Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Kauã Elias falou sobre passado, presente e futuro. O jovem de 19 anos recordou histórias no Fluminense, desde os golos até as polémicas, e não se privou de responder se aceitaria jogar no Flamengo.
Com 11 golos em 26 jogos pelo Shakhtar esta temporada, Kauã começa a chamar a atenção das grandes ligas europeias. E o avançado também revelou ao Flashscore quais são os clubes em que sonha jogar desde criança.
A conversa ocorreu enquanto Kauã Elias estava no Brasil, durante a pausa de inverno do futebol ucraniano. O plantel do Shakhtar regressa esta terça-feira ao trabalho em Antalya, na Turquia.
Chegada ao Shakhtar e sonho de criança
- Como foi a adaptação no Shakhtar? Foi difícil chegar a um país em guerra?
- O começo foi um pouco difícil, confesso, por estar longe da família, muito frio, muita diferença de estilo de jogo. Mas depois que a minha família chegou eu consegui sentir-me melhor, entrosar-me na equipa e pegar mais o estilo de jogo. Como consequência disso, pude fazer bons desempenhos nos jogos, fazendo golos, assistências e ajudando a equipa.
- O Shakhtar tem essa tradição de vários jogadores brasileiros no plantel. Isso facilitou a adaptação?
- Claro, isso ajuda muito. Chegar num país com língua e costumes bem diferentes, e ter pessoas que já estão há mais tempo, ou que estão ali para te ajudar, que entendem a língua… Fica muito mais fácil. Isso ajuda não só a mim, como a todos os brasileiros que estão lá.
- De quem está mais próximo no dia a dia?
- Do Isaque. Jogámos na formação do Fluminense e na equipa profissional também. Conhecemo-nos desde os 11 anos de idade, foi a subir e a jogar juntos, então é a pessoa de quem fico mais próximo.
- O Shakhtar tem essa tradição de potencializar os brasileiros e depois vender para clubes maiores da Europa. Já sonha com isso? Existe um clube ou uma liga especial onde tenha o sonho de jogar?
- Sonhar a gente sempre sonha. Desde criança, sempre falei que um dos meus sonhos era jogar no Chelsea ou no AC Milan. Mas eu não tenho escolha. Claro que vou querer também se tiver interesse de outro clube de primeira da Europa, mas os meus sonhos de infância são Chelsea ou AC Milan.

Crescimento no Fluminense
- No Fluminense ganhou espaço quando a equipa lutava pela manutenção. Para um jogador jovem, é mais fácil ou mais difícil receber oportunidades nesse momento?
. Isso é uma questão de preparação, porque uma hora a sorte chega. Vais querer jogar e tens de estar pronto, preparado. Eu sempre estive preparado para todos os momentos. Treinava muito, estava sempre a preparar-me fora de campo, com ginásio, personal trainer. Então eu sentia que estava preparado para quando esse momento chegasse. Quando chegou, pude ser feliz de começar a fazer os golos e a mostrar o meu futebol. Mas confesso que é um pouco difícil para um miúdo que sai da formação, onde não tem adeptos, e vai para o Maracanã, com 50 mil pessoas. É complicado, mas não levo isso como pressão, e sim como motivação. Querendo ou não, realizei o meu sonho de jogar no Maracanã e as pessoas a gritarem o meu nome depois de um golo.
- Logo depois do seu primeiro golo, contra o Criciúma, disse: ‘Coloca a rapaziada para jogar’. Depois falaram que essa entrevista caiu mal entre os jogadores experientes. O que se passou?
- Não, não. Foi mais tranquilo. É muita coisa da comunicação social. Eles (veteranos) entenderam quando eu falei, foi um momento de felicidade, que eu estava a extravasar, e jamais ia querer tirar o mérito deles. Entenderam e levaram numa boa, mas a comunicação social tem muito disso, muita fofoca, então passaram como se tivesse algo de errado ali. Era um momento mau, em que a gente estava também, então qualquer fiascozinho já era um motivo para gerar outras coisas.
- Logo depois afirmou-se e houve uma sequência de várias vitórias por 1-0, com golos seus. Como é que um jogador se sente nesse momento? Tudo dá certo?
- Sentes-te num momento muito feliz, muito leve para fazer as coisas, e elas vão acontecendo naturalmente. Nesse momento fui muito feliz, tanto dentro de campo quanto fora. Os meus familiares, a minha família toda. Era uma felicidade sem tamanho porque eu estava a realizar não só meu sonho, mas de toda a minha família, dos meus amigos, dos meus primos. Era todo o mundo muito, muito feliz.
- Surgiu numa época que o Cano estava a passar por problemas físicos, e isso acabou por abrir espaço. Mas como foi esse contacto com ele no dia a dia, desde o seu começo no equipa principal?
- A relação com o Germán sempre foi boa. Ele sempre me ajudou desde que eu cheguei. Essas pessoas mais experientes, que têm uma carreira no futebol, sempre tentam ajudar. E com ele não foi diferente, sempre me deu muitas dicas de finalização, posicionamento. De humildade também, de deixar a cabeça no lugar. É um ser humano incrível e que, além de tudo, é um jogador espetacular. É um ídolo do Fluminense. Levo ele como inspiração, porque é uma pessoa muito boa, de muito bom coração, e além de tudo, dentro de campo, faz o trabalho excecionalmente. É um cara nota 10.
- E em quem mais se inspira, principalmente na função de avançado?
- A minha maior inspiração é o Ronaldo Fenómeno. Para mim, foi o melhor avançado que já existiu. E agora, um pouco do Mbappé também. Gosto muito do estilo de jogo dele.

"Não aconselho ninguém a passar por isso"
- No Fluminense tudo ficou definido na última jornada. Nessa altura houve a confusão da saída do Marcelo, os bastidores tumultuosos. Como foi essa trajetória para escapar à descida? Como estava o clima?
- Foi muito difícil. Ficámos um bom tempo nessa luta para não descer. Só quem estava lá sabe o que passámos em termos de pressão. Os adeptos a irem ao centro de treinos para protestar, sair na rua e ser insultado, ser vaiado no estádio… É uma coisa muito, muito negativa, que eu não aconselho ninguém a passar se não tiver cabeça. Era muito difícil porque qualquer coisa era motivo de uma briga na equipa, de uma discussão. Devido à pressão externa, o interno acabava por ser prejudicado. Era bem complicado, mas graças a Deus a gente conseguimos sair dessa zona de despromoção. Fico muito feliz por poder ter ajudado pelo menos um pouco, de os adeptos lembrarem-se de mim como alguém que ajudou bastante o Fluminense. Fico muito, muito grato por isso.
- Passado esse sufoco da luta pela manutenção, ficou com a camisola 9 do Fluminense e começou o ano a marcar. Logo depois, foi vendido. Para os adeptos, ficou uma sensação de que essa união foi interrompida antes da hora. Também sentiu isso?
- Não posso negar que sim. O Shakhtar aconteceu do dia para a noite, eu não sabia de nada. Querendo ou não, era uma proposta muito boa para o Fluminense e para mim. A equipa vinha de uma fase muito negativa, foi um ano muito difícil. Sempre falo com os meus amigos e a minha família que, se eu ficasse, poderia ter feito muito mais. Creio que ia amadurecer muito como jogador, igual ao que estou a amadurecer agora. Já fiz 11 golos em meia época, então acho que só iria amadurecer e poder ajudar ainda mais o Fluminense. Mas as coisas são sempre todas feitas por um propósito, e Deus organizou tudo certinho para que essas coisas pudessem acontecer. Sou muito grato pelo tempo que passei no Fluminense, pelo que ajudei, pelas coisas que aconteceram… Mas fiquei com vontade mesmo de ter feito mais golos, de ganhar mais títulos, mas fico feliz pela trajetória.

"Jogaria no Flamengo?"
- Estamos numa altura de muitas especulações, e às vezes é difícil filtrar o que há de concreto. Foi contactado por algum clube nesta reabertura do mercado? E algum clube do Brasil, sendo mais específico?
- Que eu saiba não. Deixo sempre essas coisas para os meus empresários, o meu avô e o meu pai. É claro que acompanho a internet, às vezes as especulações também, mas não chegou nada concreto de nenhuma equipa. Continuo a trabalhar firme. Estou focado no Shakhtar, estou feliz também. Deixo as coisas na mão dos meus empresários, e de Deus também. Sei que ele vai traçar o caminho certo.
- Uma dessas especulações envolve o nome do Flamengo, e existe um histórico recente de Moleques de Xerém a irem para lá. Jogaria no Flamengo?
- É uma pergunta muito complicada. Sou muito grato ao Fluminense por tudo que fez por mim, e também sou profissional. Não tenho como falar onde eu jogaria ou onde não jogaria, porque na carreira de jogador você não decide para que equipa vai. Se um clube te quer comprar e o clube em que estás quer vender-te, e é uma boa proposta, então tens de ir. É questão de ser profissional. São coisas que podem acontecer, como também podem não acontecer. Mas sempre falei que sou muito grato ao Fluminense por tudo, por me ter acolhido, por ser um clube que abriu as portas para mim desde pequeno. Deixo essas coisas com Deus, porque eu sei que ele está a cuidar de mim.
Uma palavra, uma resposta
Fluminense? Amor.
Shakhtar Donetsk? Sonho.
Germán Cano? Ídolo.
Mano Menezes? Paizão.
Marcelo? Mágico.
Isaque? Parceiro.
Paulo Henrique Ganso? Maestro.
Alisson Santana? Cupincha.
Fernando Diniz? Incrível.

