O atentado de Munique-1972, que vitimou 11 atletas israelitas, ainda estava na memória e os Jogos de Montreal foram realizados sob apertadas medidas de segurança, não tendo a qualidade desportiva das edições anteriores, apesar da entrada de uma adolescente romena para o lote das lendas olímpicas.
Com apenas 14 anos, Nadia Comaneci conseguiu o primeiro 10 perfeito na ginástica artística, na prova de barras assimétricas e, posteriormente, na trave, conquistando o ouro nestas duas especialidades e no concurso individual geral.
A sua nota, contudo, não foi percetível de imediato pelo público, uma vez que a falta de carateres suficientes nos marcadores fez com que a nota surgisse como 1,00 e não 10,00.
Se a ginástica teve grande qualidade – Comaneci eclipsou a soviética Nellie Kim, que também conquistou três ouros –, o atletismo, em especial, foi afetado pelo boicote africano.
Apenas um terço dos países africanos filiados no Comité Olímpico Internacional (COI) marcou presença na cidade canadiana, enquanto um grupo de 22, encabeçado pela Tanzânia, disse não à presença em Montreal, por o organismo ter recusado excluir a Nova Zelândia, cuja seleção de râguebi furara o boicote à África do Sul, ao realizar vários jogos particulares em Pretória, o coração do apartheid.
Para a história ficaram ainda o pugilista Clarence Hill, que conquistou uma medalha de bronze, permitindo às Bermudas serem o país mais pequeno a ganhar uma medalha, e o lançador do dardo húngaro Miklos Németh, o primeiro filho de um campeão olímpico – o pai Imre Mémeth ganhou o lançamento do martelo em Londres-1948 – a conquistar um ouro.
A União Soviética venceu uma vez mais o quadro de medalhas, com 49 de ouro (num total de 125), seguida da Alemanha Oriental, com 40 títulos olímpicos, e dos Estados Unidos, com 34 subidas ao primeiro lugar do pódio.
A seca de medalhas para Portugal terminou no Canadá, com duas novas modalidades a estrearem-se no pódio: o atletismo e o tiro com armas de caça, na melhor participação lusa até então, com duas medalhas de prata.
Carlos Lopes foi segundo nos 10.000 metros, abrindo o seu palmarés individual, que seria aumentado oito anos depois com o ouro na maratona, e Armando Marques a festejar no fosso olímpico.
Primeira medalha do atletismo no fim do jejum luso
O atletismo, a mais bem sucedida modalidade portuguesa, ganhou a sua primeira medalha nos Jogos Montreal1976, por Carlos Lopes, no fim do jejum de Portugal após 16 anos sem ir ao pódio.
Após três edições dos Jogos sem medalhas, desde a prata dos irmãos Quina na vela em Roma-1960, Portugal conseguiu no Canadá a sua melhor prestação até então, com as pratas de Carlos Lopes nos 10.000 metros e do atirador Armando Marques no fosso olímpico.
Na sua segunda participação olímpica, o fundista do Sporting apresentava-se na cidade canadiana com o título mundial de corta-mato, conquistado meses antes, e venceu a sua eliminatória, aumentando as expectativas para a decisiva corrida de atribuição das medalhas.
O país parou para ver a final olímpica dos 10.000 metros, na qual Lasse Viren, campeão olímpico da distância em Munique1972, se perfilava como principal adversário do português.
Quando estavam decorridos 7.52 minutos de prova, o português, após recuperar de uma partida que o deixou no meio do pelotão, assumiu a liderança, mas manteve apenas uma pequena vantagem até às últimas centenas de metros, não resistindo depois ao sprint de Viren.

Ainda no atletismo, Aniceto Simões foi oitavo nos 5.000 metros e José Carvalho quinto nos 400 metros barreiras.
O tiro português também esteve pela primeira vez – e única até hoje – no pódio, com Armando Marques, que ficou a um ponto do ouro no fosso olímpico.
Marques fez 189 pratos e ficou a apenas um do novo campeão, o norte-americano Donald Haldeman, acabando por ter de decidir a prata numa finalíssima com o italiano Ubaldesco Baldi (bronze).
Na natação, a reestruturação da federação deu um novo fôlego à modalidade no início da década e reuniam-se boas expectativas para Montreal1976, mas os nadadores portugueses, entre os quais as revelações Rui Abreu e Paulo Frischknecht, não obtiveram posições individuais de relevo.
A estafeta 4x200 metros livres, na qual Portugal conseguiu o 17.º lugar, com José Gomes Pereira, António Botelho de Melo, Rui Abreu e Paulo Frichknecht, estabeleceu o novo recorde nacional (2,02.03 minutos), naquele que foi o melhor resultado da natação lusa nesses Jogos.
Quadro de Medalhas
União Soviética - 125
RDA - 90
Estados Unidos - 94
RFA - 39
Japão - 25
Polónia - 26
Bulgária - 22
Cuba - 13
Roménia - 27
Hungria - 22
Finlândia - 6
Suécia - 5
Grã-Bretanha - 13
Itália - 13
França - 9
Jugoslávia - 8
Checoslováquia - 8
Nova Zelândia - 4
Coreia do Sul - 6
Suíça - 4
Coreia do Norte - 2
Jamaica - 2
Noruega - 2
Dinamarca - 3
México - 2
Trindade e Tobago - 1
Canadá - 11
Bélgica - 6
Países Baixos - 5
Espanha - 2
PORTUGAL - 2
Austrália - 5
Irão - 2
Mongólia - 1
Venezuela - 1
Brasil - 2
Áustria - 1
Bermudas - 1
Paquistão - 1
Porto Rico - 1
Tailândia - 1
