Perfil: Fernando Mamede foi o melhor de sempre sem um grande título

Mamede partiu aos 74 anos
Mamede partiu aos 74 anosSporting CP

Fernando Mamede foi o melhor atleta português de sempre em provas de pista, tendo detido o recorde mundial dos 10.000 metros, mesmo sem nunca ter conquistado um grande título, em três presenças olímpicas.

Sem a coroação nas principais competições internacionais, cresceu o mito sobre o alentejano de Beja, que morreu na terça-feira, aos 74 anos, por nunca ter conseguido confirmar o seu potencial e talento nos grandes palcos – o denominado complexo Mamede.

A medalha de bronze no Mundial de corta-mato de 1981 é a honrosa exceção numa carreira intermitente, que tem como pináculo os 27.13,81 minutos nos 10.000 metros do recorde do mundo, estabelecidos em 02 de julho de 1984, em Estocolmo.

No DN Galan, assim se chamava o meeting sueco, Mamede impôs-se a Carlos Lopes, segundo com o tempo de 27.17,48, e que o ajudou a melhorar o recorde que estava na posse do queniano Henry Rono (27.22,48), num feito imortalizado numa produção musical da dupla Éme e Moxila.

O meio-fundo e fundo português, sob a orientação do carismático Mário Moniz Pereira, confirmavam o estatuto à escala planetária, com um registo que durou cinco anos, até ser batido pelo mexicano Arturo Bárrios (27.08,23), e que é ainda a segunda melhor marca portuguesa de sempre, atrás do recorde nacional de António Pinto (27.12,47).

Nascido em 11 de novembro de 1951, Fernando Eugénio Pacheco Mamede cresceu em Beja, tendo enfrentado uma doença pulmonar grave aos três anos. Apesar disso, encontrou no atletismo uma paixão, destacando-se nas competições regionais, até Moniz Pereira o ter descoberto e contratado para o Sporting, em 1968.

Foi sempre de verde e branco – o Sporting foi o único clube que representou, entre 1968 e 1990 - e sob a orientação do treinador de sempre que bateu o recorde mundial, três recordes da Europa e 27 nacionais, da milha aos 10.000 metros.

O homem dos recordes participou em três Jogos Olímpicos, Munique-1972, Montreal-1976 e Los Angeles-1984, sem nunca conseguir demonstrar o seu potencial, tendo, nos Estados Unidos, um mês depois de estabelecer o recorde do mundo, ficado comprovada a má relação com a pressão competitiva.

“Era a prova mais fácil para eu ganhar uma medalha… Não sei o que sinto, não sei o que se passa. Sei tudo, sei que sou o recordista do mundo, que sou mais rápido do que eles. Mas, depois, fica tudo tão confuso. A minha cabeça não aguenta toda aquela confusão… Que grande borrada eu fui fazer… Como é que isto foi possível?”, desabafou Mamede, após a corrida que marcaria a parte final da sua carreira.

Ainda tentou enveredar pela maratona, mas desistiu na estreia, em Fukuoka.

Longe das pistas, continuou atento ao desporto nacional, com presenças regulares em eventos do Comité Olímpico de Portugal e da Federação Portuguesa de Atletismo, ao mesmo tempo que assumia alguns períodos de depressão, confirmando a personalidade vulnerável que o traía nas grandes competições.


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