro que agora saí, mas um dia mais tarde gostava de representar o Benfica.
Relação com Marcus Edwards, que era seu rival no Sporting: "Tem sido boa. Ele foi uma pessoa que no início me ajudou muito com a adaptação, porque eu sabia que, vindo de Portugal para a Inglaterra, teria dificuldades. As mesmas que, se calhar, ele teve na adaptação ao nosso país. E vendo um jogador que veio de Portugal para cá, isso também foi importante para a adaptação. E é uma pessoa cinco estrelas, tem-me ajudado muito. Tenho a sorte de estar com ele, porque é um jogador de muita qualidade, e que era difícil de enfrentar quando jogava no Sporting. Espero continuar aqui com ele também."
O canal de YouTube, como está a correr? "Está a correr bem. Quando criei o canal, há algum tempo, a ideia era mostrar o meu lado mais pessoal, porque às vezes as pessoas olham para o lado mais sério. Por exemplo, eu já reparei, quando vejo imagens minhas a jogar, que estou sempre com o meu lado mais sério. Depois as pessoas pensam que é só isso que passamos cá para fora, por isso é bom termos essa abertura, faz com que as pessoas possam conhecer um pouco mais de mim. É um projeto que nasceu para isso, para demonstrar o meu lado mais pessoal. Estou a trabalhar nisso, e mais episódios vão sair daqui a nada, para as pessoas acompanharem como é que estão as coisas aqui na Inglaterra. Acho que é uma coisa que os jogadores deviam fazer um pouco mais."
