Do médio destruidor ao construtor: Palmeiras-Fluminense espelha o futebol moderno?

Marlon Freitas e Martinelli em foco
Marlon Freitas e Martinelli em focoFabio Menotti/Palmeiras e Lucas Merçon/Fluminense FC

O duelo entre Palmeiras e Fluminense reflete a transformação do futebol moderno, cada vez mais dependente de médios construtores. Marlon Freitas e Martinelli simbolizam essa nova geração de médios polivalentes, mais responsáveis pela organização do jogo do que pela destruição. Em Barueri, a luta pela liderança do Brasileirão será também um teste de ideias e conceitos táticos.

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“Queremos manter a bola o máximo possível. É por isso que quero jogadores como Xabi e Thiago.” A frase de Pep Guardiola, ainda nos tempos do Bayern Munique, ajuda a explicar uma transformação silenciosa no futebol contemporâneo.

Quando a posse se perde, Xabi Alonso pode até parecer o “pior jogador do mundo” a defender, mas essa nunca foi a função para a qual foi contratado. O que está em causa é a redefinição do médio defensivo: menos marcador por natureza, mais organizador de jogo.

A contratação de Xabi Alonso pelo clube bávaro, em 2015, foi um pedido direto de Guardiola e simboliza essa mudança de paradigma. Peça central da Espanha campeã do Mundo em 2010 e do Europeu em 2012, Xabi representava o médio construtor no estado mais puro, um jogador pensado para controlar o jogo com bola, mesmo que isso implicasse riscos sem ela.

Guardadas as devidas proporções, é essa lógica que ganha força no Brasileirão desta temporada e que estará em campo na próxima madrugada, em Barueri, no duelo entre Palmeiras e Fluminense.

Ações ofensivas e defensivas de Martinelli
Ações ofensivas e defensivas de MartinelliOpta by Stats Perform

Os papéis de Marlon Freitas e Martinelli

Em vez do médio puramente destruidor, as duas equipas apostam em jogadores capazes de organizar, fazer circular a bola e dar ritmo ao jogo, ainda que isso obrigue a compensações coletivas sem ela.

A partir desta chave conceptual, o Brasileirão 2026 ajuda a perceber como esta transformação deixou de ser exceção para se tornar regra. O médio exclusivamente marcador, que durante décadas estruturou o jogo no país, perde espaço para perfis capazes de organizar, acelerar ou pausar a partida conforme o contexto. Não se trata de uma opção estética: é uma exigência funcional do futebol atual.

Essa lógica estará em campo às 00:30, no relvado sintético da casa emprestada do conjunto paulista. Enquanto o Verdão, orientado por Abel Ferreira, aposta em Marlon Freitas como peça central do meio-campo nesta temporada, o Tricolor continua a fazer o jogo nascer desde trás com Martinelli.

Não são jogadores idênticos - nem no estilo, nem no repertório técnico -, mas desempenham funções mais próximas do que distintas.

Ambos encaixam no perfil de médio polivalente, capaz de atuar como primeiro organizador à frente da defesa e, simultaneamente, aparecer em zonas mais adiantadas quando a equipa tem bola. Podem ser classificados como “6” ou “8”, mas a verdade é que essas designações já não explicam totalmente a complexidade do papel que desempenham.

Ações ofensivas e defensivas de Marlon Freitas
Ações ofensivas e defensivas de Marlon FreitasOpta by Stats Perform

Médios que ditam o ritmo

Os números das três primeiras jornadas do Brasileirão reforçam esta leitura. Marlon Freitas e Martinelli estão entre os jogadores com maior participação na circulação de bola das respetivas equipas, funcionando como apoios constantes na fase de construção.

Titulares indiscutíveis até ao momento, ajudam a explicar a capacidade de Palmeiras e Fluminense para controlar a cadência de largos períodos dos encontros. Há, contudo, diferenças claras de comportamento.

Martinelli arrisca mais no drible e surge com frequência em zonas ofensivas, um movimento que se acentuou nos últimos jogos da equipa orientada por Zubeldía, sobretudo após o ajuste com Bernal.

Os números de Martinelli
Os números de MartinelliFlashscore

Marlon Freitas, por sua vez, projeta-se menos no terreno, até pela dinâmica criada com Andreas Pereira, mas participa de forma ativa na construção e na criação de oportunidades para o Verdão.

Na vitória do Fluminense sobre o Grémio por 2-1, os dados tornam essa centralidade evidente. A atuar ao lado de Nonato, Martinelli foi o jogador com mais passes tentados no encontro (80) e também o mais eficaz (94%).

Se a análise se limitar ao último terço do terreno, mais próximo da baliza adversária, volta a liderar: 93% de eficácia em 15 passes. Um indicador claro de que a sua influência não se restringe à saída de bola.

Mapa de passes de Martinelli
Mapa de passes de MartinelliOpta by Stats Perform

Outro ponto de convergência entre o camisola 8 tricolor e Marlon Freitas é o reduzido número de cruzamentos para a área. Nenhum dos dois atua como lançador habitual pelos corredores; a sua função passa por manter o jogo por dentro, aproximar setores e dar continuidade às jogadas.

No caso de Marlon, os dados da época passada, quando liderou vários indicadores ligados à distribuição, foram determinantes para despertar o interesse da equipa técnica portuguesa do Palmeiras.

As estatísticas iniciais de 2026 indicam que esse padrão não só se mantém como, em alguns aspetos, se consolida. Mesmo com apenas três jornadas disputadas, o meio-campo alviverde continua entre os mais eficientes da competição.

Mapa de passes de Marlon Freitas
Mapa de passes de Marlon FreitasOpta by Stats Perform

Escolha ofensiva

Um dado simbólico ajuda a compreender esta escolha estrutural: na final da Libertadores frente ao Flamengo, Abel Ferreira lançou apenas um médio de raiz entre os titulares (Andreas Pereira, considerando Raphael Veiga como um jogador que atua sobretudo mais perto do ataque).

Para o duelo em Barueri, que pode valer a liderança do campeonato, a principal incógnita passa por perceber como será desenhado o meio-campo. A possível entrada de Arias pelo Palmeiras tende a reforçar um modelo que, com bola, se aproxima de um 4-2-4, organização que depois se reajusta sem ela.

A questão central é até que ponto este arranjo potencia um setor sem um médio claramente defensivo.

Do lado do Fluminense, os números de Martinelli no último terço do terreno evidenciam a sua capacidade para alimentar os jogadores mais criativos, precisamente na zona onde os jogos costumam ser decididos.

Ações de Martinelli no último terço
Ações de Martinelli no último terçoOpta by Stats Perform

A dúvida passa por perceber quanto espaço o camisola 8 terá para pensar e jogar perante um adversário que pressiona alto e procura encurtar o campo.

Se Xabi Alonso é hoje apontado como um dos treinadores mais promissores do panorama europeu - e até como possível sucessor de Pep Guardiola no Manchester City -, no Brasil, guardadas as devidas proporções, o debate é semelhante.

Abel Ferreira e Luis Zubeldía partilham uma leitura sofisticada do jogo e sabem que libertar os seus médios construtores exige compensações coletivas bem trabalhadas.

Ações de Marlon Freitas no último terço
Ações de Marlon Freitas no último terçoOpta by Stats Perform

Ambos concordam num ponto essencial: a pressão iniciada pelos avançados tem peso decisivo neste xadrez tático. Num confronto direto pelo topo da tabela, não será apenas a qualidade com bola a definir o jogo, mas também a capacidade de a proteger - e de a recuperar - no momento certo.

E, olhando para os outros dois líderes pontuais da Série A, São Paulo e Bahia, o raciocínio é semelhante. No tricolor paulista, Hernán Crespo tem utilizado Bobadilla, Danielzinho e Marcos Antônio, nenhum deles dedicado exclusivamente ao desarme ou à proteção da linha defensiva.

Já no tricolor baiano, Rogério Ceni aposta igualmente num meio-campo de toque e circulação, com Acevedo, Everton Ribeiro e Jean Lucas.