Opinião: Copinha passou de "celeiro de talentos" para "feira de joias"

Palmeiras investiu mais formação e ganhou duas Copinhas
Palmeiras investiu mais formação e ganhou duas CopinhasAg. Paulistão

São quase 4 mil jovens jogadores a correr atrás de um sonho na Taça São Paulo de Futebol Júnior que começa esta sexta-feira. No entanto, o sonho dos atletas teve que se adaptar. Antes um “celeiro” das novas revelações do futebol brasileiro, o torneio consolidou-se como uma feira para clubes e empresários fazerem dinheiro com suas “joias da formação”.

Não é à toa que o termo “joia” – que, como sabemos, é um bem valioso – ganhou mais espaço na imprensa nos últimos anos.  Segundo a ferramenta Exploding Topics, “joia” já é mais usado em notícias que aparecem no Google News do que o termo “cria" da formação.

Cria, como sabemos, é um ser, não um bem, e a escolha de palavras escancara como o futebol moderno passou a tratar os atletas sub-20.

Manchetes do ge, CNN, R7 e Terra
Manchetes do ge, CNN, R7 e TerraReprodução

A Lei que mudou tudo

A mudança que trouxe a supermercantilização dos futebolistas foi a Lei Bosman, regra que revolucionou o esporte em 1995.

Nascida depois que o ex-jogador belga Jean-Marc Bosman ganhou um processo contra o Liége, clube que representava na altura, a lei permitiu que atletas deixassem os clubes aquando do término dos contratos.

Antes de 1995, os clubes detinham o famigerado “passe” dos jogadores. Depois daquele ano, livres para decidirem seus destinos, as jovens promessas podiam buscar contratos melhores.

E uma das consequências da revolução Bosman foi que ela abriu a porta para os clubes mais ricos assinarem com os melhores jogadores.

Em menos de cinco temporadas após a regra entrar em vigor, o futebol sul-americano não conseguia mais segurar os craques, que passaram a mudar-se para a Europa.

Vini Jr. na Copinha 2017 pelo Flamengo
Vini Jr. na Copinha 2017 pelo FlamengoCRF

Copinha é vitrine

Sob esta nova ordem, o mercado da bola inflacionou ano a ano e expandiu seus tentáculos para atletas cada vez mais jovens. E a Copinha tornou-se a feira perfeita dos novos talentos deste mercado.

Há tanto clube e empresário desesperado em fazer dinheiro – e tanto jogador da formação a  prcisar de um bom negócio – que o torneio aumentou de 36 clubes em 1990 para 128 em 2023. Um crescimento de "apenas" 355%.

Em 2008, o Botafogo  recusou a participar do torneio por conta da invasão dos clubes de empresário (como o famigerado Roma Barueri, que era uma equipa de aluguer e venceu a Copinha de 2001).

Em 2025 o boicote é do Flamengo, que entendeu que o torneio não é mais aquele que produziu finais épicas como o São Paulo x Corinthians de 1993, e prefere treinar o conjunto sub-20 para eventualmente ajudar no time principal.

O Grupo Globo também desistiu de transmistir a competição depois de décadas como detentora dos direitos.

Estêvão aumentou de preço após brilhar na Copinha de 2024
Estêvão aumentou de preço após brilhar na Copinha de 2024SE Palmeiras

Quase 30 após a lei que aboliu o passe, a Taça São Paulo de Futebol Júnior perdeu seu charme e abraçou sua função mercadológica, que agora é  mais importante que títulos. O objetivo agora é lapidar e tentar vender rubis e diamantes.

É do jogo do "futebol moderno". Mas o torneio não tem mais graça para o adeptor.

Siga a Copinha com o Flashscore

A opinião dos editores não necessariamente reflete a do Flashscore
A opinião dos editores não necessariamente reflete a do FlashscoreFlashscore