César Ruda está à frente do Viejo Almacén de Buenos Aires desde 1992. “O meu pai era polaco, nasceu em Varsóvia e mudou-se com os meus avós para a Argentina. Viveu lá durante 40 anos e veio para Espanha com a minha mãe, que era asturiana, emigrou no pós-guerra e regressou com o meu pai em 1971”.
O restaurante, que deve o nome à tangueria situada entre Balcarce 793 e Independencia, no bairro de San Telmo, em Buenos Aires, atravessou várias fases da história de Espanha e da Argentina. Começou com muito folclore e música de protesto e, nos anos 1980, transformou-se num restaurante de tango, algo que ainda se mantém, pois todas as noites há espetáculos deste género musical.
De facto, podem ver-se bandoneões e outros objetos ligados ao tango. “Quando assumi a gestão, como sou apaixonado por futebol, especialmente por Maradona, fui acrescentando objetos dele e também de Messi, depois de a Argentina vencer o Mundial-2022”.

Pelo Viejo Almacén de Buenos Aires passaram inúmeras figuras, tanto da política (a maioria dos ex-presidentes do governo) como da música, do cinema e, sobretudo, do desporto.
“Já recebemos desde Di Stéfano há uns anos, até Valdano, Sergio Ramos, Higuaín, Callejón, Lodi, Michael Laudrup...Além disso, Talant Dujshebaev é um grande cliente e amigo, tal como os seus filhos. Também Hombrados veio cá com ele. E depois foram gravadas aqui várias séries, como os relatórios Robinson sobre Maradona e um sobre o Chimy Ávila. Houve também uma série da Movistar, filmada no Viejo Almacén, em que Valdano comentava vários recordes e histórias da Liga quando se celebraram 100 anos, e uma delas era que a Argentina é o país que mais estrangeiros forneceu à Liga na história”.
Igualmente, Rafael Alberti, Raphael, José dos Los Chunguitos, Pedro Almodóvar, Victoria Abril ou o próprio Vicente del Bosque já passaram pelo restaurante. Um dos habituais é o cantor Dani Martín, embora haja clientes anónimos de três gerações e César sublinha: “Os nossos clientes VIP são todos os outros, as pessoas anónimas que nos acompanham”.
Estátua de Maradona
Mas, sem dúvida, a grande paixão de César é Maradona, como se percebe logo à entrada do restaurante. “Fui sempre guardando objetos de Maradona, porque era o meu ídolo de infância e continua a sê-lo. Temos uma camisola autografada por Maradona com certificado de autenticidade. Temos uma estátua dele em tamanho real no restaurante".
E prossegue. "Depois, estamos a criar uma hemeroteca com uma vasta coleção de jornais que tenho guardados para consulta no restaurante e devidamente organizados. Lá estão a final da Taça do Rei com o Athletic, com o golo de Endika e a confusão que se seguiu, a lesão após a entrada de Goicoechea, o momento em que a Argentina se sagrou campeã mundial em 1986 ou quando foi expulso contra o Brasil em 1982. E depois tenho milhares de figuras e pequenos objetos de Maradona, que fomos reunindo tanto na Argentina como em Nápoles. Tenho sempre alertas no eBay, no Wallapop, no Catawiki ou noutros sites de vendas para poder licitar por este tipo de artigos que me deixam fascinado”.

Recentemente, César conseguiu viajar com a mulher e os seus filhos a Nápoles para visitar os murais de Maradona nos Quartieri Spagnoli, assim como outros locais emblemáticos como o Bar Nilo, pois em Nápoles a idolatria por Maradona não tem igual.
“Messi saiu do Barcelona há cinco anos, Cristiano Ronaldo do Madrid há oito. Dois jogadores extraordinários, que as pessoas não esqueceram, mas ficaram por aí. Já Maradona saiu de Nápoles há 34 e continua presente. É algo que ultrapassou o futebol, trocaram o santo por Maradona e deram-lhe o nome do estádio”.
A narração de Víctor Hugo Morales
Uma das grandes atrações do espaço é a casa de banho masculina, onde se ouve a mítica narração de Víctor Hugo Morales do golo de Maradona no Argentina-Inglaterra dos quartos de final do Mundial do México 1986.
“Estou sempre a pensar em tudo o que tem a ver com o restaurante e com o futebol. Ao meu filho mais velho, desde pequeno, punha-lhe o áudio no carro e ele sabia-o de cor. Por causa disso, lembrei-me de colocá-lo na casa de banho com um sensor de movimento e depois faltava o vídeo, que se ativa quando se entra, reproduzindo esse golo espetacular”.
Além disso, César Ruda esclarece. “A casa de banho dos homens é, na verdade, mista. Porque já tivemos algumas raparigas que nos disseram que não era justo, pois também há muitas mulheres apaixonadas pelo futebol e era injusto que este tema não estivesse na casa de banho feminina. Por maioria, decidimos que na casa de banho das senhoras houvesse uma temática da Mafalda, do grande Quino”.
No que toca ao produto, as diferentes variedades de carne, assim como os vinhos, são excelentes. No entanto, Ruda destaca um prato acima dos restantes. “A empanada de carne servida com uma folha de papel absorvente, com o rosto da criadora da empanada, que é a minha mãe”.

A coleção não cabe no restaurante
Como se fosse um museu, a coleção completa não cabe no restaurante. E embora o espaço não tenha apenas temática futebolística, pois há recordações de todo o tipo da Argentina, o desporto rei é o protagonista.
“Há imensas camisolas do Nápoles de Maradona, temos uma coleção de todas, do Newell’s, do Barça, da seleção argentina, do Sevilha. Está tudo repleto de objetos e continuamos a acrescentar. Mas temos ainda mais coisas guardadas que já não cabem ou não temos onde colocar, o que é uma pena. Mas já não há mais espaço”.
César Ruda termina recordando o início da sua devoção por Maradona. “O meu tio, que até tinha ligação à direção do Argentinos Juniors, falava-me de um tal Maradona. No início dos anos 1980, do futebol argentino só se viam quatro imagens que passavam no Estudio Estadio ao domingo à noite. Sem nunca ter visto Maradona, já me conquistou. Chegou ao Barça quando eu era miúdo e tive de me tornar adepto do Barça, que depois teve a sorte de contar com Messi. E como dali foi para Nápoles, também tenho um carinho especial pelos azzurri por tudo o que isso representa e pelo que Maradona fez em Nápoles”.

