Opinião: O que Arteta tem de fazer para o Arsenal evitar um colapso catastrófico

A equipa de Arteta está a ser perseguida pelo Manchester City
A equipa de Arteta está a ser perseguida pelo Manchester CityČTK / imago sportfotodienst / Andrew Yates

Durante grande parte desta época, parecia que o troféu da Premier League ia regressar ao norte de Londres. A última vez que o Arsenal conquistou o título foi em 2004 e a seca de 22 anos parecia estar prestes a terminar. No entanto, após uma série de maus resultados, culminando num empate abismal frente a uma equipa dos Wolves destinada ao Championship, aquela coroa tão desejada parece estar a escapar-lhes das mãos.

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Arsenal mostrou-se assustado, passivo e completamente perdido, apesar de ter uma vantagem de 2-0 frente a uma equipa que só tinha somado nove pontos esta época. Foi uma exibição terrível por parte dos líderes, permitindo aos Wolves recuperar e arrancar um ponto nos instantes finais do jogo.

Os nervos instalaram-se entre os jogadores, e isso é evidente no relvado. Os melhores e mais fiáveis do Arsenal já não estão a tomar as decisões certas, como ficou claro na surpreendente confusão entre David Raya e Gabriel Magalhães no golo do empate.

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Com apenas duas vitórias nos últimos sete jogos, o Arsenal podia já ter uma vantagem de dois dígitos no topo da tabela, e com o Manchester City longe do seu melhor, isso provavelmente seria suficiente. No entanto, à entrada para este fim de semana, a vantagem dos gunners foi reduzida para cinco pontos, com o City a ter um jogo em atraso.

A pressão está a aumentar e os adeptos tornaram-se compreensivelmente pessimistas. Mikel Arteta tem de encontrar soluções para voltar a colocar o Arsenal a carburar e ajudar os jogadores a sentirem-se mais confortáveis nos momentos finais dos jogos.

Mas o que deve ele fazer?

Apostar em Kai Havertz

Durante dois anos, Kai Havertz foi o avançado titular do Arsenal, e embora tenha dado muito à equipa com o seu esforço, qualidade de jogo e capacidade de potenciar os colegas, os adeptos ansiavam por um número nove mais clássico e eficaz para decidir jogos, algo que Havertz não é.

Por isso, investiram quase 80 milhões de euros no avançado do Sporting, Viktor Gyokeres, mas essa transferência não resultou. O sueco esforça-se, mas provou que não está ao nível exigido para uma equipa com ambições elevadas em várias frentes. Desde a sua fraca capacidade técnica, passando pela ausência de jogo de apoio e de físico, até à incapacidade de estar no sítio certo na altura certa, não há muito de positivo a destacar.

Incrivelmente, não conseguiu fazer um remate enquadrado em 60% dos jogos da Premier League em que participou. Os oito golos na Liga foram marcados frente a equipas recém-promovidas como Sunderland, Leeds e Burnley, bem como frente ao Nottingham Forest e ao Everton.

Comparação entre a melhor época de Havertz no Arsenal (2023/24) e Gyokeres esta temporada
Comparação entre a melhor época de Havertz no Arsenal (2023/24) e Gyokeres esta temporadaOpta by StatsPerform

Gabriel Jesus também está longe de ser o jogador que já foi, depois de vários problemas físicos, e Mikel Merino está fora até ao final da época.

Por isso, Arteta tem de voltar a apostar em Havertz e garantir que está preparado para a reta final. O alemão também sofreu várias lesões esta época e precisa de ser gerido. Apesar das suas limitações e de não ser a solução a longo prazo, é claramente a melhor opção disponível e dará ao Arsenal uma hipótese mais real de chegar à meta.

Potenciar melhor os avançados

O Arsenal não tem muitos atacantes em boa forma neste momento, com jogadores como Gabriel Martinelli, Noni Madueke, Jesus e Gyokeres a atravessar dificuldades esta época. Mesmo Bukayo Saka está longe do seu melhor, enquanto Leandro Trossard tem sido irregular.

Apesar das dúvidas sobre a qualidade de alguns destes jogadores, o sistema e o estilo de jogo de Arteta não estão a ajudar a tirar o melhor deles. Os extremos mantêm-se muitas vezes demasiado abertos e não têm liberdade para entrar em zonas centrais perto da baliza. Considerando que Saka é o melhor avançado da equipa, será esta a melhor estratégia?

Saka passa a maior parte do tempo colado à linha lateral
Saka passa a maior parte do tempo colado à linha lateralOpta by StatsPerform

Especialmente porque os jogadores que aparecem em zonas de ataque nem são, muitas vezes, os médios – são os laterais! Riccardo Calafiori, Piero Hincapié e Jurrien Timber são os que mais vezes aparecem na área, a fazer movimentos interiores e a surgir na zona de finalização.

Talvez Arteta devesse dar um pouco mais de liberdade aos seus extremos, ou utilizar os laterais de forma mais convencional, a apoiar os jogadores das alas com movimentos exteriores.

Ser mais audaz

É evidente que Arteta é um treinador pragmático, mais preocupado em garantir solidez defensiva e controlo do jogo do que em ser uma força ofensiva avassaladora. E isso não é necessariamente mau. Montou uma das defesas mais fortes da Europa, concedendo apenas 20 golos na Liga e somando 13 jogos sem sofrer golos. Na fase de grupo grupo da Liga dos Campeões, só concedeu quatro golos, dois deles num jogo sem importância, com uma equipa muito alterada frente ao Kairat Almaty.

O problema é que, muitas vezes, é demasiado negativo e conservador em momentos em que devia ser mais ofensivo, algo que tem sido recorrente nos últimos anos do seu comando.

Declan Rice e Martin Zubimendi não precisam de ser titulares em todos os jogos. Veja-se o recente duelo frente aos Wolves. Ambos estavam no onze inicial, quando podia ter apenas Rice como médio defensivo e utilizar dois médios ofensivos à frente dele, contra uma equipa que ia jogar recuada e pouco ameaçadora.

Zubimendi e Rice têm sido presença constante na equipa do Arsenal
Zubimendi e Rice têm sido presença constante na equipa do ArsenalANDY RAIN / EPA / Profimedia

Eberechi Eze tem andado perdido com a camisola do Arsenal desde que chegou vindo do Crystal Palace no verão. Porque não utilizá-lo mais numa das posições de médio ofensivo ao lado de Martin Odegaard, para tentar desbloquear o seu potencial, com Rice a fazer o trabalho defensivo atrás deles?

Uma abordagem mais ousada podia ajudar o Arsenal a dominar os jogos e resolvê-los mais cedo, evitando que os nervos se instalem nos momentos finais das partidas equilibradas.

Utilizar mais White e Norgaard

Christian Norgaard jogou 32 minutos pelo Arsenal na Premier League esta época. Contratado para dar profundidade e experiência ao plantel, o antigo capitão do Brentford mal tem estado em campo pelos gunners, enquanto Rice e Zubimendi têm sido utilizados de tal forma que o desgaste já é evidente. Nenhum jogador de campo jogou mais minutos pelo Arsenal do que Zubimendi (2.993), enquanto Rice é o terceiro com mais minutos (2.846). O primeiro, em particular, está muito longe do seu melhor nas últimas semanas.

Norgaard não é um craque, mas é um jogador sólido com experiência na Premier League. Qual é o problema de dar descanso a um dos dois frente a uma equipa da parte inferior da tabela e apostar no dinamarquês?

Mesmo nos minutos finais dos jogos, devia ser mais utilizado. Houve várias ocasiões em que Rice e Zubimendi pareceram exaustos nos últimos 10 minutos de partidas decisivas, o que custou caro ao Arsenal. Norgaard seria uma boa opção para segurar esses momentos.

O mesmo se aplica a Ben White, o inglês jogou apenas 411 minutos esta época, o equivalente a cerca de quatro jogos e meio. Atrás de Zubimendi, Timber é o que mais minutos tem (2.916) e também está longe do seu melhor.

White devia ser utilizado muito mais para dar descanso a Timber, o que também ajudaria a potenciar Saka, que jogou o seu melhor futebol com White a lateral direito. White é um lateral naturalmente mais ofensivo, com capacidade atlética para apoiar Saka pelo lado exterior, resolvendo dois problemas de uma só vez.