O último período de glória dos Portland Trail Blazers foi, sem dúvida, a era de Damian Lillard. Durante 11 anos, o base all-star carregou as ambições da sua equipa, primeiro como tenente, depois como líder, culminando numa final de conferência em 2019. Mas, desde esse ponto alto, a equipa foi recuando gradualmente na hierarquia, até à saída da sua estrela em 2023.
Há pouco mais de duas épocas, iniciou-se uma reconstrução. É possível que este ano se dê o primeiro passo, já que os Blazers ocupam o nono lugar no Oeste e estão bem posicionados para garantir a presença no play-in. No entanto, esta equipa não parece ter argumentos para competir com os principais candidatos da conferência.
Reconstruir leva tempo. Mas Portland tem um trunfo de peso: Deni Avdija. O israelita está a realizar uma época extraordinária, ao ponto de já ter praticamente assegurado o troféu de Most Improved Player. Contudo, apesar do seu desempenho excecional, parece não estar alinhado com o calendário da equipa.
Avdija conquistou o seu espaço
Quando, no defeso de 2024, Portland foi buscar o extremo israelita, 9.º escolhido no draft de 2020, aos Washington Wizards, sacrificando uma escolha de primeira ronda do draft seguinte (que viria a ser Carlton "Bub" Carrington) e o antigo 6th Man Of the Year Malcolm Brogdon, muitos questionaram o interesse de ambas as equipas. Especialmente dos Blazers, que tinham renovado com Jerami Grant e procuravam desenvolver Shaedon Sharpe (algo que está a acontecer).
Temia-se um excesso de jogadores para as mesmas posições, mas o israelita fez uma primeira época honesta no Oregon, na sequência de uma evolução notória no seu último ano na capital. Não se assumiu como líder, mas mostrou ser um bom jogador, completo, ainda com margem para crescer, mas já capaz de contribuir num cinco inicial. Ninguém parecia preparado para o que viria a seguir.
Esta época, Deni Avdija está a impressionar: de 16,9 pontos, 7,3 ressaltos e 3,9 assistências, passou para 26,1 pontos, 7,1 ressaltos e 6,9 assistências! Tudo isto com "apenas" mais 5,4 minutos em campo, percentagens estáveis e, pela primeira vez na carreira, um net rating positivo (0,6). É, sem dúvida, o favorito ao MIP.
Consequências diretas para a sua equipa: neste momento, Portland, que vinha de quatro épocas consecutivas com saldo negativo, apresenta agora 50% de vitórias (22-22). Avdija tornou-se o rosto da equipa, o jogador que a carrega, ultrapassando frequentemente os 30 pontos por jogo, com um máximo recente de 41 frente aos Rockets. Será suficiente para que os Blazers possam dar o salto?
Os Blazers têm matéria-prima
Apesar da sua afirmação, Portland apresenta apenas o 21.º melhor offensive rating e o 17.º defensive rating. Uma equipa "mediana", pois um só jogador não consegue fazer tudo. Ainda assim, para além do israelita, o já referido Shaedon Sharpe também está a crescer, embora de forma menos notória do que o seu colega, mas já ultrapassou esta época a fasquia dos 20 pontos de média.
No geral, esta equipa está repleta de talento. Escolhido no draft do ano passado, Donovan Clingan representa o futuro na posição de poste, o que levou a equipa a dispensar DeAndre Ayton. Revelação da época passada, Toumani Camara foi premiado com a presença na All-Defensive Second Team. Uma base sólida de jovens talentos (afinal, Avdija tem apenas 25 anos), rodeada por uma velha guarda composta por Jerami Grant, Jrue Holiday e, claro, Damian Lillard, que regressou a casa este verão, já sem um Tendão de Aquiles.
No entanto, os Blazers enfrentam vários problemas. O principal é o da linha temporal. Em 2027, Holiday, Grant e Lillard terão todos uma player option, e se os três a exercerem, o custo será de quase 90 milhões de dólares, numa altura em que estarão já na reta final das suas carreiras. A sua importância já está a diminuir, sobretudo devido a lesões, e coloca-se a questão se não será necessário sacrificar pelo menos um deles.
Sem dúvida que sim. Na maioria das vezes, Tiago Splitter (cujo impacto merecerá um dia uma análise mais aprofundada) aposta num cinco inicial com Sidy Cissoko (ou Kris Murray) - Shaedon Sharpe - Deni Avdija - Toumani Camara - Donovan Clingan. Raramente há veteranos em campo, embora Grant por vezes se junte ao grupo. Um cinco jovem, que corresponde ao que a equipa pretende.
O que vem a seguir?
Mas ao ver um jogador como Deni Avdija a tornar-se aquilo que está a tornar-se, é natural querer acelerar o processo. No final da época, restar-lhe-ão dois anos de contrato, e nesse período a equipa terá de evoluir o suficiente para o convencer a renovar. O problema é que lutar pelo título não está ao alcance de todos. Isso implicaria desfazer um grupo jovem e ambicioso para trazer um jogador de topo, mas será possível encontrar alguém claramente superior a Avdija? Ou então, tentar extrair o máximo do núcleo jovem atual e ver até onde pode chegar.
Isto significa que Deni Avdija terá de ser o centro do projeto. E não era esse o plano inicial, já que não estava presente quando a reconstrução começou, em 2023. O projeto passava por Sharpe, Clingan e Scoot Henderson. Três escolhas no Top 10 do draft. Três jogadores que são a base da reconstrução.
Assim, o israelita encontra-se numa situação semelhante à de Lauri Markkanen nos Jazz, de Michael Porter Jr nos Nets, ou até de Josh Giddey nos Bulls, ou ainda de Zach LaVine nos Kings: jogadores de grande qualidade, com números impressionantes, mas em torno dos quais não se pretende necessariamente construir. Jogadores que parecem franchise player, têm o estatuto de franchise player, mas que nunca farão a sua equipa dar o salto. Jogadores que se mantêm na esperança de virem a ser tenentes, mas que recebem (ou vão receber) salários muito elevados.
No fundo, quando terminar o seu contrato (em 2028), e se mantiver este nível, Deni Avdija poderá facilmente ganhar 50.000.000 dólares por ano, ou até mais, tal é a generosidade da NBA atual para com os jogadores. Mas isso será sinal de fracasso, pois significará que Portland o vê como líder, o homem que levará a equipa ao topo. À pergunta "é possível construir à volta de Deni Avdija?", a resposta mais provável é negativa. Restam, provavelmente, dois anos para nos fazer mudar de opinião…
