Sem querer desrespeitar uma liga que então ocupava o 66.º lugar do ranking, pouco mais do que o benefício financeiro poderia ter motivado a decisão da lenda portuguesa.
Os valores falados na altura - 177 milhões de euros por ano para um jogador de 37 anos - pareciam quase irreais, mas a certeza de que Ronaldo se tornaria o rosto da liga e mostraria a outros jogadores o que estava ao alcance foi claramente um golpe de mestre em termos de marketing.
Primeiro, um pequeno fluxo e depois uma autêntica vaga de talentos do futebol mundial decidiram trocar os clubes onde jogavam pelo Médio Oriente e pela promessa de riquezas nunca antes vistas.
Em poucos meses, as piadas cessaram, embora Ronaldo tenha marcado um autogolo monumental pouco depois, ao proferir um ataque desagradável à Ligue 1, que era manifestamente incorreto.
"A liga saudita é melhor do que a Ligue 1. Em França, só existe o PSG - o resto acabou. Se não acreditam, tentem correr com 39 ou 40 graus e vejam."
Estas palavras foram proferidas na cerimónia dos Global Soccer Awards, que até poderia parecer ter sido criada à medida para Ronaldo ganhar tudo. Não há Bola de Ouro? Recebeu o prémio de 'Melhor jogador do Médio Oriente'. Não há prémio para golos? Foi-lhe atribuído o prémio de 'Melhor marcador de sempre'.
Um profissional exemplar... mas uma atitude questionável
Não se diz isto vezes suficientes, mas aquela cerimónia, tal como muito do que rodeia o jogador, é de uma bajulação extrema, pelo que não admira que, quando as coisas não correm como quer, Ronaldo - e, por extensão, os seus familiares - ainda reaja como se tivesse 10 anos.
Foram várias as ocasiões em campo, por exemplo, em que levantou os braços em fúria porque um colega marcou em vez dele. É, e sempre foi, um profissional exemplar desde o primeiro momento em que pisou o relvado, mas a atitude que demonstra quando algo não está do seu agrado nunca deve ser ignorada.
Agora, de forma quase inacreditável, Ronaldo está a apontar baterias à própria liga saudita. Uma liga que o tornou o primeiro futebolista multimilionário e que, segundo se diz, lhe paga cerca de 488 mil euros por dia.
Aparentemente, ficou desagradado com certas decisões e entrou em greve.
Imagine-se por um instante: um homem prestes a fazer 41 anos, a ganhar quase meio milhão de libras por semana, a fazer birra porque não consegue impor a sua vontade.
Certamente não pode acreditar que é mais importante do que quem paga o desporto. Ele, como qualquer outro jogador, é um empregado e, como tal, tem de aprender a respeitar as decisões dos seus pares.
Um dos pontos que incomodam Ronaldo neste momento é o facto de o seu antigo colega do Real Madrid, Karim Benzema, ter-se transferido para os favoritos da liga, o Al Hilal, no mercado de janeiro, enquanto o Al Nassr não se reforçou verdadeiramente. Isso revela inveja e não lhe fica bem.
O Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), que financia essencialmente as grandes equipas da liga, tornou-se alvo da ira de Ronaldo, aparentemente devido à interferência na gestão que o Al Nassr também sofreu recentemente.
Ronaldo parece acreditar que a sua equipa está a ser preterida em benefício de outras, o que significa que, neste momento, o seu regresso à competição depende apenas da rápida reativação dos poderes da direção do Al Nassr.
É um enorme jogo de braço-de-ferro nesta fase e não seria propriamente surpreendente se este fosse o fim da estrada dourada para a galinha dos ovos de ouro.
Números impressionantes
Se esse cenário se concretizasse, seria de esperar que toda a estrutura da liga saudita acabasse por colapsar e voltasse ao que era antes da chegada em massa de estrangeiros. Para o próprio Ronaldo, isso deixá-lo-ia num limbo futebolístico a poucos meses do Mundial.
É evidente que não há clubes nas principais ligas europeias capazes de se aproximar do seu salário, pelo que não só teria de provar que é melhor do que qualquer avançado que o clube já tenha, como também teria de aceitar uma redução salarial astronómica.
Os seus números continuam a impressionar, naturalmente. 117 golos e 22 assistências em 133 jogos por todas as competições ao serviço do Al Nassr merecem elogios, e o seu atual nível físico ainda envergonharia jogadores com metade da sua idade.
Pode já não ter capacidade para competir nas principais divisões, mas seria sempre injusto criticar o seu profissionalismo.
Mas terá ainda energia suficiente para que algum clube aposte nele?
Estará a chegar ao fim o tempo de Ronaldo?
Quando foi apresentado na Arábia Saudita em 2023, Ronaldo afirmou que o seu "trabalho na Europa estava feito," e que "recusou muitas oportunidades na Europa, no Brasil, na Austrália, nos Estados Unidos e até em Portugal."
Agora, três anos depois dessas declarações, terá queimado pontes tanto noutros países como na Arábia Saudita?
Se não houver uma resolução rápida para o impasse atual, um eventual regresso ao seu primeiro clube, o Sporting, poderá ser a melhor forma de fechar o ciclo. Talvez seja mesmo a única. Esse regresso a casa já terá sido equacionado antes, mas o mais interessante será perceber se as oportunidades de que Ronaldo falou — mas recusou — ainda estarão em cima da mesa.
Se não, estaremos realmente perto de assistir a uma retirada forçada de um dos maiores jogadores de sempre?

