"Não preciso de garantir que estou em forma para daqui a um mês. Não tenho de preocupar-me com o pico de forma porque, se correr rápido, ótimo. E é só isso que temos de ter em mente", afirmou o oito vezes campeão do mundo, de 28 anos, à AFP.
O campeão olímpico dos 100 metros regressou esta semana a Paris, dois anos após o seu triunfo nos Jogos Olímpicos de 2024, com o objetivo de brilhar na pista azul do Estádio Charlety.
Vai competir no meeting da Liga Diamante de domingo, que recebeu luz verde apesar das preocupações com o calor extremo na capital francesa.
Durante a semana, Lyles treinou ao lado do compatriota Jordan Anthony, campeão mundial dos 60m em pista coberta, e do trinitário Jereem Richards, medalha de prata mundial nos 400m, sob o olhar atento do treinador Lance Brauman, antes de encurtar a sessão devido à vaga de calor.
De regresso ao conforto do hotel, Lyles refletiu sobre o excelente início de época, com vitórias em Roma, onde fez 9,8 segundos nos 100m - o terceiro melhor tempo do ano - e em Ostrava, onde estabeleceu um novo recorde absoluto nos 150m com 14,67 segundos.

Os 150m são uma distância híbrida raramente disputada, mas o duelo na República Checa frente ao jovem australiano Gout Gout era muito aguardado.
"Nunca teria conseguido fazer isso numa época normal. Teria de dar prioridade a meetings com concorrência muito mais forte, que se enquadrassem bem no calendário de preparação para os Mundiais ou os Jogos Olímpicos", disse Lyles.
Mas este ano, o velocista - que já leva uma década no circuito profissional - está a focar-se nas provas de que mais gosta.
Cultivar a criatividade
Depois de Paris, não voltará a colocar o dorsal até ao final de julho, para os Campeonatos dos EUA.
"É gratificante poder ter esta liberdade... vir fazer o que adoro, dedicar-me a outras coisas fora da pista e depois voltar ao que mais gosto", explicou o atleta radicado na Florida, que cultiva uma vasta gama de interesses fora do atletismo, desde a moda e manga até ao hip hop.
Em julho, vai marcar presença numa grande convenção de cultura geek e manga nos EUA antes de assistir a uma das meias-finais do Mundial de futebol.
O seu verão terminará em setembro com mais uma experiência inédita, os primeiros Ultimate Championships em Budapeste, onde terá um papel criativo na organização dos espetáculos de entrada dos atletas e das cerimónias de entrega de medalhas.
Para Lyles, que há anos defende a necessidade de modernizar o atletismo, "é um bom começo" para levar a modalidade a uma nova era que una desporto e entretenimento.
"O bom disto é que não vai afetar a tua carreira nos campeonatos do mundo ou nos Jogos Olímpicos. Por isso, espero que, tendo esta pequena margem para experimentar conceitos e ideias, consigamos encontrar coisas que funcionam e outras que não funcionam", acrescentou.

Lyles sabe que este capítulo terminará já no próximo ano com os campeonatos do mundo em Pequim, onde vai tentar conquistar o quinto título consecutivo nos 200m para superar o lendário jamaicano Usain Bolt antes dos Jogos Olímpicos em casa, em 2028. Nem todos têm a oportunidade de viver uns Jogos Olímpicos no seu próprio país estando no auge da carreira.
"É algo que não se vê nos Jogos Olímpicos durante a tua vida, enquanto estás no pico da carreira, e ainda por cima a acontecer no teu próprio país. Só isso já é uma bênção", afirmou Lyles.
A final dos 100m, onde vai defender o título, está marcada para pouco antes do seu 31.º aniversário, a 18 de julho, mas um final de carreira espetacular não lhe passa pela cabeça.
"Muitos dos meus amigos... já manifestaram a intenção de se retirarem depois de Los Angeles. Nunca pensei nisso. De todo. Estou muito mais focado na ideia de como seria incrível chegar aos 20 anos de carreira. Não estou a planear terminar. Se chegar o momento em que recebo todos os sinais, se o meu corpo já não responder como quero, se a minha vida fora da pista, com os filhos, comigo e com a Janelle, indicar que está na altura de seguir em frente, então decidirei, ok, talvez seja altura para o próximo capítulo", disse Lyles.
"Se tudo correr como desejo, adorava continuar mais 10 anos", finalizou.
