Jogos Olímpicos de Inverno: Seleção norte-americana de hóquei no gelo reescreveu a história

Jack Hughes (à direita) marcou o golo decisivo para a equipa dos EUA
Jack Hughes (à direita) marcou o golo decisivo para a equipa dos EUAGREGORY SHAMUS / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Faltavam pouco mais de sete minutos para o final do tempo regulamentar, com o marcador empatado a 1-1, quando Jack Hughes levou com o stick alto na cara, partiu um dente da frente e ficou a sangrar da boca. Sam Bennett foi para o banco de penalização, mas os EUA não conseguiram aproveitar a falta – pelo menos durante o tempo regulamentar.

Apesar de Bennett ter cumprido uma dupla penalização menor e a equipa dos EUA ter jogado em superioridade numérica durante quatro minutos, a final pelo ouro foi para prolongamento. O duelo prosseguiu num ritmo frenético, em morte súbita 3 contra 3. O próximo golo era decisivo. O vencedor levava tudo.

Faltarem-lhe dois dentes não incomodou minimamente Hughes. “Olhei para o gelo e vi os meus dentes, pensei: ‘Cá vamos nós outra vez’,” contou o avançado. Jogar com a boca a sangrar já parecia rotina.

Hughes desvalorizou o incidente e entrou no prolongamento. Com menos de dois minutos para jogar, o Canadá cometeu um erro e proporcionou uma situação de 3 para 1 aos EUA. Após dois passes certeiros, Hughes ficou completamente isolado em frente à baliza. Sangue-frio. Golo.

A arena de hóquei em Milão explodiu de alegria. Os EUA acabavam de conquistar a medalha de ouro olímpica, atingindo o auge. O Canadá, favorito à vitória, ficou atónito. Hughes foi o herói. O hóquei tinha um novo rei.

Jack marcou o golo de ouro poucos dias depois do irmão mais velho, Quinn, ter decidido o jogo dos quartos de final frente à Suécia. “Foi um golo enorme, um momento enorme”, disse Jack após o encontro: “Um dos nossos melhores jogadores a assumir e a ganhar esse jogo para nós.”

Mal sabia ele que estava prestes a ofuscar o irmão no maior jogo das suas vidas. Mas já tinha sonhado com isso.

Os dois irmãos partilharam quarto na Aldeia Olímpica. Na véspera da final do ouro, deitaram-se por volta das 23:30, mas a ansiedade e a excitação não deixaram dormir. Duas horas depois, Quinn ouviu Jack a rebolar na cama.

“Estás acordado? Em que é que estás a pensar?” perguntou Quinn.

“Sim... Estou sempre a rever o meu golo no prolongamento”, respondeu Jack.

“Pois, eu também...”, disse Quinn.

Quinn revivia o golo que já tinha marcado. Jack sonhava com o remate decisivo que ficaria para sempre na história. Horas depois, concretizou-o – com o irmão ao lado e o país inteiro a assistir.

Antes do início do torneio olímpico, o Canadá era o principal candidato ao ouro. Liderados pelo incrível Connor McDavid, tudo o que não fosse o título seria uma desilusão. O hóquei é venerado no Grande Norte Branco – não é apenas um desporto, é um modo de vida.

Durante décadas, o Canadá teve vantagem sobre os EUA nos jogos decisivos. Nos Jogos Olímpicos de 2002, em Salt Lake City, o Canadá venceu por 5-2. Oito anos depois, voltou a superar os EUA em Vancouver, no prolongamento. O último triunfo tinha sido há um ano, quando o Canadá bateu os EUA por 3-2 na final do 4 Nations Face-Off.

“Está na altura de darmos o nosso próprio passo enquanto grupo”, afirmou o defesa Zach Werenski: “No ano passado, no 4 Nations, ficámos a um golo, e agora chegou o momento de finalmente cruzarmos a meta. É abraçar o desafio e criarmos as nossas próprias memórias e a nossa própria história.”

A equipa dos EUA estava faminta. Sentia que tinha algo a provar. Mais importante ainda, os jogadores estavam prontos para pôr fim ao domínio do Canadá. Fosse como fosse.

A final teve tudo o que o mundo do hóquei desejava: um duelo emocionante entre dois rivais, um rinque repleto de estrelas e uma batalha épica taco a taco. Seria injusto dizer que os EUA dominaram o jogo todo.

O Canadá tinha vantagem de 27-16 em remates à entrada do último período. Os vice-campeões criaram várias oportunidades de qualidade, mas só um remate conseguiu bater o guarda-redes Connor Hellebuyck.

Os canadianos conhecem bem Hellebuyck. Nos últimos 11 anos, o guarda-redes tem defendido a baliza dos Winnipeg Jets. Esteve sensacional. O natural do Michigan é o atual MVP da NHL, depois de registar uma percentagem de defesas de .925.

Esta época, os números tinham descido e havia dúvidas quanto à sua consistência. Guardou a melhor exibição para o momento mais importante. “Ele é um craque. E sabe disso. Todos sabemos. E eu só lhe dizia: ‘És o melhor do mundo’”, afirmou o seu colega Brock Faber.

Hellebuyck travou 41 dos 42 remates do Canadá. Parou um contra-ataque isolado de Connor McDavid. Tornou-se uma muralha durante o power play de 93 segundos em 5 contra 3 dos canadianos.

“Foi inacreditável. Fez tantas defesas, uma atrás da outra. Houve momentos neste jogo em que estivemos claramente em dificuldades. Isto é hóquei. É preciso ter um bom guarda-redes, e nós tivemos. Ele é o melhor jogador da liga, e está do nosso lado”, disse o colega Charlie McAvoy.

A equipa dos EUA demonstrou uma resiliência e coragem notáveis. McAvoy sabe bem o que é superar adversidades. No 4 Nations Face-Off, sofreu uma luxação no ombro que o afastou do resto da época passada.

Em novembro de 2025, apanhou um disco na cara e partiu o maxilar. Perdeu mais de nove quilos apenas três meses antes dos Jogos Olímpicos. Uma semana antes do torneio, a estrela dos Boston Bruins levou uma cotovelada na cara que lhe provocou um inchaço enorme. Mas nada o impediu de lutar pelo seu país.

Todo o sacrifício valeu a pena quando a medalha de ouro olímpica foi finalmente conquistada. “Não há melhor sensação no mundo”, disse McAvoy, envolto na bandeira americana. “Foi pura euforia. Nem consigo explicar o que senti. Só alegria.”

A equipa de hóquei dos EUA conquistou o seu primeiro título olímpico desde a célebre vitória de 1980 em Lake Placid, precisamente 46 anos antes. Na altura, os amadores americanos surpreenderam o mundo ao bater a União Soviética, no que ficou conhecido como o Milagre no Gelo.

Quase cinco décadas depois, este triunfo não foi um milagre – foi fruto de preparação, confiança, espírito de equipa e dureza. Os EUA funcionaram como uma máquina bem oleada. A irmandade prevaleceu.

“Adoro os EUA; adoro os meus colegas... a irmandade do hóquei dos EUA é fortíssima. Estou tão orgulhoso de ser americano esta noite”, afirmou Jack Hughes.

22 de fevereiro de 2026 foi uma data especial – não só porque os EUA conquistaram o ouro, ou porque passaram exatamente 46 anos desde a vitória icónica em Nova Iorque – mas também porque era o segundo aniversário de Johnny Gaudreau Jr. A equipa dos EUA ofereceu-lhe a celebração máxima no gelo.

Gaudreau morreu tragicamente depois de ser atropelado por um condutor alcoolizado enquanto andava de bicicleta. A equipa prestou-lhe homenagem ao dar a volta ao rinque com a camisola antes de seguir para o balneário e ao incluir os três filhos na cerimónia das medalhas.

“Ele está connosco em espírito durante todo o torneio”, disse o capitão Auston Matthews: “Ter a camisola na foto da equipa e os filhos presentes connosco, é óbvio que estamos a pensar nele.”

Isto não foi apenas sobre uma medalha de ouro. Foi sobre família – os que estavam no gelo e os que faltavam.

“Já passou muito tempo”, disse o centro dos EUA Jack Eichel: “Sei o que a equipa de 1980 fez e o que isso significou para as gerações seguintes. Escrevemos a nossa própria história aqui. É um momento de grande orgulho para todos os que estão naquele balneário.”

A equipa americana de hóquei consolidou o seu lugar no desporto. Agora há um candidato duro e resiliente que não depende de milagres. A rivalidade – tão intensa que quase derrete o gelo – continua, com duas equipas igualmente formidáveis.

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