"Para mim, o Fernando era o melhor atleta português de sempre do meio fundo. Apesar de não conseguir medalhas olímpicas - mas recordo que teve uma medalha de bronze no Campeonato do Mundo de corta-mato (1981) -, o Fernando fazia resultados excecionais e só a debilidade psicológica o atraiçoou e, em termos de Jogos Olímpicos, não conseguiu demonstrar toda a sua valia e toda a sua qualidade”, disse a treinadora.
Assumindo “a grande admiração” por Mamede, Sameiro Araújo disse ter sido “com muito pesar” que foi “apanhada completamente de surpresa” com o falecimento.
“Acabámos de perder um dos grandes do atletismo português e, diria mais, um dos maiores do desporto português. Tive o prazer de conviver com o Fernando durante muitos anos, nos seus tempos áureos, em estágios que fazíamos da seleção nacional ou dele no Sporting e eu no SC Braga na aldeia das Açoteias (no Algarve). Eram dois ou três estágios por ano em que nós partilhávamos experiências e boa disposição, e também em inúmeras competições”, lembrou.
Sameiro Araújo recorda que, por vezes, a ansiedade tomava conta de Fernando Mamede nos dias das grandes provas e o atleta “bloqueava completamente”, notando que, quando não recaía sobre ele a maior responsabilidade, se soltava, dando o exemplo de quando bateu o recorde mundial dos 10.000 metros num meeting na Suécia, em julho de 1984.
“Essa corrida é fora de série. Quando não havia medalhas, ou os holofotes não estavam muito em cima dele, porque nessa prova o favorito era o Carlos Lopes, sem grandes pressões, ele conseguia agigantar-se e fazer aquilo de que era capaz”, frisou.
A responsável técnica notou que, se fosse hoje, com o acompanhamento psicológico que os atletas têm, o percurso de Mamede poderia ter sido ainda melhor.
“Se o Fernando fosse atleta hoje com certeza que teria tido uma ajuda especializada e poderia ter atingido um patamar muito, mas muito superior. Infelizmente, isso não acontecia há 40 anos”, lamentou.
Fernando Mamede morreu na terça-feira, aos 74 anos.
