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O futebol é um mundo de oportunidades. Igor Rodrigues nunca passou pela formação dos grandes clubes, mas isso não o impediu de alcançar, com muito trabalho, o seu maior sonho: tornar-se jogador profissional.
Construiu uma carreira sólida na Segunda Liga portuguesa, onde soma 99 jogos, até sentir que o passo seguinte teria de ser dado fora do país. Seguiu então para o Azerbaijão e, mais tarde, para a Indonésia, onde atualmente representa o Persita Tangerang.
Num futebol distante dos holofotes europeus, Igor tem encontrado felicidade e reconhecimento. A prova disso é um mural pintado em sua homenagem, símbolo da ligação criada com os adeptos locais.

"Indonésia? Estou muito satisfeito com a minha decisão"
- Como está a correr a experiência na Indonésia?
A experiência tem sido muito positiva. Gosto muito de viver aqui. A Indonésia é um país ao qual é necessário adaptar-se, algo que quem já cá viveu ou conhece bem sabe. No entanto, depois dessa adaptação ao modo de vida e às pessoas, torna-se um país muito bom para viver.
- Quando recebe a chamada do clube ou do empresário a falar da Indonésia, o que pensou?
Eu estava no Azerbaijão, a terminar contrato, quando surgiu a possibilidade de ir para a Indonésia. Não era o Persita, mas outro clube. Antes de decidir, falei quase duas horas com o Sérgio Silva, que já tinha estado no país, para perceber melhor a realidade local. Ele disse-me: “Igor, é bom, mas tens de vir com a mente aberta.” E, normalmente, nunca é bom quando dizem isto (risos).
Acabei por não avançar nessa primeira abordagem, mas fiquei com uma ideia mais clara do país e do mercado. Mais tarde, já com uma proposta de renovação no Azerbaijão, acabei por aceitar ir para outro clube na Indonésia.
Tive algum receio, porque é um país pouco conhecido e difícil de obter informação, mas o apoio do Sérgio foi fundamental. Falei também com a minha mãe, que me disse que, estando fora, tanto faz estar em França ou na Indonésia. Foi com essa mentalidade que vim e hoje estou muito satisfeito com a decisão.
- Correspondeu tudo à expectativa?
Vimos de Portugal, onde o futebol é muito profissional e altamente regulamentado. Quando chegamos a países como este, nota-se uma diferença clara na forma de estar. Aqui, por exemplo, nos jogos fora, fazemos o treino oficial no estádio no dia anterior, mas depois do jogo, apesar de estarmos em estágio, é normal os jogadores irem jantar fora ou beber um café com pessoas que conhecem na cidade. Em Portugal isso seria mal visto, associado a falta de concentração. Aqui é encarado com naturalidade. Os jogadores levam roupa sem identificação do clube e, desde que estejam a horas para a viagem no dia seguinte, não há qualquer problema.
- Como é o campeonato, as infraestruturas e os relvados?
Em termos de condições, a principal diferença que notei foi a relva. É bastante grossa, provavelmente por causa do clima, o que faz com que a bola pare mais e o jogo seja menos fluído. Os campos não são regados o suficiente para permitir que a bola deslize, o que abranda o ritmo, tanto no passe como na receção.
Quanto às infraestruturas, os clubes têm, no essencial, tudo o que é necessário, embora não ao nível do que existe na Europa. No Persita, por exemplo, equipamo-nos no estádio e temos um campo de treino próprio, usando tanto um como o outro para treinar. Joguei muitos anos na Segunda Liga e há clubes que nem sequer tinham estas condições, recorrendo a campos emprestados, pelo que não é algo assim tão comum.
- E os jogadores locais?
O jogador indonésio tem pouca formação. Pelo que conheço, a competição organizada só começa a partir dos sub-16, o que é muito diferente de Portugal, onde existe um campeonato estruturado desde idades mais baixas. Essa diferença reflete-se na maturação dos jogadores quando chegam ao escalão sénior.
Em termos de atitude, dão tudo em campo. No entanto, ao nível do conhecimento táctico e da tomada de decisão, nota-se essa falta de formação, que acaba por ser a principal lacuna.
- O mesmo se aplica aos guarda-redes?
A realidade é semelhante. Sempre tive treinador de guarda-redes, o que faz muita diferença. Mesmo quando o nível é variável, ter alguém responsável por planear o treino é muito melhor do que serem os próprios guarda-redes a treinar entre si.
No Azerbaijão acontecia o mesmo. A posição de guarda-redes foi, provavelmente, a que mais evoluiu nos últimos dez anos e, com isso, evoluiu também a figura do treinador de guarda-redes. Antigamente, muitas vezes era o adjunto que batia algumas bolas; hoje, o treinador de guarda-redes faz parte integrante da equipa técnica.

Mario Jardel da Indonésia e redes sociais: "Estão dez anos à frente"
- Olhando para o plantel, há um jogador indonésio chamado Mário Jardel. Já percebeu se há alguma relação com o Mário Jardel, antigo goleador de FC Porto e Sporting?
Nunca perguntei, por acaso. Aqui há alguma dificuldade com a língua: alguns jogadores falam inglês, mas de forma muito limitada. Mesmo quando falo inglês corretamente, muitas vezes não entendem, por isso tenho de simplificar bastante.
O Jardel é lateral esquerdo e comunicamos sobretudo com algumas palavras básicas em indonésio. Quando tento explicar algo mais complexo em inglês, ele acena que sim, mas percebo que não está a acompanhar. Por isso, nunca cheguei a perguntar. Posso fazê-lo, mas não sei se ele vai perceber (risos).
- E o defesa Guseynov, do Uzbequistão. Portugal vai jogar contra o Uzbequistão. Já falou com ele sobre isso?
Sim, falei com ele. Ele fala muito bem inglês e perguntei-lhe como era a seleção do Uzbequistão. Disse-me que não está ao nível de Portugal, mas que no futebol nunca se sabe. Sei que têm um jogador do Manchester City e outros em bons clubes, mas, honestamente, não conheço muito bem a equipa.

- Fale-nos sobre o nível de competitividade do campeonato? Há equipas que se destacam ou é equilibrado?
Costumo dizer que o campeonato indonésio se assemelha à Segunda Liga portuguesa. Há equipas grandes, candidatas ao título, outras que lutam pela manutenção, mas qualquer equipa pode ganhar a qualquer outra.
É um campeonato em que se perdem muitos pontos. Em 34 jogos, normalmente são precisos cerca de 70 pontos para ser campeão, sendo o recorde perto dos 75. Isso mostra o equilíbrio e a dificuldade em prever resultados jornada após jornada.
- E os adeptos? Há muitas histórias de limites ultrapassados.
Os adeptos gostam muito de futebol. Nunca tive problemas, sinceramente.
- Quantas pessoas costumam ter, em média, nos jogos em casa?
Cerca de quatro a cinco mil, dependendo do horário. O Persija, por ser da capital, tem muito mais. Na nossa estreia no campeonato, em casa deles, estavam mais de trinta mil pessoas.
- Um aspeto que salta à vista é a forma como os clubes trabalham as redes sociais. O que tem a dizer sobre isso?
Sem dúvida. Costumo dizer que, a nível de redes sociais, estão dez ou quinze anos à frente de Portugal e da Europa. Quando viajamos para jogar fora, vão sempre dois ou três profissionais de comunicação com a equipa, como fotógrafo e videomaker, e acompanham toda a viagem. Há produção constante de conteúdos.

Mural de homenagem: "Cheguei a achar que era a inteligência artificial"
- O Igor foi homenageado com a pintura de um mural. Pode explicar-nos como é que tudo aconteceu?
Foi engraçado. Acordei de manhã e comecei a receber mensagens e notificações. Quando vi as imagens, cheguei a achar que era inteligência artificial. Só depois, ao ver melhor, percebi que era mesmo um homem a pintar o mural.
Pedi o vídeo, perguntando se o podia partilhar, e confirmaram-me que sim. Fiquei muito surpreendido e feliz. Foi uma homenagem que me deixou muito grato, até porque nunca me tinham feito nada semelhante.
Acabei por ir ver o mural, que fica relativamente longe de onde moro, numa zona de Tangerang. Apesar de não serem muitos quilómetros, demorei quase duas horas, por causa das estradas estreitas, do trânsito intenso e da quantidade de motas.
Aquilo que se vê nos vídeos é mesmo verdade: motas com duas, três ou até quatro pessoas (risos). Aqui conduz-se do lado esquerdo e a adaptação não é fácil. Lembro-me de, na primeira vez que fui ao estádio, pensar que nunca iria conseguir conduzir aqui.
- Conseguiu perceber a motivação do artista?
Não perguntei. Fiquei apenas grato pela homenagem. Eles devem ter a sua explicação, mas não cheguei a percebê-la, até porque não falavam inglês.
Passagem pelo Azerbaijão: "Se não fosse naquele momento..."
- Voltando ao momento em que decide ir para fora, o que o motivou a ir para o Azerbaijão?
Tinha 28 anos, tinha acabado contrato com o Feirense e senti que, se não fosse naquele momento, talvez nunca fosse. Disse à minha esposa que era agora ou nunca. Nesse ano tive três propostas da Segunda Liga, incluindo uma de um ex-treinador, mas deixei claro que queria experimentar jogar fora. Acabei por esperar e perdi algum mercado, porque a oportunidade não surgiu de imediato.
O Azerbaijão apareceu através de um pré-contrato. Assinei, enviaram-me a viagem e fui. O clube era o Kapaz, de Ganja, a segunda maior cidade do país, a cerca de quatro horas de carro de Baku. Curiosamente, quando cheguei a Ganja recebi uma proposta de Israel, financeiramente melhor, e com a possibilidade de rescindir esse pré-contrato e viajar de imediato.
Pensei bem, falei com a minha esposa e com pessoas de confiança, mas decidi ficar. Sentia que o clube tinha sido correto comigo e não quis voltar atrás. Um mês depois, acabou por rebentar a guerra em Israel.
Ainda antes disso, durante a viagem, soube que tinha havido ataques entre a Arménia e o Azerbaijão. Falei com um colega que já lá estava, que me tranquilizou, e avancei. Foi uma decisão ponderada, mas da qual nunca me arrependi.
- Qual o balanço dessa experiência no Azerbaijão?
Gostei muito do Azerbaijão, embora a realidade seja bastante diferente da Indonésia. Há poucos adeptos e o futebol não tem a mesma importância no dia a dia das pessoas.
Quando cheguei, o clube tinha dois bons campos de treino e estava a construir um novo estádio, que só ficou concluído mais tarde. No entanto, as condições iniciais surpreenderam-me pela negativa, sobretudo o facto de nos equiparmos num contentor, algo que não era o que eu esperava. Eu até disse ao Latyr, com quem tinha jogado em Portugal: "Podias terdito que era assim". E ele: "Igor, se eu dissesse, tu não vinhas" (risos). Três ou quatro meses depois, mudámos para a academia, que estava a ser finalizada, e aí a situação melhorou.
Apesar disso, guardo uma experiência muito positiva. As pessoas foram extraordinárias e foi uma época que me marcou.

- Foi a melhor decisão sair?
Nunca vou saber (risos). Tomamos sempre decisões a achar que são as melhores no momento. Gostei muito do Azerbaijão e gosto muito de estar aqui. Para mim, foi uma decisão acertada.
- E o futuro?
No futebol não há certezas. Tenho contrato por mais um ano e, à partida, vou cumpri-lo. Depois logo se vê. Não sei o que pode surgir, se aqui ou noutro lado. As decisões tomam-se quando as oportunidades aparecem.
Acho também que há uma ideia muito errada sobre a Indonésia. Muitas pessoas pensam que “acabou o futebol”, mas não é verdade. O nível é mais baixo do que em Portugal, mas, em certos aspetos, é até mais difícil jogar aqui. Em Portugal, há um conhecimento tático que permite antecipar muito mais o jogo. Aqui isso não acontece da mesma forma.
No entanto, a partir do momento em que estás adaptado, percebes melhor o contexto, o que podes e não podes fazer. E isso não é exclusivo da Indonésia: acontece em qualquer país. É sempre preciso adaptar a forma de jogar.

"Levei umas luvas de lã, o treinador olhou para mim e disse: 'Já que estás de luvas, vais à baliza'"
- Igor, voltando ainda mais atrás, foi fácil o caminho até chegar a jogador profissional?
Fácil nunca é. Ao mesmo tempo, é uma paixão. Se olharmos para o meu percurso, na formação o clube com mais nome foi o Leixões; não passei por Benfica, Sporting, FC Porto, SC Braga ou Vitória SC. Sempre encarei o futebol como uma paixão. Quis ser jogador desde cedo e nunca escondi isso.
- E sempre guarda-redes?
Comecei no futebol no segundo ano da escola. No primeiro ano, a escola era mesmo ao lado do campo do Marrazes e eu tinha vários colegas que jogavam lá. Passei meses a pedir à minha mãe para ir, mas ela tinha medo que eu me magoasse, dizia que via os mais velhos a levar muitas pancadas.
No segundo ano, ela aceitou ir comigo “só para ver”. Enquanto falava com alguém conhecido, os meus colegas chamaram-me para brincar. Entrei no treino e o treinador integrou-me como se já fosse da equipa. A minha mãe acabou por não me chamar, para não interromper, e foi assim que comecei.
Um dia, levei umas luvas de lã para a escola porque estava frio e fui direto para o treino com elas. O treinador olhou para mim e disse: “Já que estás de luvas, vais à baliza.” Fui, e a partir daí fiquei sempre.
Nos sub-12 ainda tentei mudar para jogador de campo. Fui falar com o treinador e disse-lhe que não queria mais ser guarda-redes. Ele deixou-me tentar, mas no sábado seguinte fiquei fora da convocatória. Fui falar com ele e foi claro: se quisesse ser convocado, tinha de ir à baliza. Acabei por aceitar.
Se calhar foi a minha sorte, porque se tivesse insistido, talvez hoje não estivéssemos a ter esta conversa.
- Com o passar dos anos, quando é que percebe que pode ser possível chegar a profissional?
Foi um processo longo. Jogava nos juvenis do Pombal, no segundo ano, e fiz uma boa época, mesmo com a equipa a descer de divisão. Tinha feito quase toda a formação no Marrazes, mas nesse ano quis jogar nos nacionais e o Pombal tinha subido. Fui para lá apenas uma época.
Correu bem, ao ponto de ir treinar ao Sporting no inverno e, no final da época, surgiu a oportunidade do Leixões. Foi a primeira vez que saí de casa. A equipa tinha muita qualidade e aí comecei a perceber que também queria aquilo para mim, que podia estar naquele nível.
Pouco depois, lesionei-me com gravidade, fraturei uma vértebra, e o Leixões achou que o melhor era regressar a casa para recuperar. Eu já tinha deixado a escola para me dedicar totalmente ao futebol, uma decisão difícil, sobretudo porque a minha mãe é professora. De repente, fiquei sem escola e sem futebol, o que foi um período muito duro.
Mais tarde fui para o Tocha, da segunda divisão, por iniciativa do mister Miguel, uma das melhores pessoas que conheci no mundo do futebol e fundamental na minha carreira. Acreditou em mim numa fase complicada e ainda hoje é alguém com quem falo sempre antes de tomar decisões. Costumo dizer que é o meu pai no futebol. Gostava muito de voltar a trabalhar com ele, agora com outra maturidade.

"O futebol fez de mim a pessoa que sou hoje"
- Depois de tudo o que viveu, se o futebol fosse uma pessoa e o encontrasse na rua, o que lhe diria?
O futebol fez de mim a pessoa que sou hoje. Não há muito a acrescentar. Ganhei muita coisa, perdi outras tantas, mas tudo isso ajudou a construir quem sou. Por isso, a única coisa que lhe diria seria obrigado, pelo que me permitiu viver.
- E quando a sua carreira terminar, o que gostaria que dissessem quando perguntassem: “Quem foi o Igor Rodrigues?”
Gostava de poder estar tranquilo comigo próprio. Imagino-me um dia sentado à lareira e a pensar que fui tudo o que podia ter sido. Que fiz o meu melhor, independentemente das decisões que tomei ao longo do caminho.
As escolhas podiam ter sido diferentes e o percurso também, mas o mais importante é não ficar com o peso do “e se”. Quero ter a consciência tranquila de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para ser o melhor que podia.
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