Na zona VIP, Novak Djokovič também ficou impressionado, tendo levado consigo à prova olímpica a sua companheira Jelena Ristič. O casal de estrelas do ténis não conseguia acreditar no que o patinador americano tinha mostrado e na energia que transmitia ao público. O salto mortal no gelo, executado por Malinin, parecia incrivelmente natural.
Na verdade, não se trata de um elemento novo. Apenas o conselho de patinagem artística voltou a legalizá-lo há poucos meses.
O primeiro foi o showman Kubicka
Daqui a dois dias, passam 50 anos desde a primeira aparição do salto mortal nos Jogos Olímpicos. Foi executado por um jovem americano de vinte anos, aparentemente tímido, Terry Kubicka.
"Na verdade, não havia nenhuma regra que o proibisse. Mas quando tudo terminou, discutia-se o facto de os juízes não o terem avaliado, porque não sabiam como agir", recordava Kubicka à revista Skate, falando do elemento que a 11 de fevereiro de 1976 realmente impressionou.
Apesar de ser um saltador extraordinário, acabou por ficar sem medalha, classificando-se apenas em sétimo lugar. Na altura, os patinadores com um estilo mais elegante recebiam as medalhas. Ele era visto como excêntrico.
"Uma vez ouvi um adversário dizer que eu tentava transformar a patinagem num circo. No entanto, ele próprio era muito inovador e destacava-se pelo seu estilo", recordava Kubicka sobre a rivalidade com Toller Cranston.
O showman, cujo nome sugere origens checas, foi realmente o primeiro…
No entanto, após o seu salto em Innsbruck, foi introduzida a proibição.
"Diziam que era perigoso. Mas se se treinar bem um salto destes, não é muito mais arriscado do que aqueles que as duplas executam", referiu Kubicka.
Desde então, o salto mortal só era visto em exibições ou nas populares revistas de gelo. Quem competia por medalhas estava proibido de executar saltos com rotação no eixo horizontal. Contudo, o salto mortal voltou a aparecer nos Jogos Olímpicos.
Revolta em Nagano
Em 1998, em Nagano, os adeptos da patinagem artística celebraram o arrojo da ícone francesa Surya Bonaly. Quando entrou no gelo, trazia consigo um ano de pausa.
Depois de um período excecional, em que conquistava campeonatos europeus e nos mundiais tinha ficado três vezes em segundo lugar, lesionou o tendão de Aquiles. O ouro mundial nunca lhe foi concedido.
"Talvez se fosse branca, já tivesse ganho esse título há muito tempo, mas quem sabe. Ser uma pessoa de cor era então algo raro", recordou na sua biografia.
Surya Bonaly partiu para o Japão para a sua última Olimpíada. E foi um verdadeiro escândalo. No programa livre, ao som do solo de violino da composição As Quatro Estações de Vivaldi, executou um salto mortal no gelo, aterrando apenas com um patim! Sim, tal como exigiam as regras da patinagem artística. Até então, todos terminavam o salto aterrando com ambas as pernas, razão pela qual era rejeitado. A ex-ginasta provou que era possível.
"No início, quase me envergonhava. Talvez me odeiem para sempre", pensava. Também ela não foi premiada pelos juízes, que a penalizaram pelo elemento proibido.
Mas houve também uma revolta: Bonaly sempre lutou contra a indiferença, convencida de receber regularmente pontuações mais baixas do que as suas rivais brancas, as princesas do gelo. O salto mortal em Nagano, executado por uma patinadora negra, tornou-se símbolo de rebeldia, tal como o seu gesto de virar as costas aos juízes durante a avaliação.
"Mas não sou uma rebelde. Talvez hoje valorize mais do que antes o que fiz e orgulhe-me de mim própria. Simplesmente consegui. Creio que fui uma pioneira", contava.
O décimo lugar final não era importante, talvez apenas sublinhasse a sua relação com a Federação Internacional de Patinagem. Mas o seu espetáculo marcou os adeptos mais do que o ouro da loira Tara Lipinski, já esquecida.
Do programa de Bonaly passaram quase trinta anos. E desde novembro de 2024, o salto mortal no gelo com aterragem numa só perna voltou a ser um elemento permitido.
Pontos apenas pela impressão artística?
Continua, no entanto, a ter limitações. O salto não tem valor em pontos e não é obrigatório. Pode, porém, ser incluído como parte da coreografia no programa livre.
E Ilja Malinin sabia-o. Como a avaliação das disciplinas de patinagem artística assenta em dois critérios, é provável que na final de domingo da prova por equipas tenha conseguido mais pontos pela impressão artística do que o rival japonês Shun Sato.
"Foi divertido", disse.
"O público gritava mesmo e estava completamente fora de controlo. Senti a gratidão dos espectadores", admitiu.
Mas para Malinin, os desafios mais difíceis ainda estão por chegar. Graças à sua capacidade de executar o quadruplo axel, é considerado o favorito na prova individual. No entanto, após o programa curto, está em desvantagem face a outro japonês, Yuma Kagiyama.
Seja qual for o desfecho das provas de patinagem artística nos Jogos Olímpicos de Milão, é certo que os backflip terão espaço. Discute-se cada vez mais a atratividade das competições e a luta pela atenção do público. E o salto mortal provoca sempre uma reação especial…
