Análise: Atlético-MG prepara sexto treinador na era SAF e falhou todos os alvos portugueses

Eduardo Domínguez vai assumir o comando técnico do Atlético-MG
Eduardo Domínguez vai assumir o comando técnico do Atlético-MGBUDA MENDES / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Com Eduardo Domínguez a caminho, o Atlético-MG terá o sexto treinador desde que o clube transformou-se em SAF, a 1 de novembro de 2023, quando a Galo Holding adquiriu 75% das ações. O clube tem enfrentado dificuldades, não apenas para contratar, mas também para manter treinadores. Talvez os números ajudem a explicar o motivo de algumas recusas.

No período de operação da SAF do Atlético-MG até à demissão de Jorge Sampaoli, passaram-se 2 anos, 3 meses e 11 dias. Nesse intervalo, a média de permanência de um treinador no clube é de aproximadamente 5 meses e 16 dias — ou 166 dias.

O dado evidencia a dificuldade do Galo em manter estabilidade no comando técnico desde a implementação do modelo empresarial.

Sampaoli não resistiu após início negativo de temporada e problemas internos
Sampaoli não resistiu após início negativo de temporada e problemas internosPedro Souza / Atlético

Apesar de relativamente próximo, o número é inferior, por exemplo, à média registada no Botafogo sob a gestão de John Textor, estimada em 181 dias — ou 6 meses.

A conta inclui o interino Lucas Gonçalves, que voltou a assumir a equipa na era SAF. Além de Sampaoli, passaram pelo cargo Luiz Felipe Scolari, Gabriel Milito e Cuca — todos demitidos pela gestão alvinegra.

No Botafogo, por outro lado, houve casos de saídas por iniciativa própria, como as dos portugueses Luís Castro e Artur Jorge, o que altera a natureza da rotatividade.

Ao considerar apenas os treinadores efetivos, a média no Atlético sobe para 234,5 dias (cerca de 7 meses). Ainda assim, nenhum deles completou um ano no cargo.

O mais persistente na era SAF foi mesmo Luiz Felipe Scolari, com 275 dias, seguido por Milito, que permaneceu 256 dias e conduziu a equipa ao vice-campeonato da Libertadores de 2024.

Os treinadores da era SAF no Atlético-MG
Os treinadores da era SAF no Atlético-MGFlashscore / Pedro Souza / Atlético-MG

Em comparação com a SAF do Cruzeiro, o cenário é distinto. Desde a implementação do modelo empresarial — iniciada na gestão de Ronaldo e posteriormente sob Pedro Lourenço — o clube celeste apresentou uma média de 160 dias por treinador no recorte analisado, número também elevado, mas ligeiramente inferior ao do rival mineiro.

Outra SAF que merece comparação é a do Bahia, implementada em 4 de maio de 2023, meses antes da constituição da holding administrativa do Galo.

Em termos de troca de treinadores, o Tricolor de Aço, sob a gestão do City Football Group, apresenta o cenário mais estável entre as sociedades anónimas do futebol brasileiro, com apenas dois técnicos nesse período: o português Renato Paiva, que pediu a demissão em 6 de setembro de 2023, e Rogério Ceni, no comando desde 9 de setembro daquele ano.

Média de permanência de técnicos nas principais SAF do futebol brasileiro
Média de permanência de técnicos nas principais SAF do futebol brasileiroFlashscore / Pedro Souza / Atlético-MG

O Atlético leva vantagem em relação ao Vasco, que soma 11 treinadores — incluindo interinos e o atual Fernando Diniz — desde a implementação da SAF, no início de setembro de 2022. A média de permanência no clube carioca é de 96 dias (cerca de 3 meses).

Considerando apenas os técnicos efetivos, o número sobe para 193,8 dias (aproximadamente 6 meses e 10 dias).

Promessas não cumpridas

Antes mesmo de se consolidar como SAF, o Atlético-MG já vivia um cenário de desgaste com outro treinador, o argentino Eduardo Coudet, atualmente no Deportivo Alavés. À época da escolha por Luiz Felipe Scolari, o então diretor Rodrigo Caetano revelou que a demora na transição para o modelo SAF ampliou o atrito entre a direção e Eduardo Coudet.

Houve a promessa de reforços para o plantel. No entanto, diante das limitações financeiras, o planeamento precisou de ser revisto.

"Em determinado momento, o clube passa ainda por dificuldades financeiras, tanto é que a SAF que estava prevista para entrar no clube em meados de fevereiro desse ano, e vai ser concretizada em 10 de novembro", disse Caetano no podcast do canal Duda Garbi.

Coudet deixou o Atlético-MG antes da implementação da SAF
Coudet deixou o Atlético-MG antes da implementação da SAFPedro Souza/Atlético-MG

"Aí foi uma opção dele fazer um acordo para sair, porque os investimentos não tinham como acontecer mesmo", acrescentou.

A questão dos investimentos tornou-se recorrente desde a implementação da SAF no Atlético-MG. A montagem do plantel — por vezes considerada curta ou tecnicamente desequilibrada por adeptos e analistas — já foi tema na passagem de Cuca, que cobrou publicamente reforços em abril do ano passado, e também teria sido um dos motivos de atrito entre Jorge Sampaoli e a direção.

De acordo com o jornal O Tempo, Sampaoli teria solicitado nomes considerados fora da realidade financeira do clube, como os avançados Marcos Leonardo, Róger Guedes e Luiz Araújo.

O médio Jean Lucas, do Bahia, também estaria na lista. A busca por um trinco gerou igualmente divergências, já que diversos atletas sondados não agradavam ao treinador.

Recusas e espera

O Atlético-MG não costuma manifestar-se oficialmente sobre negociações em andamento. No entanto, desde a implementação da SAF, o clube acumulou recusas de diferentes treinadores, conforme noticiado pela imprensa mineira. Um dos nomes que frequentemente reaparece no radar alvinegro é o do português Carlos Carvalhal.

Outro treinador luso especulado foi Pedro Martins, do Al-Gharafa. Segundo as informações, o técnico está satisfeito no clube do Catar e descartou a possibilidade de assumir o Galo neste momento.

Carlos Carvalhal é um desejo antigo da direção do Galo
Carlos Carvalhal é um desejo antigo da direção do GaloPATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

No ano passado, antes da chegada de Jorge Sampaoli, a direção também sondou Martín Anselmi, hoje no Botafogo e que passou pelo FC Porto. De acordo com a rádio Itatiaia, o técnico argentino recuou devido ao ambiente externo, especialmente perante a repercussão envolvendo a saída de Cuca.

Com o cargo novamente vago, o Atlético-MG teria como prioridade a contratação de um treinador estrangeiro. Nomes como os portugueses Vasco Botelho da Costa, do Moreirense, e Vítor Bruno, antigo adjunto de Sérgio Conceição, foram apontados, mas a escolha recaiu no argentino Eduardo Domínguez, do Estudiantes.

As negociações entre as partes estão encaminhadas, e o desfecho é aguardado com expectativa pelos adeptos alvinegros.

Eduardo Domínguez, do Estudiantes, é a escolha do Atlético-MG
Eduardo Domínguez, do Estudiantes, é a escolha do Atlético-MGJOAQUIN CAMILETTI / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP