Exclusivo com Andreia Faria: "Quero ajudar a desenvolver a jogadora e o campeonato saudita"

Andreia Faria em destaque no Al Nassr
Andreia Faria em destaque no Al NassrAl Nassr FC

Andreia Faria fez história no Benfica, onde continua a ser a jogadora com mais jogos pelo pentacampeão nacional, antes de abraçar um novo desafio no Al Nassr, da Arábia Saudita, tornando-se a primeira portuguesa a jogar naquele país do Médio Oriente. Em entrevista exclusiva ao Flashscore, a média fala sobre a realidade que encontrou, recorda os anos de águia ao peito e aborda ainda o presente na seleção nacional.

Acompanhe o Al Nassr no Flashscore

O futebol apareceu cedo na vida de Andreia Faria e nunca mais saiu. Apesar de ter tido oportunidade de enveredar mais cedo por um percurso totalmente profissional, com hipóteses no Sporting e no SC Braga, a média colocou os estudos em primeiro plano. Só na altura de ingressar na universidade decidiu mudar-se para Lisboa, onde conseguiu conciliar a licenciatura e o mestrado com um período histórico ao serviço do Benfica, clube pelo qual conquistou 16 títulos em sete temporadas.

Após renovar com as águias, recebeu uma primeira abordagem da Arábia Saudita, mas foi ao segundo convite que aceitou um novo desafio. Saiu da Luz como a jogadora com mais jogos pelo clube (230) e pentacampeã nacional para se tornar a primeira portuguesa a atuar no campeonato saudita, integrando um projeto que ganhou projeção mundial através de Cristiano Ronaldo e onde pretende crescer enquanto jogadora e ajudar ao desenvolvimento da competição.

A análise de Andreia Faria
A análise de Andreia FariaOpta by Stats Perform, Al Nassr

Elogiada por Lluís Cortés, que ao Flashscore garantiu ter qualidade para qualquer equipa de topo europeu, Andreia Faria fala também da realidade que encontrou no novo país e da ambição com a seleção nacional, prestes a iniciar mais uma campanha de qualificação para o Campeonato do Mundo.

O passado, o presente e o futuro numa entrevista exclusiva ao Flashscore.

"Tive propostas do Sporting e do SC Braga antes de ir para o Benfica"

- Quando se fala de futebol, qual é a primeira memória que lhe vem à cabeça?

Desde miúda que a principal brincadeira era sempre com uma bola. Jogava futebol com os meus amigos na rua e, desde que me lembro, foi um amor que nasceu comigo. Não tenho ninguém na família especialmente ligado ao futebol, mas sempre tive essa paixão. As minhas memórias de infância são sempre a brincar e a jogar à bola com os meus amigos.

- E quando é que surge o interesse de ir para um clube? Foi puxada por esses amigos?

Foi exatamente isso. Na escola, um dos meus amigos disse-me: 'Devias vir experimentar treinar connosco'. Na altura ainda não existiam equipas femininas em Vila Real e eu era a única rapariga a jogar futebol. Eles incentivaram-me, fui experimentar, gostei e fiquei. Foi na Diogo Cão, fiz uns anos com eles, depois fui para o Abambres e terminei lá aos 17 anos.

Os números de Andreia Faria até à mudança para o Al Nassr
Os números de Andreia Faria até à mudança para o Al NassrFlashscore

- Como foi esse período? Sentia que tinha de provar mais do que eles por ser rapariga?

Sinceramente, eu jogava porque gostava. Era a minha paixão e fazia-o de forma muito descontraída. Nem pensava se existia pressão ou algo a provar. Essa questão da desigualdade surgiu mais tarde, mas curiosamente nunca senti muito isso ao longo da minha carreira. Tive essa sorte.

- Depois muda para o futebol feminino, primeiro no Vilaverdense. Como foi deixar de jogar com os seus amigos e passar para um contexto só feminino?

Nessa altura tive propostas do Sporting e do SC Braga, mas os meus pais e eu achámos melhor terminar o 12.º ano em Vila Real e só depois mudar, quando fosse para a universidade. Esse último ano fiz no Vilaverdense, porque me permitia treinar com os rapazes durante a semana e ir apenas à sexta-feira para Vila Verde jogar. Foi uma boa ponte para mim. No ano seguinte, já a ir para a faculdade, o Benfica acabou por ser a melhor opção, também porque entrei numa universidade em Lisboa.

- E os seus pais? Como reagiram ao facto de querer jogar futebol?

Sempre aceitaram muito bem. Desde que eu cumprisse as expectativas escolares, davam-me liberdade para fazer o que gostava. Nunca foram um entrave à minha paixão pelo futebol.

Andreia Faria conquistou vários títulos no Benfica
Andreia Faria conquistou vários títulos no BenficaSL Benfica

O mestrado em Finanças e o futebol: "Tenho muito a agradecer ao Benfica"

- Quando foi para Lisboa já sabia que iria para o Benfica?

Ao início pensei que talvez ficasse mais perto de casa, no Porto, para seguir os meus estudos, mas, quando surgiu a proposta do Benfica, decidi candidatar-me a uma universidade em Lisboa para conciliar as duas coisas.

- Como imaginava o seu futuro nesse altura? Quais eram as suas prioridades?

A minha prioridade foi sempre terminar a licenciatura e o mestrado com bons resultados, enquanto ia acompanhando o futebol. O objetivo era jogar ao mais alto nível, mas sempre tive consciência de que precisava de um plano B sólido. Se tivesse uma lesão, por exemplo, teria outra base. Acabei o curso, aos 23 anos pude dedicar-me totalmente ao futebol e foi uma boa escolha.

- Como conseguiu conciliar estudos e futebol?

Tenho muito a agradecer à estrutura do Benfica e ao vice-presidente Fernando Tavares. Os meus pais explicaram-lhe que a condição para eu ir era haver flexibilidade com os estudos. O Fernando também tem formação na minha área, em Gestão, e até estudou fora, por isso entendeu de imediato e foi gerindo a situação da melhor forma. Muitas vezes não ia ao pequeno-almoço com a equipa porque tinha aulas, ia direta para o treino e depois voltava para a universidade. Foi exigente, mas consegui.

- Sempre com os livros atrás?

Sempre. Uma das piores recordações foi estar na Liga dos Campeões a terminar a tese. Faltavam dois dias para entregar e a orientadora pediu alterações grandes. Passei a noite em claro antes de um jogo para conseguir acabar. Foi duro, mas valeu a pena (risos).

Andreia Faria passou sete temporadas no Benfica
Andreia Faria passou sete temporadas no BenficaPedro Porru / Zuma Press / Profimedia

"Cresci com o projeto do Benfica e fizemos história"

- Quando vai para o Benfica percebe que o contexto era totalmente diferente daquele a que estava habituada?

Nada a ver. Era a primeira experiência profissional ao nível de futebol feminino. Mas foi um choque positivo.

- E quando percebeu que podia realmente afirmar-se como profissional?

Logo no primeiro ano (de Benfica). Fui diretamente para a equipa A e, mesmo com várias jogadoras muito boas no meio-campo, tive muitos minutos e fui titular na final da Taça de Portugal. Aí percebi que podia chegar longe no futebol e que tinha de apostar mais seriamente.

- Como foi fazer parte do início do projeto do Benfica?

É um enorme orgulho. Cresci com o projeto e fizemos história. Poder, até hoje, ser a jogadora com mais jogos no clube é algo que me deixa muito feliz. Nesta altura poderia estar no Benfica, uma coisa que também me orgulhava, mas a vida segue outros rumos.

- Foram sete anos no Benfica, com 230 jogos. Foi difícil tomar a decisão de sair?

Quando surgiu a primeira proposta tinha acabado de renovar (até 2027) e tínhamos feito uma Champions histórica. Preferi ficar mais um ano. Depois de sermos novamente campeãs, no caso pentacampeãs, senti que precisava de algo diferente, de uma nova experiência. Tive várias propostas e decidi aceitar esta. Estou contente com a decisão.

- Teve mais medo de se arrepender de sair ou de ficar a pensar no que poderia ter sido?

Quando tomo uma decisão sigo em frente. Naquele momento era a melhor opção para a minha carreira e vivo dia a dia com isso.

Andreia Faria com o primeiro título conquistado no Al Nassr
Andreia Faria com o primeiro título conquistado no Al NassrAl Nassr FC

"Campeonato saudita tem mais qualidade do que eu imaginava"

- Segue um caminho talvez não tão lógico para a sua carreira e torna-se na primeira portuguesa a ir para a Arábia Saudita. O que a motivou a escolher o Al Nassr?

A questão financeira pesa, claro, porque são valores muito diferentes. Mas também a experiência de ajudar a desenvolver a jogadora saudita e um campeonato emergente. Além disso, sabia que sendo jovem teria mais facilidade em entrar agora e que, mais tarde, poderia regressar à Europa ou a outro campeonato se mantivesse o nível. Veja-se o exemplo do Gabri Veiga, do FC Porto, que esteve dois anos aqui na Arábia e regressou. Sentia que podia vir para aqui, fazer um bom pé de meia e voltar... Mas, não sei, tenho gostado de estar aqui e desenvolvi outras coisas no meu futebol.

- Foi chegar, ver e vencer... O que sentiu mais diferente em relação ao Benfica?

Aqui jogo mais adiantada e com maior chegada à área, o que me obrigou a desenvolver mais o jogo ofensivo, golos e assistências. No Benfica tinha um papel mais recuado. Melhorei esse meu jogo que estava escondido. O campeonato está em crescimento, mas tem mais qualidade do que imaginava. Tem jogadoras sauditas com bastante qualidade. 

- E fora de campo? Houve choque cultural?

Vivo num complexo residencial internacional, mas convivo muito com as colegas sauditas e aprendo a cultura delas. Hoje o papel da mulher já é bastante diferente do que era há alguns anos. Onde vivo não senti um grande choque cultural, sinto a mulher mais livre e mais independente.

- Como vivem elas o futebol?

Com enorme entusiasmo. Jogam há poucos anos e veem-nos como exemplos. Querem aprender tudo: hábitos, treino, rotina. É muito interessante ajudá-las a crescer.

- Até onde pode ir a liga saudita?

Tem muito potencial e com a capacidade financeira que têm, acho que vão conseguir evoluir muito. Vai crescer muito rápido.

- A nível mais pessoal, sentiu necessidade de adaptar o seu jogo?

Sim, sem dúvida. Antes não olhava muito para a baliza; preferia assistir em vez de finalizar. Nos primeiros jogos aqui percebi que precisava de melhorar esse aspeto, até porque os números também contam. O treinador insistiu nisso e pediu-me que assumisse mais esse papel. O meu jogo não mudou, evoluiu. Tornei-me mais versátil e mais completa.

É também um campeonato muito exigente fisicamente: corre-se muito, é preciso ajudar em todo o lado. Ainda assim, tem sido uma experiência muito positiva e sinto que tenho crescido como jogadora.

Andreia Faria deixa elogios ao campeonato saudita
Andreia Faria deixa elogios ao campeonato sauditaAl Nassr FC

Cristiano Ronaldo, Al Nassr e elogios de Lluís Cortés: "Orgulho enorme"

- O Al Nassr é conhecido pelo Cristiano Ronaldo, mas como é por dentro? Qual é o peso do Al-Nassr na Arábia Saudita?

A chegada do Cristiano dignificou muito o clube. Antes, o Al Hilal tinha mais adeptos - e continua a ter muitos -, mas a vinda dele mudou o paradigma: os portugueses passaram a conhecer melhor o Al Nassr e a sua estrutura. Estou muito satisfeita com o que encontrei. É um clube em crescimento, também com a chegada de alguns portugueses, e tenho sentido bastante apoio.

- Está a trabalhar para que um dia se diga: 'é o Al-Nassr do Cristiano, do Félix, do Jorge Jesus', mas também 'da Andreia Faria'?

Sim, sem dúvida. Ser uma referência no futebol feminino é sempre positivo, ainda para mais sendo a primeira jogadora portuguesa a jogar aqui.

- Há algum tempo, o Flashscore falou com o mister Lluís Cortés, selecionador na Arábia Saudita, e ele disse que a Andreia é um exemplo de jogadora de topo que podia estar em qualquer equipa da Europa e que a sua presença valoriza a liga. Como olha para essas declarações?

Já tive oportunidade de conhecer o mister Lluís. É uma figura muito reconhecida pelo trabalho que fez no Barcelona. Ouvir isso da parte dele é um orgulho enorme - mencionar o meu nome e dizer que poderia estar numa equipa de topo na Europa. Agora tenho de continuar a corresponder, porque é muito gratificante receber esse reconhecimento de um treinador tão conceituado.

- Estão muito perto de conquistar mais um troféu. O que significa continuar a ganhar, num contexto em que já vinha de vitórias no Benfica?

Ganhar é sempre especial. Passar de um projeto vencedor para outro é muito positivo. 

- Olhando para trás, está totalmente convicta de que foi a melhor decisão?

Sim, sem dúvida.

Andreia Faria integra opções de Francisco Neto para a Seleção
Andreia Faria integra opções de Francisco Neto para a SeleçãoČTK / imago sportfotodienst / Joao Gregorio

Momento da seleção: "Mundial? Já não é novidade, é uma obrigação"

- Temeu que a mudança para a Arábia Saudita afetasse a presença na seleção portuguesa?

Falei com a minha agente. Podia ser uma possibilidade, por ser um campeonato em crescimento, mas o que sempre disse foi que vinha para continuar a evoluir e a desenvolver-me e que queria fazer o necessário para manter um bom ritmo. Se tivesse consequências, era algo que eu teria de assumir, mas também há jogadoras que conseguem manter bom rendimento. E, graças ao trabalho extra que fazemos aqui, conseguimos estar em boas condições para representar a seleção.

- A seleção viveu uma fase de entusiasmo e começou a normalizar coisas que antes eram impensáveis. A responsabilidade hoje é totalmente diferente do que quando foi chamada pela primeira vez?

A responsabilidade sempre foi alta, porque queríamos elevar o nome de Portugal. Mas agora, como estamos a cimentar o país em patamares mais elevados, há uma pressão acrescida: queremos continuar a manter-nos nos Europeus e Mundiais. E queremos bons resultados. Não podemos normalizar: temos de continuar a trabalhar, conscientes de que é sempre difícil estar nessas competições, porque as seleções são cada vez mais fortes.

- O que falta para dar o salto definitivo? As outras seleções também crescem…

É isso mesmo. Agora têm chegado jogadoras novas, jovens, vindas da seleção sub-23 ou que se destacam na Liga, e isso traz qualidade e frescura. Temos um grupo que se conhece muito bem, porque jogamos juntas há muito tempo. As mais experientes continuam a passar-nos conhecimento e nós temos de aproveitar isso, tirar o máximo delas, para conseguirmos melhorar e atingir o mesmo nível ou ainda melhor.

A visão de Andreia Faria sobre a Seleção
A visão de Andreia Faria sobre a SeleçãoOpta by Stats Perform, UEFA

- Agora vem aí a qualificação para o Mundial. Na vossa cabeça, já não existe outro cenário senão qualificar.

É isso mesmo. Já não é novidade: para nós é uma obrigação. Já fomos a um, temos de estar outra vez no segundo.

- E vir agora à seleção é mais especial por estar fora? Vive essas chamadas de outra forma?

Sim, sem dúvida. É uma oportunidade de regressar ao meu país, ver a família, aproveitar algum tempo para estarmos juntos e matar saudades. É positivo, porque vou representar o meu país e ainda posso estar com a família.

- Como é vestir as cores da seleção?

É um orgulho. É um sentimento inexplicável. É algo que todas as meninas que começam a jogar ambicionam: representar a seleção nacional ao mais alto nível. Temos de agradecer e continuar a trabalhar para poder voltar a ser convocadas.

Andreia Faria assinou contrato até 2027
Andreia Faria assinou contrato até 2027Al Nassr FC

"Tenho de agradecer muito ao futebol"

- Como imagina o seu futuro?

Quero cumprir o contrato e ajudar a equipa com o máximo rendimento. Depois logo se verá. Com 27 anos continuarei jovem e poderei regressar à Europa ou ficar, dependendo do que for melhor para mim.

- O que diria ao futebol se fosse uma pessoa?

Tinha de lhe agradecer muito. Essa pessoa seria a minha melhor amiga, porque durante muito tempo o futebol motivou-me para tudo. Nos dias menos felizes, estava lá: eu tinha sempre duas horinhas para aliviar, para fazer outra coisa. É como um melhor amigo.

Os próximos jogos do Al Nassr
Os próximos jogos do Al NassrFlashscore

- No dia em que decidir colocar um ponto final na sua carreira, como gostaria de ser recordada?

Como alguém dedicado e com um plano estruturado, um exemplo para as mais novas perceberem a importância de conciliar futebol e estudos.

- Para fechar: qual a sua visão para o futuro do futebol no feminino?

Vai continuar a crescer muito. Pode não atingir os valores do futebol masculino, mas a evolução será cada vez mais visível comparando com há dez anos.