Maia Rodrigues: "Gil Vicente apresentou-me um projeto muito interessante"

Maia Rodrigues em destaque no Gil Vicente
Maia Rodrigues em destaque no Gil VicenteArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 34.ª convidada é Maia Rodrigues, avançada do Gil Vicente.

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A vida entre o Brasil e a Alemanha, entre o atletismo e o piano: "Fase muito rica"

- Como é que surgiu o seu gosto pelo futebol?

Na verdade, eu nunca liguei muito ao futebol quando era pequena, porque fazia muitas outras coisas. Pratiquei atletismo, ténis, esqui, música… tocava clarinete e piano. O futebol era algo que eu jogava apenas com o meu irmão ou com a minha família, na praia, no Brasil. Sempre foi muito divertido, mas nunca pensei seriamente em jogar futebol.

Um dia pensei: “Por que não tentar?”. Os meus pais organizaram-se para eu treinar uma vez com uma equipa de rapazes. Gostei, mas os meninos não gostaram muito, porque éramos muito novos, eu nem tinha dez anos. Depois fiz testes num clube grande da Alemanha, o Borussia Monchengladbach, para os sub-13, mesmo tendo apenas oito anos e sem nunca ter jogado futebol. Acabaram por dizer que eu era muito nova, embora parecesse mais velha por ser alta.

Maia faz balanço positivo da sua passagem pelo Gil Vicente
Maia faz balanço positivo da sua passagem pelo Gil VicenteOpta by Stats Perform, Gil Vicente

Só comecei a jogar futebol de forma mais regular por volta dos dez anos, num clube de meninas. Mesmo assim, continuei a fazer muitas outras modalidades em paralelo. Cheguei a um ponto em que era muita coisa para conciliar com a escola, mas foi uma fase muito rica.

- E quando é que decide apostar apenas no futebol?

Talvez aos treze ou catorze anos. Fui passando por vários clubes, sempre sem grande conhecimento do futebol feminino, porque na minha cidade praticamente não existia. Joguei, cresci e hoje estou aqui.

- A Maia nasce na Alemanha, mas tem uma ligação muito forte ao Brasil. Conte-nos um pouco dessa história.

O meu pai é brasileiro e a minha mãe é alemã. Nasci na Alemanha, mas com vinte e um dias de vida já estava no Brasil. Durante muitos anos, viajámos todos os anos para lá para visitar a família do meu pai. Só com a pandemia é que isso deixou de ser possível.

Maia começou a jogar no SGS Essen
Maia começou a jogar no SGS EssenArquivo Pessoal

- Portanto, a língua portuguesa sempre esteve bem presente.

Sempre falei português com o meu pai e alemão com a minha mãe. Sou muito grata aos meus pais por isso, porque falar várias línguas é uma enorme vantagem. Tenho alguma tristeza por nunca ter vivido no Brasil, que é uma das minhas grandes paixões, mas reconheço que a educação na Alemanha também foi muito importante.

- O seu crescimento no futebol foi todo feito na Alemanha?

Sim. Passei por vários clubes, joguei no futebol feminino e também treinei muitas vezes com equipas masculinas. Houve períodos em que treinava com dois clubes ao mesmo tempo. Jogava com o feminino e treinava com o masculino. Foi intenso, mas ajudou muito no meu desenvolvimento físico.

Mais tarde fui para o SGS Essen e acabei por ser convocada para a Seleção Sub-20 do Brasil. Surgiu também o interesse de clubes em Itália e achei que era o momento certo para sair, porque já tinha terminado a escola.

Maia passou pela Sampdoria
Maia passou pela SampdoriaArquivo Pessoal

- Como foi essa mudança para Itália, tão jovem?

Saí com dezassete anos. O problema foi que a FIFA não autorizou a transferência internacional por eu ser menor, e passei quase seis meses sem poder jogar, apenas a treinar. Foi um período muito difícil e frustrante, porque ninguém me tinha alertado para essa possibilidade.

Quando finalmente pude jogar, já estávamos numa fase complicada da época. Não falava italiano, sou uma pessoa tímida quando chego a um país novo, e isso dificultou a adaptação. Apesar disso, aprendi muito.

- Apesar de tudo isso e de ter na altura apenas 17 anos, sentia-se preparada para essa mudança?

Sim. Eu quero atingir muito no futebol, então eu luto e faço muito para isso. Também tenho muito o apoio dos meus pais. Agora, claro que foi um período difícil, mas antes de sair eu sentia-me preparada.

- A sua família teve sempre um papel muito importante nesse percurso?

Sim, totalmente. O meu pai esteve presente em praticamente todos os meus jogos. Quando jogava no SGS Essen ele levava-me aos treinos todos os dias, percorrendo cerca de sessenta quilómetros. Organizava o trabalho dele para me apoiar. A minha mãe também acompanha tudo, mesmo à distância. Sem eles, nada disto seria possível.

Maia é a goleadora do Gil Vicente
Maia é a goleadora do Gil VicenteArquivo Pessoal

"Encontrei um projeto ambicioso no Gil Vicente"

- Como surgiu a oportunidade de vir para Portugal e para o Gil Vicente?

Tive algumas opções, mas o Gil apresentou-me um projeto muito interessante. Falei com o treinador, gostei muito da visão dele e do objetivo claro de lutar pela subida à Liga. O facto de ser um país onde se fala português ajudou, claro, apesar das diferenças.

Vim de uma época em que lutei para não descer de divisão e aqui encontrei um projeto ambicioso. Senti que confiavam em mim e que podia ajudar. Até agora, tem sido muito positivo.

- As coisas corresponderam às expectativas?

Estou muito satisfeita. Tive uma reunião com o diretor desportivo do Parma e com o meu agente e eles perguntaram quantos golos queria fazer esta temporada. Defini um objetivo pessoal de marcar vinte e cinco golos, talvez de forma um pouco ambiciosa, mas a verdade é que já estou perto disso. Ainda assim, o mais importante é o coletivo: ganhar jogos e subir de divisão. Se marcar golos e ajudar a equipa, fico feliz, mas o essencial é o sucesso do grupo.

- E tem gostado de viver em Portugal?

Gosto muito. Tirando o frio e a chuva (risos), é um país lindíssimo. Já conhecia Lisboa e o Porto, adoro as duas cidades. Portugal tem paisagens incríveis.

- O que acha do futebol português e da jogadora portuguesa?

O futebol português é muito físico e agressivo, mais do que o italiano. Gosto disso, dessa luta constante. (...) A jogadora portuguesa destaca-se muito pela mentalidade: joga com o coração, luta até ao fim, é muito competitiva.

- Acredita que é possível a subida de divisão esta época?

Sim, acredito. Não depende só de nós, mas temos qualidade e um grupo muito forte. Cometemos erros, mas estamos a aprender com eles. Vamos lutar até ao fim.

- Falou da meta golos. Com 21 golos e ainda muitos jogos até ao final da temporada, já estabeleceu uma nova meta?

Não. Para mim, marcar vinte e cinco golos já seria uma meta muito boa; mesmo vinte seria um número excelente. Neste momento, não estou focada em números. O mais importante é garantir a subida de divisão e, se possível, conquistar o título nacional. Ainda é possível e não vou desistir desse sonho.

- Apesar de estar emprestada pelo Parma, consegue imaginar-se a continuar em Portugal, por exemplo dando um salto para a Liga?

No futebol, nunca se sabe. Tenho contrato com o Parma até 2028 e, depois disso, tudo pode acontecer. O Parma pode querer que regresse, pode optar por vender-me ou podem surgir outras oportunidades.

Gosto muito de Portugal, do país, das jogadoras e da língua. Consigo imaginar-me a jogar na primeira divisão portuguesa, sim, mas isso depende de muitos fatores e nem sempre depende apenas de mim. Por isso, não gosto de dizer “nunca”.

O pai de Maia acompanha praticamente todos os jogos da filha
O pai de Maia acompanha praticamente todos os jogos da filhaArquivo Pessoal

"Sonho com a Liga dos Campeões e a Bola de Ouro"

- Com apenas 19 anos, como imagina o seu futuro no futebol?

Tenho sonhos muito grandes. Quero ganhar a Liga dos Campeões, o Campeonato do Mundo, o Ballon d’Or. Quero ser feliz a jogar futebol, dar felicidade a outras pessoas e inspirar outras meninas. Quero mostrar que o futebol é alegria, mas também luta. Outro sonho seria jogar o Campeonato do Mundo sub-20.

- Virando o foco para a seleção, como foi receber a primeira convocatória para a seleção Sub-20 do Brasil?

Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Eu jogava na Alemanha, no SGS Essen, e pensei: “Mas como assim? O Brasil?”. Não era a seleção alemã a ligar, era o Brasil. Eu nem conseguia acreditar. O momento em que realmente caiu a ficha foi quando vimos a convocatória oficial em direto. 

Naquele momento pensei: “Isto não é possível”. Foi uma felicidade total. Só de falar nisso agora já fico emocionada. A seleção é um objetivo muito grande. E depois de lá estar uma vez, a vontade de voltar é ainda maior do que antes.

- Imagino que, para o seu pai, isso tenha sido muito especial. Ele puxa-a mais para o Brasil?

Sim. Mas o meu pai diz sempre: “Eu quero que sejas feliz, seja na Alemanha ou no Brasil”. Mas eu sei que, no fundo, ele ficaria muito feliz se eu jogasse pelo Brasil (risos).

- Neste momento, no seu coração, é 50-50 entre a Alemanha e o Brasil?

Costumo dizer que quero representar a seleção que me der a oportunidade. Dizer agora “quero jogar pela Alemanha” ou “prefiro o Brasil” é complicado, porque, no fim, apenas uma opção pode surgir... ou nenhuma.

Neste momento, ainda não preciso de tomar essa decisão, uma vez que posso jogar pelas seleções jovens. Se um dia surgir um convite para a selecção principal, aí sim terei de refletir com calma. Para já, não penso nisso, e isso dá-me tranquilidade.

Maia tem sido feliz no futebol
Maia tem sido feliz no futebolArquivo Pessoal

"O futebol facilita muito a minha vida"

- Olhando para trás, mesmo estando ainda no início da carreira, a decisão de seguir o futebol foi a melhor possível? E, se o futebol fosse uma pessoa, o que lhe diria?

É uma pergunta muito boa. Diria que o futebol facilita muito a minha vida. Se estou triste, jogo futebol; se estou feliz, jogo futebol. O futebol é quase sempre a resposta.

Mesmo nos momentos mais difíceis, jogar futebol faz-me bem. Quando estou bem, faz-me sentir ainda melhor. Claro que há fases complicadas, derrotas e momentos difíceis, mas o futebol é assim.

Uma vez li algo que a minha colega de equipa, Andrea Mirón, escreveu no Instagram, sobre a importância de desfrutar cada momento. Muitas vezes estamos tão focadas em treinar, melhorar e competir que nos esquecemos de desfrutar do processo, e isso marcou-me. Ela é mais velha, está noutra fase da carreira, e isso fez-me refletir

O futebol ensina muito, não só dentro de campo, mas também para a vida. Ensina a lidar com derrotas, frustrações, alegria e sucesso. É quase como um professor. Sem dúvida, foi a melhor decisão escolher o futebol e não outra modalidade.

- Como imagina o futuro do futebol no feminino? Já cresceu muito, mas ainda pode crescer mais?

Espero sinceramente que sim, e acredito que sim. O futebol feminino tem crescido muito, também em Portugal. Aqui já há muitos jogos transmitidos na televisão, o que não é tão comum noutros países.

Ainda assim, há muito a melhorar: dar melhores condições às jogadoras jovens, investir em infraestruturas, garantir ginásios próximos dos campos e horários de treino fixos. Os homens têm isso como algo adquirido, e nós ainda não. Não se trata de ganhar o mesmo que os homens, mas de ter condições dignas para trabalhar.

Acredito também que a vertente económica do futebol feminino em Portugal precisa de crescer. Nota-se uma diferença significativa em relação a outros países, como a Itália. Muitos clubes portugueses ainda não têm capacidade financeira para contratar jogadoras internacionais, e esse é um aspecto que deve ser desenvolvido. É apenas a minha opinião, mas acredito que o futebol feminino português pode e deve dar esse passo.

- Para terminar: quando acabar a carreira, que legado gostaria de deixar?

Não quero que digam apenas “ela também jogou futebol”. Quero ser uma jogadora marcante, com identidade própria, que inspirou outras pessoas. Se isso acontecer, independentemente dos títulos, vou sentir que tudo valeu a pena.

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