Sucessor de Nadal? Alcaraz a fazer história no ténis com traços de Federer

O espanhol Carlos Alcaraz celebra com o troféu após vencer o quadro de singulares masculinos do Open da Austrália
O espanhol Carlos Alcaraz celebra com o troféu após vencer o quadro de singulares masculinos do Open da AustráliaREUTERS/Edgar Su

Carlos Alcaraz tem um carisma natural e um sorriso largo à Tom Cruise, mas por detrás do ar descontraído está alguém extremamente determinado e focado em bater recordes.

Foi precisamente isso que o jovem de 22 anos conseguiu no domingo, ao derrotar Novak Djokovic na final do Open da Austrália, tornando-se o homem mais jovem de sempre a conquistar os quatro torneios do Grand Slam, superando o lendário Rafael Nadal.

O compatriota Nadal, que esteve presente na Rod Laver Arena em Melbourne para assistir ao feito, tinha 24 anos quando completou o Grand Slam de carreira.

Alcaraz tem enorme respeito por Nadal e Djokovic, mas o ídolo do número um mundial em criança era Roger Federer.

"O Federer, a classe que tinha, a forma como fazia as pessoas verem o ténis, era algo maravilhoso", afirmou Alcaraz, que já soma sete títulos do Grand Slam, em 2023: "Ver o Federer é como contemplar uma obra de arte. É elegância, fazia tudo de forma magnífica. Fiquei fascinado por ele."

Alcaraz partilha muitas das mesmas qualidades – ousadia, versatilidade, flexibilidade tática e estilo.

O modesto e musculado talento vindo da pequena localidade de El Palmar, no sudeste de Espanha, atingiu o auge em Madrid em 2022, ao tornar-se o único homem a vencer Nadal e Djokovic no mesmo torneio em terra batida. Para reforçar ainda mais o feito, conseguiu-o em dias consecutivos a caminho do título.

Quando conquistou o seu primeiro Grand Slam, no US Open nesse mesmo ano, tornou-se o campeão mais jovem de um major masculino desde Nadal em Roland Garros 2005.

Foi também o homem mais novo a chegar ao topo do ranking mundial. A consagração em Roland Garros em 2024 garantiu-lhe o estatuto de mais jovem a vencer títulos do Grand Slam em terra batida, relva e piso duro.

De forma impressionante, Alcaraz continua a evoluir e desenvolveu uma força mental notável, recusando-se a desistir mesmo quando tudo parece estar contra si.

Demonstrou essa atitude de nunca baixar os braços na meia-final em Melbourne frente a Alexander Zverev, superando cãibras e uma desvantagem de 3-5 no quinto set para alcançar uma vitória épica.

"Detesto desistir. Não quero sentir isso", afirmou: "Quando era mais novo houve muitos jogos em que já não queria lutar ou simplesmente desisti. Depois amadureci e passei a odiar essa sensação (de perder). Cada passo a mais, cada segundo extra de sofrimento, mais um segundo de luta, vale sempre a pena".

O sucessor de Nadal

Ao seu lado durante grande parte da carreira esteve o treinador Juan Carlos Ferrero, vencedor de Roland Garros em 2003, até à separação no final do ano passado.

Ferrero levou Alcaraz para a sua academia em Valência, a 120 km de El Palmar. O seu talento bruto rapidamente atraiu patrocinadores, com marcas de referência como a Nike e a Rolex a apressarem-se a garantir o sucessor de Nadal. A equipa de ténis que rodeia o prodígio foi crescendo e passou a incluir um preparador físico, um fisioterapeuta e o apoio de psicólogos e médicos.

O potencial ficou evidente no torneio de terra batida do Rio de Janeiro em 2020, quando tinha apenas 16 anos e ocupava o 406.º lugar do ranking mundial. Surpreendeu Albert Ramos-Vinolas ao conquistar a sua primeira vitória ATP, o que o lançou no caminho do estrelato.

Alcaraz, que aprendeu a jogar numa escola de ténis dirigida pelo pai, conquistou o primeiro troféu ATP em 2021. Extremamente reservado quanto à sua vida pessoal, mantém muitos dos amigos com quem convivia em criança.

Jogou pares com Emma Raducanu no US Open do ano passado, o que gerou rumores, mas a britânica garantiu que são "apenas bons amigos".

Fora dos courts, Alcaraz interessa-se por golfe e futebol, sendo um grande adepto do Real Madrid.

Outro passatempo é o xadrez, que, segundo ele, o ajuda no seu dia a dia.

"Adoro xadrez. Ter de me concentrar, jogar contra outra pessoa, a estratégia, pensar à frente. Acho que tudo isso é muito semelhante ao que se passa no court de ténis", disse numa entrevista à Vogue em 2023: "É preciso intuir para onde o adversário vai enviar a bola, antecipar os movimentos e tentar fazer algo que o deixe desconfortável. Por isso jogo muitas vezes."