Gareth Southgate: "Os jogadores não são peças num quadro magnético, são pessoas"

Southgate refletiu sobre o papel dos treinadores
Southgate refletiu sobre o papel dos treinadoresADRIAN DENNIS / POOL / AFP

A autoridade dos gestores no futebol moderno está a enfraquecer de forma discreta, mas constante. Segundo o antigo selecionador da seleção inglesa, Gareth Southgate (55 anos), tal deve-se à transformação das estruturas dos clubes, em que os diretores desportivos e técnicos assumem cada vez mais o papel principal. Para o treinador, a mudança do título de gestor para treinador principal não é apenas uma questão de nome – reflete uma verdadeira alteração no equilíbrio de poderes.

O antigo treinador da seleção inglesa abordou o tema numa publicação na rede social LinkedIn, onde reagiu às recentes mudanças de treinadores nos grandes clubes europeus.

Real Madrid, Manchester United e Chelsea separaram-se dos seus treinadores principais desde o início do ano e, segundo Southgate, estes casos têm um ponto em comum – a posição enfraquecida de quem está no banco.

"As circunstâncias foram sempre diferentes, mas no fundo tratou-se de lutas de poder. Seja com a direção do clube, com os seus funcionários ou com os jogadores", afirmou Southgate.

Para o treinador, a diferença entre o papel de gestor e o de treinador principal é fundamental. Não se trata apenas de uma questão de terminologia, mas sim de uma mudança real de responsabilidade e influência. Enquanto antes o gestor definia o rumo desportivo do clube, hoje está muitas vezes subordinado a um sistema dirigido por outros.

"A erosão da autoridade do gestor já decorre há vários anos. Foi acelerada de forma significativa pela ascensão dos diretores desportivos, técnicos e de futebol, que atualmente estão acima do treinador principal e definem a estratégia de longo prazo do clube", escreveu.

Southgate sublinha, no entanto, que não vê este desenvolvimento como um problema. Pelo contrário, reconhece que o futebol moderno é tão complexo que uma só pessoa não consegue abranger tudo. A gestão de contratos, o scouting global ou o trabalho com dados são, segundo ele, áreas para as quais o treinador muitas vezes não tem tempo nem conhecimento especializado.

Ao mesmo tempo, rejeita a ideia de que o papel do treinador principal seja hoje mais fácil do que no passado.

"É precisamente o contrário", defende. Plantéis maiores, equipas técnicas mais alargadas, análise de dados, pressão mediática e comercial – tudo isto, segundo Southgate, aumenta as exigências e o stress.

A diferença entre gestor e treinador, segundo Southgate, é visível também na forma como os clubes encaram os seus treinadores. O treinador está mais focado no que acontece dentro das quatro linhas, enquanto o gestor tradicionalmente detinha autoridade também fora delas. Por isso mesmo, quando recebeu o convite para liderar a seleção inglesa, fez questão de manter o título de gestor.

"Precisava que o título refletisse o grau de autoridade, influência e controlo que a função exige", explicou.

No final, recordou que o futebol não pode ser gerido apenas a partir de um escritório ou através de folhas de cálculo: "Os jogadores não são peças num quadro magnético. São pessoas. E lidar com esta realidade é hoje o cerne da liderança no futebol."