Ponto prévio: na minha opinião, o despedimento de Ruben Amorim por parte da estrutura do Manchester United é um erro. Mais um. Tendo em conta o histórico (já não tão) recente para aqueles lados, não será uma surpresa que tenha sido tomada mais uma decisão errada.
"E se corre bem?". A pergunta de Ruben Amorim, na apresentação como treinador do Sporting, ficou para a história. Não pela questão em si, nem sequer pelo momento em que foi feita, mas pelo que veio depois.
É preciso destruir para construir
A aposta de Frederico Varandas foi, naqueles dias iniciais, encarada como uma completa loucura. Afinal, Amorim tinha poucos meses de experiência como treinador principal, nem sequer tinha um curso. Em Portugal, quem não se recorda da histeria da Associação Nacional dos Treinadores de Futebol (ANTF)? Só que, no final, o balanço não podia ser mais positivo.
Amorim marcou uma era. Teve falhanços em Alvalade, aliás, até foi assim que começou. Falhou o pódio nas últimas jornadas da Liga e, consequentemente, o apuramento para a Liga dos Campeões. No play-off para a Liga Europa, no arranque da época seguinte, foi humilhado pelo modesto LASK Linz. Até aqui, há muitas semelhanças com a trajetória do português em Old Trafford, mas é na grande diferença que reside todo o problema.
Sei que é fácil contrariar todo o meu argumento. Afinal, os números não mentem, e aí Amorim foi, pode dizer-se, um tiro ao lado. O futuro vai, muito provavelmente, recordar o treinador português como o pior da história do clube, a não ser que o sucessor faça ainda pior, o que, digo já, parece-me difícil. Porquê? Porque as bases estavam a ser montadas.
Quando deixou Alvalade, onde era visto como um herói, Amorim dizia que o comboio só passava uma vez, mas a verdade é que o bilhete do treinador português tinha Nárnia como destino. Old Trafford é considerado o Teatro dos Sonhos e ele comprou a ilusão. A ilusão de que seria o manager e teria tempo para fazer aquilo que fez no Sporting: partir pedra e construir as fundações para levantar um gigante adormecido.

Mas, no final de contas, o Manchester United, enquanto clube, só pode ser reerguido quando houver vontade para tal.
Uma ilusão chamada Old Trafford
A importância dada a comentadores associados ao clube, que, depois de deixarem Old Trafford, recheiam as contas pessoais graças aos wild takes nos vários meios de comunicação social depois de parte deles ter fracassado na ideia peregrina de que, por terem sido jogadores de topo, seriam treinadores de topo, mostra que o Manchester United, enquanto clube, não quer crescer.
Sim, Amorim sai com um registo pior do que o de Erik ten Hag, mais um dos vários treinadores queimados em Old Trafford, onde já se tentou de tudo — os consagrados Van Gaal e Mourinho, a promessa David Moyes e até um diretor que voltou a ser treinador (Rangnick). Não é por acaso que o atual treinador do Benfica considera que um dos seus melhores trabalhos nos últimos anos foi o segundo lugar com o Manchester United. A estrutura está podre e não quer ser reabilitada.
O Manchester United é um clube viciado, que não está preparado para tratamentos de choque. Não está preparado para homens como Ruben Amorim, alguém com capacidade para pôr o dedo na ferida e dizer que este é "o pior Manchester United de sempre".
Personagens como Garnacho ou Rashford não terão gostado de ouvir, mas o ataque não foi pessoal e só caiu quem, como o clube, não está preparado para arregaçar as mangas. Veja-se o exemplo de Casemiro, de proscrito imediato por Amorim a um dos indiscutíveis. É tudo uma questão de mentalidade.
Quem tem culpa?
Daqui a 10 anos, iremos olhar para os números de Amorim como um fracasso, não há dúvidas quanto a isso, mas será o português o principal culpado ou será que os Red Devils não querem sair do poço onde estão metidos há anos?
A falta de apoio ao treinador, questionado sobre a insistência numa ideia (quando outros foram questionados exatamente por não a terem), sobre a formação decadente de um clube ultrapassado (basta lembrar as palavras de Cristiano Ronaldo), sobre declarações de ex-jogadores e, pasme-se, sobre o irmão de um jogador de 20 (!) anos que não era titular num clube como o Manchester United.
Ruben Amorim não teve medo do desafio, nem teve medo de colocar o dedo na ferida, custasse o que custasse. Depois de tocar onde dói mais, acabou por ver o seu nome no quinto comunicado de despedimento do clube em 10 anos, que, diga-se, justificou a saída pelos resultados e pela posição na Premier League (a três pontos dos lugares de Liga dos Campeões). Veremos, no final da época, qual a posição que ocupa.
Para desilusão de vários portugueses que, como em 2004, assistiram aos jogos do emblema de Manchester como assistiam ao Chelsea de Mourinho, Amorim fracassou, não há dúvidas. Mas será que o Manchester United ficou a ganhar com este despedimento? Vamos ver (mic drop)…

