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Carlos Vinícius passa por um momento de redescoberta após uma carreira marcada por mudanças de posição, altos e baixos na Europa e um regresso decisivo ao futebol brasileiro. Aos 30 anos, o avançado vive no Grémio um ponto de inflexão raro em carreiras longas e errantes.
Os dois hat-tricks de Carlos Vinícius na Série A desde 2025 não são um dado trivial na história recente do campeonato — é um sinal de impacto. Embalado por esse momento, o camisola 95 chega como uma das principais apostas do Grémio para o duelo com o São Paulo.
De quase desistente a goleador improvável
A trajetória ajuda a explicar o peso deste momento. Maranhense de Bom Jesus das Selvas, Carlos Vinícius esteve perto de abandonar o futebol antes de receber, em 2017, o convite para atuar em Portugal, no Real Sport Clube.
O que parecia uma última tentativa – entre o convite e a viagem passou menos de uma semana – virou ponto de viragem. Seguiram-se o Rio Ave (via empréstimo do Nápoles) e, sobretudo, o Benfica, onde viveu o seu ano mais produtivo na temporada 2019/20, sob o comando de Jorge Jesus.
Há um detalhe pouco comum nessa história: antes de virar avançado, Carlos Vinícius foi defesa durante dois anos e médio defensivo durante um. A mudança definitiva para o ataque, ainda na formação do Palmeiras, em 2015, moldou um jogador com leitura de jogo pouco habitual para quem vive da última bola, como ele mesmo se define.
Europa como aprendizagem, não como auge
Depois do Benfica, os números nunca mais atingiram o mesmo patamar. Tottenham, PSV, Galatasaray, Fulham: clubes grandes, contextos competitivos, mas sempre a sensação de que Carlos Vinícius orbitava o protagonismo sem nunca se fixar nele.
No Tottenham, por exemplo, viveu à sombra de Harry Kane, experiência que ajuda pouco nas estatísticas, mas ensina muito sobre a função e disciplina tática. O regresso ao Brasil, curiosamente, recoloca o avançado sob ordens de um treinador português, Luís Castro — e é aí que a engrenagem volta a girar.

Hat-tricks não são acidentes estatísticos
Dois hat-tricks na Série A não acontecem por acaso. Desde 2016, apenas seis jogadores conseguiram marcar mais de um em toda a carreira no Brasileirão, segundo levantamento do Flashscore. Carlos Vinícius já está nesse grupo.
Entre gremistas, Luis Suárez (2023) e Everton Cebolinha (2017) atingiram este feito uma vez. Do lado do São Paulo, adversário desta jornada, Calleri também figura no ranking, com uma sequência em 2022.
Mais do que a companhia ilustre, o dado aponta para algo maior: hat-tricks são eventos raros num campeonato marcado por jogos equilibrados, relvados irregulares e longos períodos de antijogo, na comparação com o contexto europeu.

Um clube, um contexto, uma função clara
Com dois hat-tricks na Série A — além de mais um no Campeonato Gaúcho —, Carlos Vinícius iguala Keno e Pedro no ranking de jogadores com mais de uma série de golos no Brasileirão desde 2016. Só aparece atrás de Gabigol, com três, e dos líderes Bruno Henrique e Yuri Alberto, ambos com quatro.
Yuri, hoje no Corinthians, fez os seus hat-tricks com duas camisolas diferentes. Foram três em 2021, pelo Internacional, e outro em 2025, já a vestir a camisola alvinegra. Ao todo, o avançado soma nove edições da Série A no currículo.
Bruno Henrique, com 11 edições disputadas, anotou o seu primeiro hat-trick pelo Santos, em 2017. No Flamengo, foram dois em 2019 e um em 2021. Gabigol, por sua vez, marcou um pelo Santos em 2018 e dois pelo Flamengo em 2021. Atualmente, disputa a sua 13.ª edição do Campeonato Brasileiro.
Keno e Pedro têm um dado em comum: fizeram os seus dois hat-tricks com a mesma camisola. No caso de Keno, ambos pelo Atlético-MG, em 2020; já Pedro alcançou o feito pelo Flamengo, em 2022 e 2025. O avançado rubro-negro disputa a sua 11.ª Série A, assim como Keno.
Não se trata de comparar Carlos Vinícius tecnicamente a esses nomes, mas de situá-lo num contexto mais amplo: quando o sistema funciona e a função é clara, o golo aparece naturalmente. No Grémio, é a referência sem precisar de disputar o protagonismo no conjunto de Luís Castro.
O contraste com a Premier League
Os números brasileiros ficam ainda mais eloquentes quando comparados aos da Premier League. Desde 1992/93, os ingleses registaram 403 hat-tricks, com média de 11,85 por temporada. É outro futebol, em quase tudo: relvado , ritmo, tempo útil de jogo.
O recordista inglês é Sergio Agüero, com 12 hat-tricks em 10 edições pelo Manchester City — número tão simbólico que virou estátua em tamanho real no Etihad Stadium. No Brasil, ao contrário, cada hat-trick carrega peso histórico.

O que está em jogo no MorumBis
Quando Grémio e São Paulo se defrontarem esta semana para a 3.ª jornada do Brasileirão, o que estará em campo não é apenas um avançado em boa fase. É um debate antigo do futebol brasileiro: contexto, função e confiança ainda fazem mais diferença do que pedigree ou currículo internacional.
Carlos Vinícius é, hoje, a prova viva disso. Será por toda a temporada?
E de onde vem o termo?
O termo hat-trick surgiu no críquete, no século XIX. Era usado para designar o feito raro de um jogador eliminar três adversários com três arremessos consecutivos, façanha que costumava ser recompensada com a oferta de um chapéu (hat), pago por adeptos ou membros do clube.
A expressão passou a ser adotada também no futebol, mantendo a ideia central de três feitos decisivos na mesma partida — no caso, três golos marcados por um mesmo jogador —, tornando-se sinónimo de desempenho excecional e rapidamente incorporada ao vocabulário desportivo internacional. O hóquei no gelo também usa a expressão.
Os registos históricos indicam que a expressão foi usada pela primeira vez em 1858, quando o arremessador Stevenson acertou três wickets (três estacas de madeira unidas pelo alto) em três bolas consecutivas, conseguindo comprar um chapéu novo, após a arrecadação do dinheiro.
