Exclusivo com Juan, o ex-São Paulo que brilha na Turquia e sonha com a Premier League

Juan já superou a boa marca da última temporada pelo Goztepe
Juan já superou a boa marca da última temporada pelo GoztepeTrendyol Superlig

O avançado Juan deixou o São Paulo no meio de 2024, aos 21 anos, à procura de novos ares. Sabia do seu potencial e o desejo de jogar fora do país falou ainda mais alto quando recebeu proposta do Southampton, de Inglaterra. Apesar da oferta, a ideia era ser imediatamente emprestado ao Goztepe para ganhar minutos e mostrar o seu valor.

A experiência na Turquia correu tão bem que o Goztepe o adquiriu em agosto do ano passado, até 2029, após Juan mostrar o seu potencial. O desejo de jogar na Premier League continua presente, mas sabia que a decisão tinha sido a melhor, para dar continuidade ao bom momento num clube que tem a clara proposta de dar espaço a jovens valores e lucrar com as suas vendas futuras para mercados ainda maiores.

Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, Juan fala da gratidão ao São Paulo, das aprendizagens táticas e de como ainda pode desenvolver-se para dar passos ainda maiores na carreira. Na atual temporada, soma seis golos e três assistências em 20 jogos na liga turca, números praticamente iguais aos que teve na sua primeira temporada (sete golos e três assistências) em 27 jogos, mostrando uma importante evolução.

Os dados recentes têm tudo para serem ainda melhores até ao final da temporada, sendo que o Goztepe até já recusou uma oferta do Lille, da Ligue 1.

Os números de Juan
Os números de JuanFlashscore

- O que o motivou a deixar o São Paulo?

- Eu gostaria de ter mais minutos, gostaria de me desenvolver fora do país. Sempre tive esse desejo, desde a formação. Pelo cenário que eu vivia dentro do clube, eu sentia que era o momento de sair e ganhar esses minutos. Sou muito grato ao São Paulo, creio que saí pela porta da frente. Tenho muitos amigos lá, saí muito bem com a direção na época, acho que todos entenderam que era o melhor momento para mim.

- Tinha mais propostas de fora? O que o chamou à atenção no projeto do Goztepe? 

- Tive algumas situações para dentro e fora do país. Mas o meu objetivo era, de facto, poder desenvolver-me no futebol estrangeiro. Foi uma escolha que eu tive naquele momento. Quando apareceu a oportunidade do Southampton, foi uma proposta com o plano de carreira ideal que eu precisava, sempre tive o desejo de estar num nível do futebol inglês, da Premier League. Quando houve essa oportunidade do Southampton, com o empréstimo para a Turquia, eu entendi junto com o meu staff, que era algo bom para mim, pensando no meu desenvolvimento e no meu início de carreira. 

- Chegou ao São Paulo com 16 anos, virou profissional aos 17. Foi antes do que imaginava?

- Eu cheguei ao São Paulo com 16 anos, após sair do União Barbarense. Quando eu chego ao São Paulo, as coisas acontecem de maneira muito rápida. Sou muito grato por isso, porque assim que eu chego, começo a conquistar títulos e a marcar golos importantes na formação. E aí já começa também um novo ciclo, que foi o processo de chamada às seleções jovens, que se tornaram frequentes. 

- O que aprendeu com Fernando Diniz, um técnico que tem preferência pela saída de bola desde o guarda-redes?

- No final de 2019, após voltar de uma lesão, eu sou chamado para complementar treinos na equipa profissional. Num desses treinos, o Diniz gosta do meu treino e convida-me para ficar ali por uma semana. Num jogo do Paulista, eu fui um de vários jogadores da equipa de formação que foram convidados. Para minha surpresa, fui titular e estive muito bem. Com o Diniz, aprendemos muito pela forma como ele jogava. Esse estilo de jogo ensinou-nos muito sobre ter coragem e foi um ano de muita aprendizagem para mim, que gerou grandes perspetivas para a minha carreira. 

- Foi adquirido pelo Southampton e logo emprestado ao Goztepe. Ficou dececionado por não ter tido a hipótese de jogar na Premier League?

- Com certeza, eu tinha o desejo de jogar na Premier League. Eu fui emprestado, mas almejava regressar ao clube que me tinha contratado. Eu continuo com o desejo de jogar lá, sei que um dia posso jogar em Inglaterra. Não foi uma deceção, principalmente depois da minha primeira temporada aqui no Goztepe.

Eu entendia que precisava de começar a construir a minha própria identidade. No Goztepe, tenho jogado e tido bons números. Nada impede o meu regresso à Premier League. 

- O Rômulo, ex-Athletico-PR, estava no Goztepe e hoje está no Leipzig. Isso mostra como é possível ir para uma liga maior. É algo que almeja a curto prazo?

- Ele é a prova de que estamos no caminho certo, mostra como é possível abrir portas, dar um salto maior na carreira. O Goztepe tem uma mentalidade clara que vai ao encontro do meu desejo.

Aqui tenho ganhado minutos e conseguido apresentar bons números. A decisão de ter saído do Southampton em definitivo e ficado no Goztepe foi a pensar no plano de carreira. Isso não me impede de voltar a Inglaterra, tenho o desejo de, um dia, estar na Premier League.

Goztepe já recusou proposta do Lille pelo brasileiro
Goztepe já recusou proposta do Lille pelo brasileiroGoztepe

Ter sido contratado por um clube inglês deixou essa vontade de querer apresentar o meu futebol por lá. Mas também entendo que tomei uma decisão muito inteligente, já estava ambientado aqui na Turquia. Sou feliz aqui, naquele momento foi a melhor decisão. A minha família também está muito bem por aqui. 

Acredito que daqui eu posso construir caminhos para Premier League, em qualquer equipa. O Rômulo, que estava aqui no Goztepe, hoje está no Leipzig. Isso mostra como que é possível chegarmos a lugares maiores. Trabalho sempre a pensar em dar um salto maior na carreira e aqui não é diferente.

- O que chamou a sua atenção desde que chegou à Europa? Quais as principais aprendizagens?

- A velocidade e a intensidade do jogo são diferentes do Brasil, os relvados são muito rápidos também. Num primeiro momento, sentimos dificuldades até para controlar uma bola

Isso tudo gera uma outra visão do jogo. Foi uma mudança positiva, mesmo demorando para entender e me habituar. A grande maioria dos campos da liga são muito bons. Isso é algo que me chamou a atenção desde a minha chegada aqui. São coisas que, às vezes, não damos tanto valor no Brasil, pelo facto de o jogo ser mais lento, mas aqui conseguimos entender a importância de uma receção orientada. Coisas de fundamentos que nós trabalhamos a vida inteira. São muitas aprendizagens sobre leitura de jogo, antes mesmo da bola chegar.

- Em que é que ainda pode melhorar?

- Uma das coisas que aprendemos é com a vida social, extra-campo. Aqui na Europa, acredito que esteja mais focado a trabalhar aspetos onde preciso de trabalhar. Não há aquela pressão como no Brasil.

Ir para um lugar diferente faz com que fiquemos limitados às coisas que ocupam a mente. É diferente de um ambiente com família e amigos. Eu brinco ao dizer que é como um esconderijo. Ficamos mais quietos, só pensamos em trabalhar, focar a mente no que realmente importa. Isso para o desenvolvimento acaba por ser muito bom. Esta foi uma das principais aprendizagens que eu tenho tido aqui aqui.

Juan deixou o São Paulo à procura de minutos
Juan deixou o São Paulo à procura de minutosGoztepe

- A ideia é continuar na Europa? Muitos jogadores vão e não demoram a voltar ao Brasil...

- A minha ideia é continuar na Europa. O futebol europeu tem muito para me oferecer, para me ensinar. Vemos vários exemplos de jogadores que vão e voltam ao Brasil. Se eu tiver de voltar, amém, acredito que posso escrever também uma identidade, uma história no Brasil, mas hoje o meu foco é desenvolver-me na Europa, criar uma maturidade como atleta. No Brasil, tive muitas aprendizagens, mas aqui eu creio que vai ser um tempo essencial para continuar a crescer.

- No Brasil, jogava pelos flancos e como avançados. A ida pra Europa intensificou a sua aprendizagem tática?

- No Brasil eu já atuava pelos flancos, joguei pelos flancos com o Dorival e também joguei como avançado-centro. Acredito que, pelas minhas características, por ser explosivo e veloz, por ter bom drible, isso faz com que eu jogue com mais facilidade pelos flancos. 

Aqui tive algumas aprendizagens táticas, porque acabo por cumprir outras funções. Vim para uma equipa que joga com dois avançados, muitas vezes acabamos por ir para os flancos para receber uma bola, sem nos limitarmos apenas ao centro do campo. Acabei por ter mais liberdade de flutuar. Tenho entendido que, quanto mais objetivo eu puder ser, melhor.

Juan pode desempenhar diferentes funções no setor ofensivo
Juan pode desempenhar diferentes funções no setor ofensivoTrendyol Superlig

Eu tenho um poder de pressionar muito grande, um poder de roubar a bola na linha ofensiva. Trouxe isso para cá e tenho aperfeiçoado, pelo facto de o jogo aqui ser muito intenso, pela forma como a equipa joga. O Goztepe costuma pressionar os 90 minutos, então eu faço funções que já tinha e que estão a ser aprimoradas. 

Uma função que acabo por desempenhar é de jogar a 10, mais como um construtor, a descer para ter a bola e ver o jogo de frente. São funções que eu já fiz quando era mais novo e que agora eu posso também ter o prazer de desempenhar. 

- O que tem feito a diferença para os seus bons números? Encaixou na equipa antes do que esperava? 

- Acho que essa flexibilidade tem sido uma das diferenças. Os jogadores conseguem cumprir mais de uma função, isso é muito importante para o sistema do treinador e para aquilo que a equipa tem apresentado. Fico feliz pelo bom momento que tenho vivido, pelos bons números, mas também sei que tenho muito a melhorar. Como um avançado, sei que ainda preciso de desenvolver muitas coisas, preciso de aumentar o meu poder de finalização, por exemplo. São coisas que eu tenho entendido melhor e estou a procurar ajustar todos os dias. Acredito que eu vou conseguir preparar-me melhor para chegar ao lugar que eu pretendo.