A simpática natural de São Francisco, no snowpark de Livigno, deu continuidade ao êxito de há quatro anos em Pequim, onde conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata em três disciplinas de freestyle. Desta vez, inverteu o registo: após dois segundos lugares no slopestyle e no Big Air, dominou o final dos Jogos ao vencer a final da U-rampa.
Na sua terceira volta, a mais bem pontuada, elevou-se seis vezes cerca de quatro metros acima da borda do largo canal de neve, rodou várias vezes sobre o seu eixo e, em todas as ocasiões, executou o seu truque sem dificuldades.
Pela sua prestação quase perfeita, recebeu dos juízes 94,75 pontos em 100 e defendeu o ouro olímpico. Contudo, grande parte do público americano não celebrou o seu sucesso. Pelo contrário.
Aos 15 anos, Eileen decidiu representar o país natal da sua mãe, a China, e desde então, sobretudo a ala conservadora dos Estados Unidos, não lhe perdoa a escolha.
"Acredito que alguém que cresceu nos EUA, que beneficiou do nosso sistema educativo e das liberdades e direitos que fazem deste país um lugar tão especial, deveria querer representar os EUA também", afirmou o vice-presidente americano J. D. Vance à FOX News.
Questiona-se por que razão um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos sentiu necessidade de comentar um desporto que, nos Jogos Olímpicos, ainda é considerado menor? Se não conhece a história da elegante Eileen, a resposta provavelmente irá surpreendê-lo.
A freestyler de 22 anos é uma das maiores celebridades da olimpíada italiana. Segundo a revista Forbes, é mesmo a participante que mais lucrou nos Jogos recém-terminados sob os cinco anéis. Deixou para trás estrelas do hóquei como Connor McDavid e Auston Matthews, e até a segunda mulher do ranking, Lindsey Vonn, observa-a de longe.
Segundo a Forbes, Gu arrecadou 23,1 milhões de dólares no último ano, sendo a quarta atleta feminina mais bem paga do mundo. No prestigiado ranking, só ficou atrás das estrelas do ténis Coco Gauff, Aryna Sabalenka e Iga Świątek.
A ícone americana do esqui Lindsey Vonn, na última edição do ranking, ficou 15 milhões de dólares atrás da princesa chinesa da neve. Em prémios desportivos, Gu recebeu apenas 100 mil dólares no último ano. O resto foi ganho fora dos snowparks.
Modelo sobre esquis
A jovem esquiadora explora ao máximo o seu potencial de marketing. Tornou-se o rosto principal das maiores marcas tanto no mercado chinês como no americano, ajudando a conquistar a geração mais jovem. É um fenómeno sem paralelo no desporto feminino mundial.
Além de ser extremamente bem-sucedida nas encostas e de colaborar com marcas de prestígio como Louis Vuitton, Tiffany & Co., Porsche ou Red Bull, é também modelo da agência IMG e estudante de relações internacionais na Universidade de Stanford.
"É uma atleta que só nasce uma vez por geração. Desfila nas maiores passarelas, conquista medalhas olímpicas e, ao mesmo tempo, estuda em Stanford. Isto não é normal", elogiou a estrela sino-americana o lendário snowboarder Shaun White.
A história da simpática esquiadora é realmente tudo menos normal. "Sem dúvida, tem a vida mais louca de todas nós", confirmou em Livigno a maior rival da americana, Mathilde Gremaud, da Suíça.
Certamente não se referia apenas aos êxitos desportivos. Paradoxalmente, esses são o aspeto mais comum na vida da elegante esquiadora.
Quando, aos 15 anos, Gu decidiu representar a China em vez da América natal, o nome tornou-se imediatamente um tema político. Nos Estados Unidos, foi vista como traidora, que escolheu representar o regime comunista por dinheiro; na Ásia, a jovem de 15 anos foi recebida como futura heroína nacional.
E, após a sua "olimpíada em casa" em Pequim, tornou-se mesmo essa heroína.
"Nunca quis ser famosa. O meu objetivo era que as crianças na China tivessem alguém a quem pudessem admirar. Tal como eu pude admirar os meus ídolos enquanto crescia na América. O dinheiro não teve influência na minha decisão, simplesmente quis aproximar o desporto das meninas", explicou as razões da sua escolha.
Sete anos depois, apesar das críticas crescentes das elites americanas, não se arrepende da decisão. O desporto abriu-lhe portas para lugares onde, de outra forma, provavelmente nunca teria chegado. E, graças à mudança de nacionalidade, não está presa a ele.
Se decidisse terminar a carreira ao mais alto nível, isso não a prejudicaria. Mas o amor pelas encostas e pelos grandes saltos não lhe permite parar. "Adoro isto. Podia ficar em casa sem fazer nada, mas nasci para saltar de esquis. É a minha essência mais pura", revelou.
Onde melhor para esquecer os comentários de ódio? Quando se voa dez metros acima do solo, de cabeça para baixo, não há muito espaço para pensar nos problemas do dia a dia. É por isso que uma das mulheres mais seguidas dos Jogos Olímpicos recém-terminados procura ali a sua liberdade.
