Indonésia com Igor Rodrigues: "Há uma ideia muito errada sobre o futebol indonésio"

Igor Rodrigues representa o Persita, da Indonésia
Igor Rodrigues representa o Persita, da IndonésiaArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash pelo Mundo está de regresso ao Flashscore. Neste espaço, traremos entrevistas exclusivas com portugueses que elevam bem alto a bandeira nacional além-fronteiras. O nosso 13.º convidado é Igor Rodrigues, guarda-redes do Persita Tangerang, da Indonésia.

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O futebol é um mundo de oportunidades. Igor Rodrigues nunca passou pela formação dos grandes clubes, mas isso não o impediu de alcançar, com muito trabalho, o seu maior sonho: tornar-se jogador profissional.

Construiu uma carreira sólida na Segunda Liga portuguesa, onde soma 99 jogos, até sentir que o passo seguinte teria de ser dado fora do país. Seguiu então para o Azerbaijão e, mais tarde, para a Indonésia, onde atualmente representa o Persita Tangerang.

Num futebol distante dos holofotes europeus, Igor tem encontrado felicidade e reconhecimento. A prova disso é um mural pintado em sua homenagem, símbolo da ligação criada com os adeptos locais.

Igor Rodrigues faz um retrato do futebol na Indonésia
Igor Rodrigues faz um retrato do futebol na IndonésiaOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

"Indonésia? Estou muito satisfeito com a minha decisão"

- Como está a correr a experiência na Indonésia?

A experiência tem sido muito positiva. Gosto muito de viver aqui. A Indonésia é um país ao qual é necessário adaptar-se, algo que quem já cá viveu ou conhece bem sabe. No entanto, depois dessa adaptação ao modo de vida e às pessoas, torna-se um país muito bom para viver.

- Quando recebe a chamada do clube ou do empresário a falar da Indonésia, o que pensou?

Eu estava no Azerbaijão, a terminar contrato, quando surgiu a possibilidade de ir para a Indonésia. Não era o Persita, mas outro clube. Antes de decidir, falei quase duas horas com o Sérgio Silva, que já tinha estado no país, para perceber melhor a realidade local. Ele disse-me: “Igor, é bom, mas tens de vir com a mente aberta.” E, normalmente, nunca é bom quando dizem isto (risos).

Acabei por não avançar nessa primeira abordagem, mas fiquei com uma ideia mais clara do país e do mercado. Mais tarde, já com uma proposta de renovação no Azerbaijão, acabei por aceitar ir para outro clube na Indonésia.

Tive algum receio, porque é um país pouco conhecido e difícil de obter informação, mas o apoio do Sérgio foi fundamental. Falei também com a minha mãe, que me disse que, estando fora, tanto faz estar em França ou na Indonésia. Foi com essa mentalidade que vim e hoje estou muito satisfeito com a decisão.

- Correspondeu tudo à expectativa?

Vimos de Portugal, onde o futebol é muito profissional e altamente regulamentado. Quando chegamos a países como este, nota-se uma diferença clara na forma de estar. Aqui, por exemplo, nos jogos fora, fazemos o treino oficial no estádio no dia anterior, mas depois do jogo, apesar de estarmos em estágio, é normal os jogadores irem jantar fora ou beber um café com pessoas que conhecem na cidade. Em Portugal isso seria mal visto, associado a falta de concentração. Aqui é encarado com naturalidade. Os jogadores levam roupa sem identificação do clube e, desde que estejam a horas para a viagem no dia seguinte, não há qualquer problema.

- Como é o campeonato, as infraestruturas e os relvados?

Em termos de condições, a principal diferença que notei foi a relva. É bastante grossa, provavelmente por causa do clima, o que faz com que a bola pare mais e o jogo seja menos fluído. Os campos não são regados o suficiente para permitir que a bola deslize, o que abranda o ritmo, tanto no passe como na receção.

Quanto às infraestruturas, os clubes têm, no essencial, tudo o que é necessário, embora não ao nível do que existe na Europa. No Persita, por exemplo, equipamo-nos no estádio e temos um campo de treino próprio, usando tanto um como o outro para treinar. Joguei muitos anos na Segunda Liga e há clubes que nem sequer tinham estas condições, recorrendo a campos emprestados, pelo que não é algo assim tão comum.

- E os jogadores locais?

O jogador indonésio tem pouca formação. Pelo que conheço, a competição organizada só começa a partir dos sub-16, o que é muito diferente de Portugal, onde existe um campeonato estruturado desde idades mais baixas. Essa diferença reflete-se na maturação dos jogadores quando chegam ao escalão sénior.

Em termos de atitude, dão tudo em campo. No entanto, ao nível do conhecimento táctico e da tomada de decisão, nota-se essa falta de formação, que acaba por ser a principal lacuna.

- O mesmo se aplica aos guarda-redes?

A realidade é semelhante. Sempre tive treinador de guarda-redes, o que faz muita diferença. Mesmo quando o nível é variável, ter alguém responsável por planear o treino é muito melhor do que serem os próprios guarda-redes a treinar entre si.

No Azerbaijão acontecia o mesmo. A posição de guarda-redes foi, provavelmente, a que mais evoluiu nos últimos dez anos e, com isso, evoluiu também a figura do treinador de guarda-redes. Antigamente, muitas vezes era o adjunto que batia algumas bolas; hoje, o treinador de guarda-redes faz parte integrante da equipa técnica.

Igor partilha o balneário com um... Mario Jardel
Igor partilha o balneário com um... Mario JardelArquivo Pessoal

Mario Jardel da Indonésia e redes sociais: "Estão dez anos à frente"

- Olhando para o plantel, há um jogador indonésio chamado Mário Jardel. Já percebeu se há alguma relação com o Mário Jardel, antigo goleador de FC Porto e Sporting?

Nunca perguntei, por acaso. Aqui há alguma dificuldade com a língua: alguns jogadores falam inglês, mas de forma muito limitada. Mesmo quando falo inglês corretamente, muitas vezes não entendem, por isso tenho de simplificar bastante.

O Jardel é lateral esquerdo e comunicamos sobretudo com algumas palavras básicas em indonésio. Quando tento explicar algo mais complexo em inglês, ele acena que sim, mas percebo que não está a acompanhar. Por isso, nunca cheguei a perguntar. Posso fazê-lo, mas não sei se ele vai perceber (risos).

- E o defesa Guseynov, do Uzbequistão. Portugal vai jogar contra o Uzbequistão. Já falou com ele sobre isso?

Sim, falei com ele. Ele fala muito bem inglês e perguntei-lhe como era a seleção do Uzbequistão. Disse-me que não está ao nível de Portugal, mas que no futebol nunca se sabe. Sei que têm um jogador do Manchester City e outros em bons clubes, mas, honestamente, não conheço muito bem a equipa.

Os números de Igor Rodrigues
Os números de Igor RodriguesFlashscore

- Fale-nos sobre o nível de competitividade do campeonato? Há equipas que se destacam ou é equilibrado?

Costumo dizer que o campeonato indonésio se assemelha à Segunda Liga portuguesa. Há equipas grandes, candidatas ao título, outras que lutam pela manutenção, mas qualquer equipa pode ganhar a qualquer outra.

É um campeonato em que se perdem muitos pontos. Em 34 jogos, normalmente são precisos cerca de 70 pontos para ser campeão, sendo o recorde perto dos 75. Isso mostra o equilíbrio e a dificuldade em prever resultados jornada após jornada.

- E os adeptos? Há muitas histórias de limites ultrapassados.

Os adeptos gostam muito de futebol. Nunca tive problemas, sinceramente.

- Quantas pessoas costumam ter, em média, nos jogos em casa?

Cerca de quatro a cinco mil, dependendo do horário. O Persija, por ser da capital, tem muito mais. Na nossa estreia no campeonato, em casa deles, estavam mais de trinta mil pessoas.

- Um aspeto que salta à vista é a forma como os clubes trabalham as redes sociais. O que tem a dizer sobre isso?

Sem dúvida. Costumo dizer que, a nível de redes sociais, estão dez ou quinze anos à frente de Portugal e da Europa. Quando viajamos para jogar fora, vão sempre dois ou três profissionais de comunicação com a equipa, como fotógrafo e videomaker, e acompanham toda a viagem. Há produção constante de conteúdos.

A homenagem feita a Igor
A homenagem feita a IgorArquivo Pessoal

Mural de homenagem: "Cheguei a achar que era a inteligência artificial"

- O Igor foi homenageado com a pintura de um mural. Pode explicar-nos como é que tudo aconteceu?

Foi engraçado. Acordei de manhã e comecei a receber mensagens e notificações. Quando vi as imagens, cheguei a achar que era inteligência artificial. Só depois, ao ver melhor, percebi que era mesmo um homem a pintar o mural.

Pedi o vídeo, perguntando se o podia partilhar, e confirmaram-me que sim. Fiquei muito surpreendido e feliz. Foi uma homenagem que me deixou muito grato, até porque nunca me tinham feito nada semelhante.

Acabei por ir ver o mural, que fica relativamente longe de onde moro, numa zona de Tangerang. Apesar de não serem muitos quilómetros, demorei quase duas horas, por causa das estradas estreitas, do trânsito intenso e da quantidade de motas.

Aquilo que se vê nos vídeos é mesmo verdade: motas com duas, três ou até quatro pessoas (risos). Aqui conduz-se do lado esquerdo e a adaptação não é fácil. Lembro-me de, na primeira vez que fui ao estádio, pensar que nunca iria conseguir conduzir aqui.

- Conseguiu perceber a motivação do artista?

Não perguntei. Fiquei apenas grato pela homenagem. Eles devem ter a sua explicação, mas não cheguei a percebê-la, até porque não falavam inglês.

Passagem pelo Azerbaijão: "Se não fosse naquele momento..."

- Voltando ao momento em que decide ir para fora, o que o motivou a ir para o Azerbaijão?

Tinha 28 anos, tinha acabado contrato com o Feirense e senti que, se não fosse naquele momento, talvez nunca fosse. Disse à minha esposa que era agora ou nunca. Nesse ano tive três propostas da Segunda Liga, incluindo uma de um ex-treinador, mas deixei claro que queria experimentar jogar fora. Acabei por esperar e perdi algum mercado, porque a oportunidade não surgiu de imediato.

O Azerbaijão apareceu através de um pré-contrato. Assinei, enviaram-me a viagem e fui. O clube era o Kapaz, de Ganja, a segunda maior cidade do país, a cerca de quatro horas de carro de Baku. Curiosamente, quando cheguei a Ganja recebi uma proposta de Israel, financeiramente melhor, e com a possibilidade de rescindir esse pré-contrato e viajar de imediato.

Pensei bem, falei com a minha esposa e com pessoas de confiança, mas decidi ficar. Sentia que o clube tinha sido correto comigo e não quis voltar atrás. Um mês depois, acabou por rebentar a guerra em Israel.

Ainda antes disso, durante a viagem, soube que tinha havido ataques entre a Arménia e o Azerbaijão. Falei com um colega que já lá estava, que me tranquilizou, e avancei. Foi uma decisão ponderada, mas da qual nunca me arrependi.

- Qual o balanço dessa experiência no Azerbaijão?

Gostei muito do Azerbaijão, embora a realidade seja bastante diferente da Indonésia. Há poucos adeptos e o futebol não tem a mesma importância no dia a dia das pessoas.

Quando cheguei, o clube tinha dois bons campos de treino e estava a construir um novo estádio, que só ficou concluído mais tarde. No entanto, as condições iniciais surpreenderam-me pela negativa, sobretudo o facto de nos equiparmos num contentor, algo que não era o que eu esperava. Eu até disse ao Latyr, com quem tinha jogado em Portugal: "Podias terdito que era assim". E ele: "Igor, se eu dissesse, tu não vinhas" (risos). Três ou quatro meses depois, mudámos para a academia, que estava a ser finalizada, e aí a situação melhorou. 

Apesar disso, guardo uma experiência muito positiva. As pessoas foram extraordinárias e foi uma época que me marcou.

Os próximos jogos do Persita
Os próximos jogos do PersitaFlashscore

- Foi a melhor decisão sair?

Nunca vou saber (risos). Tomamos sempre decisões a achar que são as melhores no momento. Gostei muito do Azerbaijão e gosto muito de estar aqui. Para mim, foi uma decisão acertada.

- E o futuro?

No futebol não há certezas. Tenho contrato por mais um ano e, à partida, vou cumpri-lo. Depois logo se vê. Não sei o que pode surgir, se aqui ou noutro lado. As decisões tomam-se quando as oportunidades aparecem.

Acho também que há uma ideia muito errada sobre a Indonésia. Muitas pessoas pensam que “acabou o futebol”, mas não é verdade. O nível é mais baixo do que em Portugal, mas, em certos aspetos, é até mais difícil jogar aqui. Em Portugal, há um conhecimento tático que permite antecipar muito mais o jogo. Aqui isso não acontece da mesma forma.

No entanto, a partir do momento em que estás adaptado, percebes melhor o contexto, o que podes e não podes fazer. E isso não é exclusivo da Indonésia: acontece em qualquer país. É sempre preciso adaptar a forma de jogar.

Igor Rodrigues em destaque na Indonésia
Igor Rodrigues em destaque na IndonésiaArquivo Pessoal

"Levei umas luvas de lã, o treinador olhou para mim e disse: 'Já que estás de luvas, vais à baliza'"

- Igor, voltando ainda mais atrás, foi fácil o caminho até chegar a jogador profissional?

Fácil nunca é. Ao mesmo tempo, é uma paixão. Se olharmos para o meu percurso, na formação o clube com mais nome foi o Leixões; não passei por Benfica, Sporting, FC Porto, SC Braga ou Vitória SC. Sempre encarei o futebol como uma paixão. Quis ser jogador desde cedo e nunca escondi isso.

- E sempre guarda-redes?

Comecei no futebol no segundo ano da escola. No primeiro ano, a escola era mesmo ao lado do campo do Marrazes e eu tinha vários colegas que jogavam lá. Passei meses a pedir à minha mãe para ir, mas ela tinha medo que eu me magoasse, dizia que via os mais velhos a levar muitas pancadas.

No segundo ano, ela aceitou ir comigo “só para ver”. Enquanto falava com alguém conhecido, os meus colegas chamaram-me para brincar. Entrei no treino e o treinador integrou-me como se já fosse da equipa. A minha mãe acabou por não me chamar, para não interromper, e foi assim que comecei.

Um dia, levei umas luvas de lã para a escola porque estava frio e fui direto para o treino com elas. O treinador olhou para mim e disse: “Já que estás de luvas, vais à baliza.” Fui, e a partir daí fiquei sempre.

Nos sub-12 ainda tentei mudar para jogador de campo. Fui falar com o treinador e disse-lhe que não queria mais ser guarda-redes. Ele deixou-me tentar, mas no sábado seguinte fiquei fora da convocatória. Fui falar com ele e foi claro: se quisesse ser convocado, tinha de ir à baliza. Acabei por aceitar.

Se calhar foi a minha sorte, porque se tivesse insistido, talvez hoje não estivéssemos a ter esta conversa.

- Com o passar dos anos, quando é que percebe que pode ser possível chegar a profissional?

Foi um processo longo. Jogava nos juvenis do Pombal, no segundo ano, e fiz uma boa época, mesmo com a equipa a descer de divisão. Tinha feito quase toda a formação no Marrazes, mas nesse ano quis jogar nos nacionais e o Pombal tinha subido. Fui para lá apenas uma época.

Correu bem, ao ponto de ir treinar ao Sporting no inverno e, no final da época, surgiu a oportunidade do Leixões. Foi a primeira vez que saí de casa. A equipa tinha muita qualidade e aí comecei a perceber que também queria aquilo para mim, que podia estar naquele nível.

Pouco depois, lesionei-me com gravidade, fraturei uma vértebra, e o Leixões achou que o melhor era regressar a casa para recuperar. Eu já tinha deixado a escola para me dedicar totalmente ao futebol, uma decisão difícil, sobretudo porque a minha mãe é professora. De repente, fiquei sem escola e sem futebol, o que foi um período muito duro.

Mais tarde fui para o Tocha, da segunda divisão, por iniciativa do mister Miguel, uma das melhores pessoas que conheci no mundo do futebol e fundamental na minha carreira. Acreditou em mim numa fase complicada e ainda hoje é alguém com quem falo sempre antes de tomar decisões. Costumo dizer que é o meu pai no futebol. Gostava muito de voltar a trabalhar com ele, agora com outra maturidade.

Igor cumpre segunda temporada na Indonésia
Igor cumpre segunda temporada na IndonésiaArquivo Pessoal

"O futebol fez de mim a pessoa que sou hoje"

- Depois de tudo o que viveu, se o futebol fosse uma pessoa e o encontrasse na rua, o que lhe diria?

O futebol fez de mim a pessoa que sou hoje. Não há muito a acrescentar. Ganhei muita coisa, perdi outras tantas, mas tudo isso ajudou a construir quem sou. Por isso, a única coisa que lhe diria seria obrigado, pelo que me permitiu viver.

- E quando a sua carreira terminar, o que gostaria que dissessem quando perguntassem: “Quem foi o Igor Rodrigues?”

Gostava de poder estar tranquilo comigo próprio. Imagino-me um dia sentado à lareira e a pensar que fui tudo o que podia ter sido. Que fiz o meu melhor, independentemente das decisões que tomei ao longo do caminho.

As escolhas podiam ter sido diferentes e o percurso também, mas o mais importante é não ficar com o peso do “e se”. Quero ter a consciência tranquila de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para ser o melhor que podia.

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