“Não me surpreende o que está a acontecer”, afirmou o técnico, de 72 anos, sublinhando que, apesar de nunca se ter sentido inseguro durante as duas passagens pelo país, percebia “um desejo inerente e muito forte de mudança” entre a população, sobretudo nas gerações mais jovens que, expostas às redes sociais, almejavam maior liberdade.
No sábado, Israel e Estados Unidos lançaram um ataque militar contra o Irão, para "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano", e Teerão respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas na região e alvos israelitas.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que a operação visa “eliminar ameaças iminentes” do Irão e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, justificou a ação conjunta contra o que classificou como uma “ameaça existencial”.
O Irão já confirmou a morte do ayatollah Ali Khamenei, o líder supremo do país desde 1989 e decretou um período de luto de 40 dias.
Em declarações à agência Lusa, Nelo Vingada, que orientou o Persepolis (2009) e a seleção olímpica iraniana (2014) - acumulando cerca de 16 meses de experiência no país - recordou os sinais claros de tensão social que observou durante a sua passagem pelo país.
O adjunto que acompanhou em grande parte da carreira o atual selecionador de Omã, Carlos Queiroz, que comandou a seleção iraniana em dois momentos, entre 2011 e 2019 e em 2022, descreveu um país com restrições culturais e religiosas marcadas — desde o vestuário obrigatório para as mulheres, ou a interdição de consumo de álcool — mas onde nunca se sentiu inseguro.
"Podia andar na rua à hora que quisesse", assegurou.
Nelo Vingada recordou ter sempre procurado respeitar a cultura local, dando, como exemplo, evitar usar gravata — símbolo de oposição ao regime no Irão.
"Quando ia a caminho do Irão com uma gravata vermelha, foi imediatamente avisado: 'Por favor, tira a gravata'. Usar gravata no Irão é um sinónimo de alguém que é da oposição", contou.

Ainda no Persepolis — clube que descreveu como "do regime" — alguns jogadores usavam pulseiras verdes como sinal de resistência política, admitindo que a ‘mão pesada’ do regime se fazia sentir também no futebol.
"Havia sempre, antes de uma competição, um peso que era sentido, às vezes nem de uma forma direta, mas era sentido", admitiu o técnico.
Sobre os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel, Vingada considera que dificilmente o Irão conseguirá resistir a uma pressão internacional alargada, admitindo que o desfecho poderá passar por uma capitulação do regime.
Ainda assim, questiona se a via militar terá sido “a melhor forma” de lidar com o impasse, defendendo que meios diplomáticos poderiam ter sido explorados.
"Havia outros meios para resolver isto, meios diplomáticos. Estamos numa situação altamente desconfortável para todos", afirmou, acrescentando que, apesar do desejo de liberdade, "não era esta a forma como queriam ser livres".
O experiente treinador, com passagens por países como Arábia Saudita e Jordânia, entre outros, descreve os iranianos como “um povo fantástico, orgulhoso, com uma tradição histórica enorme”, e defendeu ainda que a imposição de modelos democráticos ocidentais não pode ser feita de forma automática.
"A democracia que é grande na Europa talvez lá tenha de começar pequena”, observou Vingada.
Pelo menos 555 pessoas morreram no Irão desde o início dos ataques, segundo a organização humanitária Crescente Vermelho iraniano. O Exército dos Estados Unidos confirmou a morte de três militares norte-americanos.
Portugal, França, Alemanha e Reino Unido condenaram os ataques iranianos a países vizinhos.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros recomendou aos portugueses que estão na região do Médio Oriente que cumpram as recomendações das autoridades locais, permaneçam em casa, e, em caso de emergência, contactem as embaixadas ou consulados.
