Análise: Como a rainha de gelo Rybakina conquistou a Austrália

Jelena Rybakina com o troféu de vencedora do Open da Austrália
Jelena Rybakina com o troféu de vencedora do Open da AustráliaWang Shen / Xinhua News / Profimedia

Quando, na terceira partida da final, perdia por 0-3, Jelena Rybakina (25 anos) assumiu uma expressão de jogadora de poker e, sem demonstrar grandes emoções, virou o set mais importante do torneio a seu favor. Rybakina conquistou o troféu do Grand Slam no calor australiano com a frieza de uma rainha de gelo. Ao mesmo tempo, vingou-se de Aryna Sabalenka (27) pela derrota de há três anos, conseguindo desta vez levar até ao fim, com sucesso, uma final que começou bem para si.

Recorde as incidências da partida

Quando Rybakina conquistou o seu primeiro título do Grand Slam em Wimbledon, em 2022, ninguém diria que só voltaria a erguer outro troféu deste nível três anos e meio depois. As suas qualidades técnicas, capacidades físicas e serenidade, apesar da juventude, pareciam indícios claros de uma carreira brilhante.

No entanto, apenas meio ano após esse triunfo, encontrou Aryna Sabalenka na final do Australian Open. E talvez tenha sido precisamente esse duelo, em janeiro de 2023, a abalar a sua autoconfiança. Na altura, vencia por 1-0 em sets, mas acabou por ser arrasada pela poderosa bielorrussa.

Este ano chegou a desforra. Num encontro de contornos muito semelhantes, encontrou desta vez forças e energia para fechar o jogo a seu favor. Após intermináveis 1302 dias de espera, voltou a levantar um troféu de Grand Slam.

"É difícil encontrar palavras neste momento. Quero felicitar a Aryna pelos resultados incríveis dos últimos anos e acredito que ainda vamos disputar muitas finais juntas", afirmou durante a cerimónia, finalmente deixando transparecer um sorriso. "Melbourne é mesmo o Happy Slam. Adoro sempre jogar aqui", acrescentou.

Momentos-chave

Rybakina – Gracheva 7-5, 6-2

As dificuldades inesperadas surgiram na segunda ronda. Frente a uma adversária contra quem, até então, só tinha perdido seis jogos em dois encontros, Rybakina sentiu grandes dificuldades. A francesa talvez se tenha recordado de Indian Wells 2023, onde já tinha complicado a vida à cazaque, mas, tal como nessa ocasião, só aguentou o primeiro set. Com uma reviravolta de 1-3 para 5-3 no primeiro parcial, Rybakina passou a dominar e nem a perda de mais um serviço a desestabilizou. Depois de fechar o primeiro set, o segundo foi praticamente uma formalidade.

Rybakina – Swiatek 7-5, 6-1

Primeiro set, serviço perdido em branco, resposta imediata. Mas, logo no terceiro jogo, voltou a estar sob pressão e salvou três pontos de break. Assim começou o duelo dos quartos de final frente à número dois mundial. Rybakina mostrou que sabe dominar em piso rápido e duro. O serviço foi, naturalmente, uma grande arma, com 11 ases – o seu máximo no torneio. A mentalidade vencedora ficou patente também no número de winners (26-10). O encontro ficou praticamente decidido no final do primeiro set, que venceu por 7-5 ao segundo set point. Swiatek já não conseguiu voltar ao jogo. "Conhecemo-nos bem, por isso tentei jogar de forma agressiva. No primeiro set, foi muito à custa do segundo serviço, mas no segundo joguei mais solta e servi melhor", confessou Rybakina após o encontro.

Rybakina – Sabalenka 6-4, 4-6, 6-4

Quando parecia que ia fechar o segundo set ao serviço, surgiram os melhores momentos de Aryna Sabalenka. O seu ténis ofensivo e potente retirou a vantagem à cazaque, mas não lhe tirou a confiança. Rybakina não deixou transparecer qualquer nervosismo ou receio e, no terceiro set, a perder por 0-3, voltou a virar o encontro com paciência. Sabalenka, é certo, ajudou com erros não forçados, mas Rybakina conquistou pontos decisivos com o serviço. O ás no match point foi apenas a confirmação da sua maior arma nesta final.

Números importantes

2 - Sim, este é apenas o segundo Grand Slam que Jelena Rybakina conquista na sua carreira. O primeiro foi em Wimbledon 2022. Desde então, só por uma vez chegou a uma final e, no ano passado, não foi além da quarta ronda.

47 - Este foi o número de ases que Rybakina somou ao longo dos sete encontros, dominando por completo esta estatística. A segunda classificada, Xinyu Wang, ficou-se pelos 27. É verdade que houve algumas jogadoras que, em média, fizeram mais ases por encontro (Parks 11,50 – Noskova 8,00 – Tauson 7,33 – Osaka 7,00), mas nenhuma delas foi além da terceira ronda.

60 % - Apesar de o seu melhor ranking WTA ter sido o terceiro lugar, e de, após o triunfo em Melbourne, voltar ao seu máximo de carreira dois anos depois, já soma nove vitórias frente a líderes do ranking. Rybakina é agora a jogadora com a maior percentagem de vitórias contra números um mundiais desde a criação do ranking em 1975. O seu registo é de 9-6, contando apenas jogadoras com pelo menos 10 encontros. Aliás, nos últimos 10 jogos frente a tenistas do TOP 10, tem um registo de 10-0. No século XXI, só seis jogadoras conseguiram tal feito.

A meio do ano passado, ainda estava fora do top 10 do ranking mundial. Parecia atravessar uma crise, talvez provocada pela ausência de Stefano Vukov. Em 2024, a WTA acabou por sancionar o treinador croata devido ao seu comportamento inadequado para com a jogadora, que alegadamente terá sido alvo de abuso psicológico. Rybakina, porém, negou ser vítima e, desde o verão passado, voltaram a trabalhar juntos. E, na Austrália, voltou a afirmar que sem ele nunca teria alcançado resultados tão bons.

Mas não são apenas as relações dentro da sua equipa que são complexas e envoltas em mistério. Os encontros com Rybakina são sempre um desafio psicológico para as adversárias. Não porque haja grandes emoções em campo. Pelo contrário. Muitas vezes, não há emoção nenhuma.

"Sabemos que é muito calma. Mas, na verdade, não revela nada. Nunca se sabe se está irritada, entusiasmada ou qual é o seu estado de espírito. Mas é sempre implacável", descreveu, talvez melhor do que ninguém, a sua adversária das meias-finais, Jessica Pegula.

Melbourne foi conquistada por uma jovem tímida de Moscovo, que representa o Cazaquistão e evita perguntas sobre o seu país natal.

"Para ser sincera, não vivo em lado nenhum", diz Rybakina. O presidente de longa data da federação cazaque de ténis, Bulat Utemuratov, facilitou-lhe a mudança da Rússia, e ela afirma treinar na Eslováquia e no Dubai.